Uma capivara sofreu traumatismo craniano e lesão ocular
após ser espancada com pedras e barras de ferro no Rio
O Ministério Público de Santa Catarina concluiu que o cão
Orelha não foi torturado e morto, e o caso acabou arquivado. Escrevi aqui, na
ocasião, sobre “os monstros da Praia Brava”. Apontei “meninos ricos” como os
culpados. Errei. Os monstros que imaginei continuam existindo — só não eram
aqueles, e não estavam apenas lá. São muitos mais, de todas as idades e classes
sociais. E contam, se não com a cumplicidade, com a omissão da família, da
sociedade e da lei.
Uma capivara sofreu traumatismo craniano e lesão ocular após
ser espancada com pedras e barras de ferro na Ilha do Governador. Uma
“empresária” paulista foi presa (e solta em seguida) por torturar e matar
coelhos, pintinhos e gatos, esmagando-os com os pés, em performances de
zoossadismo vendidas em vídeo. Sim, há plateia para isso.
Não são casos isolados: há redes criminosas
que aliciam crianças e adolescentes para radicalização on-line. O sadismo
começa com os animais domésticos, mais vulneráveis, e evolui para
automutilação, abuso sexual, ataques violentos, indução ao suicídio. Surgem
sinais: mudança de comportamento dos pets, que também podem aparecer feridos ou
mortos sem motivo aparente. O Núcleo de Prevenção à Violência Extrema, do
Ministério Público do Rio Grande do Sul, desenvolveu estudos sobre o tema,
organizados por Fábio Costa Pereira, com a colaboração de Michele Prado e Taís
Soares Olympio. É uma tomografia desse horror.
A polícia de São Paulo estima que ocorram até 15 sessões de
tortura on-line de pets cada madrugada. Talvez não sejam tantos, mas são
certamente dezenas por mês. E os monstros entrevistos, por engano, na Praia
Brava, podem estar agindo no apartamento (ou no quarto) ao lado.
O esvaziamento de empatia tem início fora do submundo da
internet, na naturalização do animal como mera fonte de proteína ou de
entretenimento. A expressão “chorando igual bezerro desmamado” fala do
sofrimento do bebê separado de sua mãe, ainda na fase de lactação. É dessa dor
que se alimenta a indústria de laticínios. Não é ainda a crueldade pela
crueldade, mas a insensibilização começa lá. E, se nos deixamos seduzir pelos
ovos saudáveis de “galinhas felizes”, é porque está implícita a infelicidade
das que passam a vida engaioladas, com seu ciclo natural alterado para produção
de ovos em escala industrial.
No final de maio, foi eutanasiada em Nova York uma elefanta
que passou a vida — mais de cinco décadas — trancada num zoológico. Não é a
única, não será a última. Não participou das complexas redes sociais de sua
espécie, não percorreu as grandes distâncias que são seu aprendizado. Seu mundo
foi um cercadinho. Era uma criatura que se reconhecia no espelho, que tinha
consciência de si mesma. Privada de seus direitos mais elementares, foi
batizada, ironicamente, de Happy.
Já não usamos choques elétricos e metais afiados para
adestrar animais em circos, mas os mantemos confinados com a desculpa de
estimular o interesse pela vida selvagem. Um documentário que os mostre livres,
nas florestas, desertos, savanas, oceanos, ensina muito mais.
A comoção por Orelha terá sido injusta e desproporcional,
mas simboliza o que sentimos por outros seres — os torturados para gozo dos
sádicos; os sacrificados para o deleite gastronômico; os aprisionados para
nossa diversão. Os monstros estão entre nós, não na distante Praia Brava.

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