A cada quatro anos, uma mesma pergunta se repete na
política
A pergunta é repetida a cada quatro anos: o desempenho do
Brasil na Copa do Mundo influencia a eleição presidencial? Os candidatos
parecem apostar que sim. Na dúvida, tentam pegar carona na torcida pela
seleção.
Desde a estreia contra Marrocos, todos os presidenciáveis se
exibiram com a amarelinha. Lula gravou vídeo para incentivar o “querido
Ancelotti”. Flávio Bolsonaro apelou à inteligência artificial para mostrar
afinidade com Neymar. Ronaldo Caiado disse que os noruegueses “vivem embaixo do
gelo” e jamais ganhariam do Brasil. Entrou numa fria.
O senso comum sugere que uma boa
performance do escrete canarinho favorece quem está no poder. Uma eliminação
vexatória, como a deste ano, ajudaria a encher a bola da oposição.
Na prática, a teoria é outra. Em 1998, o Brasil perdeu de 3
a 0 para a França e Fernando Henrique Cardoso se reelegeu no primeiro turno. Em
2002, a seleção conquistou o penta e a esquerda chegou ao Planalto.
Em 2006, 2010 e 2014, o brasileiro amargou desclassificações
precoces e votou na situação. Mesmo depois do 7 a 1. Em 2018, caímos diante da
Bélgica, mas não há evidências que liguem o gol de Kevin De Bruyn à súbita
ascensão de Jair Bolsonaro. A Copa de 2022 não conta: foi disputada em
novembro, depois da eleição.
Em artigo recente para o Journal of Global South Sport
Studies, da Universidade de Massachussets, o pesquisador Marco Bettine mostra
que a performance no Mundial não determina o resultado da urna, embora possa
influir no humor do eleitorado.
O professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da
USP também aponta uma crise no mito da pátria em chuteiras. Ele enumera fatores
que diluíram a identificação do brasileiro com a seleção: o sequestro da
amarelinha por uma facção política, os sucessivos escândalos na CBF, a revoada
dos melhores jogadores para as ligas europeias.
Se alguém ainda duvidava, o fiasco de domingo escancarou que
não somos mais o país do futebol. No máximo, o país das bets.

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