O mundo está exausto de Donald Trump, e sobram poucos
líderes nacionais adultos comprometidos com o Direito Internacional
‘É a desgraça destes tempos que os loucos guiem os cegos’,
lamenta o Conde de Gloucester na trama shakespeariana “Rei Lear”. No enredo da
peça, a frase resume a inversão moral e política que se descortina ao longo de
cinco atos. Os incapazes ou corruptos passam a conduzir os já vulneráveis, e a
autoridade deixa de estar ligada à lucidez. A imagem de “loucos” governando,
“cegos” manipulados e a ordem moral definhando refere-se tanto ao reino da
trama como ao próprio Lear, que só percebe a verdade depois de ter entregado o
poder e perdido o discernimento.
O sentido da frase de Gloucester, além de político, é moral,
por marcar um mundo em que a autoridade foi tragicamente separada da sabedoria.
E é, sobretudo, imortal, por atravessar 420 anos de existência e conseguir
retratar com acuidade nossos miseráveis tempos atuais.
O mundo está exausto de Donald Trump, e
sobram poucos líderes nacionais adultos comprometidos com o Direito
Internacional. Não é preciso concordar com o tom combativo do economista
Jeffrey Sachs, professor de políticas públicas na Universidade Columbia, para
validar sua preocupação com a mente transtornada de dois governantes
específicos que não dão paz à humanidade. Em artigo no site progressista Common
Dreams, intitulado “Dois loucos brincando de Deus”, Sachs refere-se assim a
Trump e Benjamin Netanyahu, seu parceiro de violência israelense:
— Quando líderes desequilibrados invocam a catástrofe divina
como instrumento político, não apenas seus inimigos são consumidos. A menos que
sejam detidos, todos nós seremos vítimas desses dois psicopatas. (...) Eles
estão dominados por três patologias em cascata. A primeira é de personalidade:
ambos são narcisistas malignos. A segunda é a arrogância do poder: homens que
têm o poder de comandar a aniquilação nuclear e, por isso, não sentem qualquer
contenção. A terceira, e mais perigosa de todas, é a ilusão religiosa: dois
homens que acreditam, e são informados diariamente por aqueles a seu redor, que
são messias fazendo a obra de Deus. Cada patologia agrava as outras, de modo
que, juntas, colocam o mundo num perigo sem precedentes.
Para Sachs, narcisismo maligno é um termo clínico, não um
insulto. Foi cunhado em 1964 pelo psicólogo social Erich Fromm, para descrever
Adolf Hitler como “fusão de grandiosidade patológica, psicopatia, paranoia e
personalidade antissocial numa única estrutura de caráter”. “O narcisista
maligno não é apenas vaidoso. É estruturalmente incapaz de empatia genuína,
constitucionalmente imune à culpa e movido por uma convicção paranoica de que
inimigos o cercam e devem ser destruídos”, disse Fromm.
Nunca é demais lembrar também que Trump e Netanyahu têm a
nuvem nuclear ao alcance da mão.
A Operação Fúria Épica contra o Irã entra em sua sexta
semana, e ninguém — nem mesmo Trump — sabe no que desembocará o esquisito
cessar-fogo de duas semanas, acordado mas não respeitado pelas partes. Israel,
escanteado das gestões, continua a transformar o sul do Líbano em escombros
como se não houvesse um amanhã. Problemão para um cessar-fogo cuja arquitetura
política pode ter sido ambígua o suficiente para garantir o anúncio, mas não
coerente o bastante para sobreviver ao contato com a realidade. Uma vez que as
bombas caem em Beirute e que um lado afirma que a área estava coberta pelo
acordo enquanto o outro diz que não, o problema deixa de ser um mal-entendido
técnico. Torna-se uma falha estrutural na própria trégua.
Saltam aos olhos os entendimentos mutuamente excludentes
sobre os termos do cessar-fogo. Teerã aparentava acreditar que seu plano de 10
pontos era tratado como base para a desescalada, mas Washington agora sugere um
entendimento muito mais restrito dessa base: “Reabrir o Estreito de Ormuz
enquanto os Estados Unidos suspendem os bombardeios diretos ao Irã”. É pouco,
tanto que, até a noite de sexta-feira, Ormuz estava longe de ser reaberto à
navegação statu quo ante. E continuava sendo zona perigosa, pois conseguiu
engolir um drone militar de espionagem dos Estados Unidos que fazia
bisbilhotagem. Nenhum Departamento de Defesa gosta de ver desaparecer no ar um
equipamento de US$ 200 mil (mais de R$ 1 bilhão).
Neste mundo exausto de embriagados pelo poder e corruptos
por natureza, faltam vozes como a de Cordélia, cuja lucidez foi ignorada pelo
pai, o Rei Lear. Shakespeare, presente.

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