Se a agenda de reorganização for mantida, estado poderá
iniciar um novo ciclo administrativo sem parte das pesadas heranças
Há momentos em que um governo parece condenado a apenas
administrar a decadência. O Rio de Janeiro viveu boa parte das últimas décadas
sob essa sensação. Crises fiscais, sucessivos escândalos políticos, estruturas
administrativas inchadas, disputas de poder e uma população cada vez mais
descrente na capacidade do Estado de entregar resultados. Por isso, a passagem
de Ricardo Couto pelo Palácio Guanabara tem provocado algo raro: um choque de
gestão que muitos classificam como surpreendentemente “apolítico”.
Em pouco mais de três meses, o governador
interino passou a ocupar o centro do debate público não por grandes discursos
ou projetos eleitorais, mas pela atuação cirúrgica sobre a máquina estatal.
Exonerações em massa, auditorias internas, revisão de contratos, redução de
estruturas administrativas e um discurso centrado na recuperação da capacidade
operacional do Estado passaram a dominar a agenda fluminense.
Talvez chame mais a atenção que Couto tenha encontrado uma
estrutura parlamentar cuja influência sobre áreas estratégicas do governo havia
se consolidado ao longo de décadas. Não se trata de arranjo exclusivo do Rio.
Governos dependem de maioria legislativa para governar. No entanto, no caso
fluminense, a ocupação de cargos comissionados e a influência sobre secretarias
e órgãos da administração direta e indireta atingiram níveis que frequentemente
ultrapassavam a lógica administrativa e passavam a integrar a própria
engenharia política do poder.
As auditorias promovidas pela atual gestão revelaram
estruturas consideradas excessivamente inchadas. Mais de 3 mil exonerações já
aconteceram desde março, atingindo praticamente todas as secretarias estaduais.
Somente na Casa Civil e na Secretaria de Governo, duas das pastas mais
influentes dos últimos anos, centenas de cargos foram eliminados. Estimativas
divulgadas pelo próprio governo apontam para uma economia superior a R$ 200
milhões até o fim de 2026, com potencial de impacto ainda maior nos exercícios
seguintes. Ao mesmo tempo, programas como o Segurança Presente passaram a ser
revisados para reduzir critérios de expansão associados a interesses políticos
locais e priorizar indicadores técnicos.
Os desafios, entretanto, permanecem enormes. A relação entre
Executivo e Assembleia Legislativa segue marcada por desconfiança e disputas de
espaço. Setores políticos que perderam influência resistem ao enxugamento.
Ainda assim, boa parte das medidas administrativas implementadas até aqui
depende apenas do Poder Executivo, permitindo que a reestruturação avance mesmo
diante de um ambiente político hostil.
Paralelamente, Couto tenta construir pontes com Brasília. O
governo estadual intensificou negociações com a União para viabilizar
investimentos, ampliar margens fiscais e defender os interesses fluminenses na
discussão sobre a divisão dos royalties do petróleo. Também foram iniciados
estudos técnicos voltados à recuperação dos sistemas de trem e metrô,
historicamente marcados por problemas de gestão e falta de investimentos. Na
educação, medidas como a ampliação da carga horária de professores e novos concursos
públicos buscam recompor áreas estratégicas que sofreram anos de desgaste.
Tudo isso ocorre em meio ao delicado processo de recuperação
fiscal do estado. A credibilidade da máquina pública, abalada por sucessivas
crises, talvez seja hoje um ativo tão importante quanto qualquer indicador
econômico.
Independentemente das preferências políticas de cada
cidadão, existe um fato difícil de ignorar: o próximo governador encontrará um
cenário potencialmente diferente daquele herdado por muitos de seus
antecessores. Se a atual agenda de reorganização for mantida, o Rio poderá
iniciar um novo ciclo administrativo sem parte das pesadas heranças que durante
anos limitaram a capacidade de ação dos governos estaduais.
O dever de casa ainda está longe de concluído. Mas, pela
primeira vez em muito tempo, há sinais de que alguém decidiu enfrentar as
engrenagens do problema em vez de apenas administrar suas consequências.
*Marlon Cecilio de Souza é mestre em economia e especialista
em política e sociedade

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