No meio do sururu dos Bolsonaro pode se ver um plano novo
para a direita extrema no Brasil
Caso Vorcaro explicita podres do STF, da finança, da
política e da operação real do poder
Um assunto político da semana foi o vídeo
de Michelle Bolsonaro, que armou salseiro novo na extrema direita. Pode ter
relevância nesta eleição apertada,
pois ameaça tirar votos de Flávio
Bolsonaro. Além do mais, Michelle pode vir a ter posição política maior do
que já tem por causa de seu status na família irreal dos Bolsonaro e de seu
apelo de palco gospel. Tem presença virtual eficaz e militância real.
Que figura nacional viaja pelo país a organizar células de
base, de resto com mulheres, com um comitê político de comando majoritariamente
feminino? Que lideranças nacionais de esquerda, que quase inexistem, têm
tamanha organização digital e agregam militantes no chão de fábrica político?
Mesmo quem não gosta do que diz Michelle deveria prestar atenção ao que ela
faz, um plano de entrincheirar a direita. A querela de Michelle com os
Bolsonaro é "pop", porém, por misturar fofoca, novela, barraco
familiar, BBB e pinimba de influenciadores, paixões nacionais.
Outro assunto da semana, Jaques
Wagner, teve também apelo sensacional, inclusive por servir à contagem de
gols contra que direita e esquerda marcam por se envolver com gangue. O Master,
porém, é mais: um fato social total do mundo dominante, para dizê-lo com
sarcasmo.
Nesta semana ficou mais evidente o interesse de ministros do
Supremo de, no mínimo, conter danos do processo contra Daniel
Vorcaro, por interesse pessoal e por alianças no Congresso. Já vimos isso
antes, o acordão que acabou por enterrar a Lava
Jato ou, mais importante, provas de corrupção sistêmica de parte
graúda da elite econômica e que ia muito além do PT.
O lavajatismo foi muitas coisas. Além de fraude processual e
parte do movimento para acabar com o PT, era uma das revoltas contra um sistema
político podre e impermeável. Perdeu, entre outros motivos, porque a política
politiqueira ocupou o espaço deixado pela repressão provisória do
lulismo-petismo. Partidos dos mais envolvidos na corrupção deste século, como
PL e PP, foram ao centro do poder com Jair
Bolsonaro. Aí valeram-se do enfraquecimento do Executivo, se apropriaram de
mais recursos (fundos, emendas, favores empresariais), ampliaram bancadas,
currais e a prestação de serviços ao poder econômico. Pode acontecer de novo.
O caso Master é também tentativa de normalizar o que se pode
chamar de corrupção contratual ou cordial: contratos para lobby nebulosamente
corrupto e favores bandidos chamados de amizade. Vorcaro e políticos, da
direita à esquerda, assim justificam seus rolos.
Evidencia também a institucionalização da finança bandida. O
Master se valia de um sistema de fintechs, fundos secretos e fraudulentos, de
liberalização financeira tosca e de falta de instrumentos de fiscalização disso
tudo, pois o Estado é fraco, por captura e falta de recursos no lugar certo.
Esse sistema continua vivo, se reorganiza e está no centro de operações de
facções, de sonegação e evasão de divisas, de fundos políticos corruptos,
tráfico de drogas, armas, combustíveis, ouro e madeira, grilagem, desmatamento etc.
Pela lente de aumento do Master a gente vê a ruína do STF, o poder
renovado do centrão direitão, a compra empresarial do Congresso, a
infraestrutura financeira do crime, aluguel de poderosos por contrato,
corrupção cordial e o padrão de acordões e perseguições políticas vigente desde
2015.
O caso Master e até o de Michelle contam um tanto de como o
país funciona.

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