Investigações já chegaram a tantos, que muito pouca gente
quer que prossigam
A entrevista do ministro Gilmar Mendes ao “Roda viva”, da TV
Cultura, revelou, nas entrelinhas, o que devemos esperar do escândalo
envolvendo o Master. Depois de meses discutindo os tentáculos de Daniel
Vorcaro, do Centrão ao Supremo, do candidato à Presidência pelo PL ao líder do
governo no Senado, podemos nos preparar para chegar a lugar nenhum. O que não
seria grande novidade. Das tragédias brasileiras, está esta de pularmos de
escândalo em escândalo, com uma expectativa quase pueril de que “agora vai ser
diferente”. A entrevista nos lembra que, quando o assunto envolve os donos do
poder, melhor adotar a cautela.
Ficou evidente que a delação de Vorcaro não
deverá sair. E não sairá porque as investigações já chegaram a tanta gente, que
muito pouca gente quer que prossigam. São poucos os sensibilizados com as
mesadas, os contratos advocatícios, os negócios imobiliários e toda sorte de
extravagâncias que deslumbraram o poder: de degustação de uísque em Nova York e
Londres a festinhas com eslavas e esqui em Courchevel. É muita gente querendo
abafar uma delação que, se bem feita, poderia ajudar a desvendar as contrapartidas
que Vorcaro obteve ou tentou obter dos agentes públicos. Sem ela, fica mais
difícil.
Em momentos da entrevista, Gilmar aponta preocupações com
abusos cometidos noutras investigações, como a Operação Lava-Jato. Ele tem
razão quando volta a esse ponto. O suicídio, em 2017, do reitor da Universidade
Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier, citado por ele, nos obriga a
manter um olhar crítico com as informações que vêm dos investigadores. Não se
deve comprá-las pelo valor de face, sob risco de cometer injustiça. O ministro
também criticou o fato de delações poderem ser feitas com investigados ou seus
parentes presos. Outro ponto que demanda reflexão. O Estado não pode agir com
tortura psicológica para alcançar nenhum objetivo. Não se combate o crime
cometendo crime, disse Gilmar.
Chama a atenção, no entanto, que ele não tenha manifestado a
mesma preocupação com excessos noutras ocasiões. A jornalista do Valor
Econômico Maria Cristina Fernandes perguntou sobre a delação de Mauro Cid, que
teve cinco versões e foi negociada entre idas e vindas da prisão. Na relatoria,
Alexandre de Moraes, à época, pelo trabalho de defesa da democracia, imune a
críticas dos pares e de parte expressiva da imprensa. Gilmar agora aponta como
“erro crasso” de André Mendonça o que foi modus operandi do próprio STF na
tentativa de golpe. A condenação dos golpistas, ato da maior importância para a
democracia do país, poderia ter entrado para a História sem as inovações
jurídicas às vésperas do julgamento, como a mudança na regra do foro
privilegiado ou a análise pela turma e não pelo plenário. As provas contra
Bolsonaro e seu entorno eram suficientes, e exageros no caso só serviram para
dar argumento a quem era contra condená-los.
O mesmo serve para o escândalo do momento. Forçarmos a mão
para punir os inimigos ou pegarmos o lustra-móveis para passar o pano para os
amigos repete um script já conhecido. De escândalo em escândalo, continuamos
cometendo os mesmos erros e chegando a lugar nenhum.

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