O parlamento cubano aprovou o maior pacote de reformas
econômicas desde que Fidel Castro tomou o poder, em 1959. O sonho libertário
que varreu a América Latina virou utopia
Caiu um muro ideológico na América Latina. As repercussões
foram discretas, ninguém comemorou, nem chorou, mas o forte simbolismo da
revolução cubana no imaginário político do continente virou passado, lembrança
e história. O parlamento reunido em Havana, no início deste mês, aprovou o
maior pacote de reformas econômicas desde que Fidel Castro tomou o poder, em
1959. Foram 176 medidas destinadas a enfrentar a grave crise econômica do país,
marcada por escassez de produtos, apagões, inflação e queda da produção.
As principais medidas têm por objetivo
ampliar o setor privado. Empresas particulares poderão crescer além de 100
empregados. O mesmo cidadão poderá possuir mais de uma empresa. Apareceu a
liberdade para contratação de trabalhadores. O capital estrangeiro poderá
participar diretamente de empresas privadas cubanas. Setores como agricultura,
turismo, sistema financeiro e mercado cambial serão abertos a investidores
nacionais e estrangeiros. Trata-se de profunda revolução dentro dos anteriores
sólidos conceitos socialistas de Cuba. Fidel está se remexendo no túmulo.
Os cubanos descobriram agora o que os chineses perceberam
décadas atrás: enriquecer é glorioso, sentença de Deng Xiao Ping que abriu o
caminho do capitalismo de Estado e transformou a China na segunda maior
economia do mundo. No espaço de algumas décadas, os chineses retiraram da
pobreza cerca de 500 milhões de pessoas. São os novos consumidores que
permitiram o desenvolvimento de fornecedores antes pouco atuantes, como os da
América Latina e, em especial, do Brasil.
Outro exemplo de sucesso nessa área é o Vietnã, país que foi
massacrado pelas forças armadas dos Estados Unidos. Os vietnamitas resistiram
com soldados de pés descalços e soluções criativas. Obrigaram o invasor,
derrotado, a abandonar o país. Morreram mais de 50 mil norte-americanos naquela
guerra. O Vietnã do Sul não existe mais e Saigon, antiga capital, foi
rebatizada como Ho Chi Min, nome do comandante geral das forças do Vietnã do
Norte. O governo do país privatizou empresas estatais, admitiu a livre concorrência,
entrou para Organização Mundial do Comércio e estabeleceu relações diplomáticas
com os Estados Unidos.
Os cubanos, depois de muitas hesitações, decidiram copiar os
dois modelos de capitalismo de Estado. Empresas estatais poderão ser
transformadas em sociedades de capital aberto. Além disso, bancos privados
serão liberados para atuar no mercado interno do país. O governo anuncia também
a intenção de reduzir os subsídios generalizados da economia, conceder
autonomia para governos locais e reduzir a centralização das decisões
econômicas em Havana.
O regime comunista cubano incendiou corações e mentes em
toda América Latina. No continente, a guerra fria foi particularmente dura,
porque o governo de Havana admitia a intenção de exportar sua revolução.
Ernesto Che Guevara, o número dois do regime, foi preso e morto nas selvas da
Bolívia, quando comandava a tentativa de promover a revolução comunista naquele
país. Os serviços secretos norte-americanos localizaram o argentino/cubano, o
prenderam e o mataram a sangue frio. Guevara passou a ser símbolo da revolução
em todo mundo.
O sistema comunista conseguiu alguns sucessos em Cuba. A
medicina passou a ser disponível a todos e a educação também chegou aos
cidadãos. Porém, o fracasso na condução da economia contaminou o esforço
inicial. A má gestão política e estratégica levou o país a depender da ajuda da
União Soviética. Quando o comunismo naufragou em Moscou, a economia cubana
entrou em declínio. Obteve ajuda significativa da Venezuela, com petróleo a
preços subsidiados, mas depois que os norte-americanos sequestraram Nicolás Maduro,
ex-homem forte em Caracas, a ajuda terminou. E o dinheiro acabou. O país ficou
sem energia elétrica, sem combustíveis, sem emprego e sem uma economia
razoável.
A fuga de pessoas do país foi significativa. Apenas para o
Brasil, em 2025, foram 75.599 pedidos de refúgio, aumento de 10,9% em
comparação com o ano anterior. Os cubanos conseguem vistos para visitar a
Guiana (ex-inglesa) e de lá atravessam a fronteira com Roraima, onde
reivindicam a condição de refugiados. O forte embargo econômico que os Estados
Unidos impuseram ao governo da ilha tem responsabilidade na queda do regime.
Explica muito, mas não explica tudo. O sistema criado por Fidel Castro foi
responsável pelo alto nível de concentração de poder, perseguição e morte
sistemática de opositores e a péssima gestão do país.
O sonho libertário que varreu a América Latina virou utopia.
Desfez a face heroica do regime desenhada pelo filósofo Jean Paul Sartre em seu
famoso livro Furacão sobre Cuba, que incendiou o imaginário da juventude no
continente. Tudo isso virou história.

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