Estará sempre disponível a crença em que a Corte
constitucional italiana seria bolsonarista e teria rejeitado a extradição de
Carla Zambelli como afronta político ideológica à Justiça brasileira. Num
debate público em que ministro do Supremo foi consagrado nosso herói salvador,
aquele a quem Vorcaro – no dia em que seria preso – perguntou sobre se
conseguira bloquear algo, não faltam elementos mistificadores para compor essa
fé. (E, se criticar, lembre-se: Bolsonaro volta – o golpe sempre à espreita.)
Sob a imposição do 8 de janeiro permanente, tudo sendo
ataque à democracia, tem-se o Alexandre de Moraes isento. Sob a imposição do 8
de janeiro permanente, a isto foi elevado Moraes, cujo escritório de advocacia
da esposa tinha contrato de R$ 130 milhões com o Master, tornado a própria
encarnação do estado democrático de direito: Xandão é o Brasil; donde será
ataque ao País apontar que a condição do juiz, ao mesmo tempo vítima,
suscitaria “dúvidas sobre a imparcialidade, sob o aspecto objetivo, do tribunal
que proferiu a condenação”.
Moraes não é somente vítima e juiz. É
vítima, investigador, acusador e julgador. Às vezes, carcereiro. Os inquéritos
xandônicos, infinitos e onipresentes, têm o objeto que ele quiser. Até o caso
Master lhe chegou, como magistrado. Como amigo de uísque e de charuto, em
Brasília ou Londres, Vorcaro lhe chegara havia tempo. (Em março de 2025, o
banqueiro escreveu à noiva: “Acabou chegando hugo e ciro aqui para falarem com
alexandre”.) Moraes não é somente vítima, investigador, acusador e julgador. É
suspeito. E deveria ser investigado.
Lembre-se de Eduardo Tagliaferro, escolhido por Moraes para
lhe compor a equipe no Tribunal Superior Eleitoral, e das denúncias que fez: o
gabinete do ministro no STF encomendaria – informalmente – relatórios ao TSE
que, disparados como de geração autônoma, substanciariam-esquentariam as
medidas que já decidira tomar. Moraes, nem sempre vítima, não é somente
investigador, acusador e julgador. É juiz sob suspeição; que deveria ser
investigado. Investigado apenas o vazador Tagliaferro. Jamais o conteúdo vazado.
Investigado o vazador, que nunca teve foro no STF, corrompido o princípio do
juiz natural.
A questão não é Zambelli. É se Moraes poderia julgá-la,
condenada por invasão do sistema do CNJ para emitir ordem falsa de prisão
contra ele. A Corte de Cassação italiana não entrou no mérito do crime pelo
qual a ex-deputada foi punida. Não a absolveu. Tratou do “aspecto objetivo” – o
envolvimento do ministro no caso – em função do qual o estado de direito
estaria em xeque, dado que a qualquer criminoso devem ser asseguradas as
garantias processuais que o Direito Xandônico suprimiu.
A questão é a parcialidade de Moraes. É a subordinação do
Supremo ao código de Moraes; a contaminação dos processos – do Supremo – pela
prática de Moraes. Porque, virando a maré política cedo ou tarde, os vícios que
reabilitaram os corruptos serão os mesmos que reabilitarão os golpistas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário