Partidos, analistas políticos e candidatos se acostumaram a
uma dinâmica pré-eleitoral que suprimiu de forma dramática, até aqui, qualquer
discussão de fôlego sobre diferentes projetos estratégicos para o Brasil. Esse
ritual mecanizado consiste em aguardar sempre a próxima pesquisa para, a partir
de dados que têm oscilado pouco e confirmado a tendência a uma eleição
polarizada, ditar o próximo post, a frase de efeito, a conclusão apressada e a
estratégia de tiro curtíssimo. A ausência de aprofundamento e de consistência
fica ainda mais gritante quando se olha para os postulantes a quebrar a
tendência a que a eleição se decida entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Os dois nomes mais experientes nessa liga,
os ex-governadores Ronaldo Caiado e Romeu Zema, têm percorrido os mesmos
roteiros, aparecido nas mesmas agendas, disputado os mesmos chavões e, pior, se
empenhado numa espécie de campeonato incompreensível para ver quem atua melhor
como linha auxiliar do bolsonarismo.
Quando se sabe que a única chance de qualquer um deles
avançar ao segundo turno é no lugar de Flávio, se torna ainda mais difícil
entender a dificuldade que têm de se diferenciar, minimamente que seja, do
discurso do filho de Jair. Afinal, “propostas” como o indulto ou a anistia
ampla ao ex-presidente e a seus aliados são muito mais críveis e esperadas no
filho que naqueles que dizem pretender que se vire a página da direita no país.
A condescendência da dupla com a atuação da família no
episódio das novas tarifas anunciadas por Donald Trump em relação ao Brasil
também salta aos olhos. Creditar tudo ao governo e a Lula é o discurso óbvio
para o senador do PL, que corre o risco de ser responsabilizado por parte do
eleitorado pelo revés comercial ao país e pela subserviência em relação ao
governo dos Estados Unidos.
Mas falta coragem mínima a Caiado e a Zema para sequer fazer
a distinção e mostrar como um governo de direita poderia, de forma soberana,
defender os interesses do Brasil sem repetir a maneira como os Bolsonaros têm
atuado desde que Eduardo se mudou para o Texas.
Existe clara demanda de setores do eleitorado por opções à
repetição, pela terceira eleição consecutiva, de um confronto entre o
bolsonarismo e o lulismo. As pesquisas mostram isso mês a mês, por meio de
diferentes sondagens feitas pelos institutos. Mas não há repertório algum que
faça com que se olhe para esses políticos e se enxergue neles um caminho com
começo, meio e fim para o governo. O que de diferente fariam em relação a Lula
e a Bolsonaro na área fiscal, no meio ambiente, nas relações internacionais e
em outras áreas que justifique prestar atenção a suas proposições?
A cada entrevista ou postagem em redes sociais, a opção
parece ser sempre por se mostrar opositores a Lula, algo óbvio, mas nunca como
alternativas melhores que o outro nome da própria direita. O efeito que isso
produz é o eleitor não ver chance de que eles cresçam na pesquisa — a única
métrica, diante do deserto profundo de uma mísera ideia nova que seja. Assim,
quem quer derrotar Lula segue tapando o nariz para aquilo que eventualmente
rejeita no Bolsonaro. E as mesmas pesquisas mostram que a rejeição é alta.
A exceção a essa retranca política parece vir de Renan
Santos, líder do Movimento Brasil Livre, pré-candidato pelo Missão e
concorrente ao posto de outsider. Por não ter passado na política nem ter
vinculação com o tal “sistema”, ele tem aproveitado melhor as deixas para
fustigar Flávio em temas como o financiamento de Daniel Vorcaro ao filme “Dark
Horse”. Parece ter sido o único a entender uma lógica comezinha: a vaga em
mínima disputa no segundo turno é a da direita, já que, neste ano, à esquerda,
Lula não terá contendores.
Com militância digital conhecida e familiaridade com temas
caros aos jovens e a setores conservadores da sociedade, ele tem chance de se
destacar diante da mesmice e da falta de coragem de seus concorrentes da velha
guarda cansada de guerra.

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