Ritmo de transformação do Brasil é tímido demais, mesmo
com políticas públicas de ação afirmativa
Professor e ativista Helio Santos propõe equidade racial
como política central para o país
"No dia 14 de maio, eu saí por aí/ Não tinha trabalho,
nem casa, nem pra onde ir/ Levando a senzala na alma, subi a favela/ Pensando
em um dia descer, mas eu nunca desci."
As estrofes iniciais da canção "14 de Maio", de
Lazzo Matumbi, descrevem o pós-abolição e ilustram a construção dos alicerces
de um dos países
mais desiguais do planeta —o nosso.
Assim como a concentração de renda e de
patrimônio no Brasil é branca, a pobreza também tem cor: é negra. Essa
realidade é fruto da escolha política de um Estado-nação que optou pelo
extermínio de povos nativos, substituição da mão de obra escravizada por
imigrantes europeus e adoção de um modelo institucional de gestão que exclui e
marginaliza negros.
O agronegócio brasileiro é um bom exemplo. Embora a maioria
dos trabalhadores do campo seja negra, as grandes propriedades rurais pertencem
aos brancos. Isso é fruto da Lei de Terras (1850), que impediu o acesso dos
ex-escravizados à propriedade de terras no pós-escravidão.
Sim, a realidade nacional está mudando em razão de políticas
públicas de ação afirmativa adotadas no fim do século 20 —após muita peleia dos
movimentos sociais negros. Mas o ritmo dessa transformação é tímido demais
frente ao tamanho dos problemas criados pelo racismo.
Militante histórico dos movimentos sociais negros, o
professor e ativista Helio Santos está entre os que entendem que, apesar do
êxito já conquistado, nossas políticas afirmativas ainda são insuficientes e
precisam ser elevadas a outro patamar. Nesta terça-feira (23), ele lança o
livro "14 de Maio – Lições de Resistência ao Racismo" (às 19h, no
Itaú Cultural, na avenida Paulista, em São Paulo-SP).
Na obra, propõe a equidade racial como política central para
o Brasil. "Precisamos radicalizar na democracia, o que implica reduzir
drasticamente as desigualdades raciais, que são o principal obstáculo para o
desenvolvimento nacional com sustentabilidade moral."
Concordo plenamente com ele. E você?

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