A formação dos estudantes se enriquece quando exposta a
perspectivas plurais
Um grupo de professores lançou nesta semana um manifesto em
defesa do pluralismo, da neutralidade institucional e da liberdade acadêmica
nas universidades brasileiras. O manifesto busca enfrentar o cerceamento à
liberdade acadêmica que se tornou rotineiro nas instituições.
Em maio de 2021, o reitor da UFPB desligou a TV UFPB do
programa Univerciência, uma rede de universidades e emissoras públicas
nordestinas. A decisão ocorreu após professores, no lançamento do programa,
terem criticado a falta de investimento nas universidades e homenageado Paulo
Freire. O reitor justificou o desligamento alegando “falta de afinidade” com as
pautas e os trabalhos desenvolvidos.
Em fevereiro de 2023, estudantes da
Faculdade de Direito da USP organizaram um abaixo-assinado para tentar impedir
o retorno de Janaina Paschoal ao cargo de professora, após um período exercendo
o mandato de deputada estadual. Os alunos disseram que ela não era mais
“bem-vinda” à faculdade e a classificaram como persona non grata, alegando que
sua atuação política era incompatível com os valores democráticos da
instituição.
Em maio de 2025, a direção do Centro de Ciências Biológicas
e da Saúde do Mackenzie interveio na programação da Semana de Psicologia
organizada pelos estudantes. A instituição proibiu termos que considerou
sensíveis nos títulos das mesas, desconvidou debatedores e impôs a mediação de
professores. Pelo menos uma apresentação com temática LGBT+ foi proibida.
Em outubro de 2025, um seminário na USP sobre mulheres em
situação de vulnerabilidade foi interrompido após movimentos sociais e
diretórios estudantis protestarem contra a presença de entidades que congregam
comunidades terapêuticas, acusadas de maus-tratos. A interrupção aconteceu
depois de manifestantes intimidarem participantes e destruírem mesas e
materiais na porta do auditório.
Os casos são muito mais numerosos: pesquisadores da
Sociologia da UFF identificaram mais de uma centena nos últimos anos (os
exemplos citados aqui vêm de uma prévia desse estudo). A universidade tem
deixado de acreditar que temas difíceis e controversos devem ser enfrentados
com investigação rigorosa, evidências empíricas e análise ponderada. Vamos,
pouco a pouco, nos acostumando a conviver com censura e intimidação movidos
pelo sentimento de fazer justiça.
A comunidade acadêmica está perdendo a liberdade de debater,
ensinar e pesquisar. Segundo pesquisa do Instituto Sivis, quase metade (48%)
dos estudantes de ensino superior brasileiro afirma já ter se autocensurado em
sala de aula. Para o público, a universidade — sobretudo a universidade pública
— vai se tornando não mais um lugar de formação profissional e pesquisa de
excelência, mas de militância. Segundo pesquisa da More in Common, 59% dos
brasileiros confiam pouco ou não confiam na universidade pública, e 54%
acreditam que a universidade pública promove mais ideologia do que ensino de
qualidade.
Nossas universidades têm feito pouco para proteger a
liberdade acadêmica. Muitas vezes, as instituições alegam questões de segurança
para cancelar eventos que deveriam ser protegidos do assédio de quem quer
impedir o debate. Não é suficiente a direção não se somar aos censores, ela
precisa ativamente defender a liberdade de debater e ensinar. Também precisa
preservar a neutralidade institucional. Se autoriza palestras de políticos de
esquerda, precisa autorizar palestras de políticos de direita — e vice-versa.
Da mesma forma, deve evitar posicionamentos sobre temas controversos que
sinalizem a existência de uma ortodoxia oficial.
É preciso mudar nossa cultura institucional e orientá-la ao
pluralismo de perspectivas. Nas ciências sociais e nas humanidades, precisamos
nos esforçar para incorporar ao currículo perspectivas liberais e conservadoras
que fazem parte do cânone das disciplinas. Em certas áreas da administração, da
economia e do Direito, perspectivas progressistas estão ausentes ou
sub-representadas.
A pluralidade contribui para um ambiente epistemologicamente
saudável. A formação dos estudantes se enriquece quando exposta a perspectivas
plurais, porque o confronto entre abordagens distantes permite identificar
pressupostos, vieses e erros que tendem a passar despercebidos dentro de um
mesmo horizonte intelectual.
Nos últimos anos, temos visto muitas críticas vindas de fora
da universidade. Agora, começa a surgir um movimento de reforma vindo de
dentro. Nas primeiras 24 horas após o lançamento do manifesto, assinaram o
texto 350 docentes de 94 instituições, de 24 estados brasileiros. Parece que
podemos começar a vislumbrar uma universidade onde as divergências não são mais
enfrentadas com intimidação e hostilidade, mas pelo confronto estimulante de
ideias.

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