A regra nos clãs no Brasil é se protegerem a fim de se
perpetuarem nos espaços de poder
Os Collor de Mello e os Bolsonaro são exceções, cujas
brigas não foram nem estão sendo boas conselheiras
O fator
família não é novo nem raro na política brasileira em boa parte
composta por filhos que sucedem os pais e netos que se fazem a partir do legado
dos avós. Quem está nessa lida há décadas hoje fala com fulano neto e conversa
com beltrano filho do interlocutor original, herdeiro do mesmo sobrenome.
O inusitado, embora não inédito, são as brigas como essas
que assolam a grei Bolsonaro. Na regra, os clãs se preservam para se
perpetuarem. Daí a atenção ao furdúncio envolvendo Michelle
e os filhos de Jair Bolsonaro.
A mulher do ex-presidente deu tiros na
candidatura do primogênito Flávio, mas nada (ainda) parecido com o petardo
de Pedro
Collor na Presidência do irmão Fernando. Ali, o desastre foi
deflagrado pela negação da mãe ao filho caçula até então predileto, substituído
no afeto pela cobiça referida no cargo do detentor do poder maior da República.
Aqui, o que se tem é uma disputa pelo legado do chamado bolsonarismo,
que ainda está por provar ser uma corrente comparável a outros ismos
caracterizados pela fidelidade das bases social e política ao chefe, sem
ingerências familiares.
A despeito do liame da rixa em ambiente doméstico que se
desdobra em consequências para o cenário nacional, a sociologia do babado
contida em casos de famílias conflagradas é muito diferente entre um caso e
outro.
Nos Collor de Mello o evento foi pontual. Depois de dada a
tragédia, o clã sumiu do mapa da política para se transformar em tema de tramas
dramáticas em podcast, documentário e projeto de série de ficção baseada
naquele fato.
Nos Bolsonaro, o enredo se desenrola por décadas, desde o
filho adolescente posto numa eleição contra a mãe por vingança do pai, até o
episódio ainda em curso da madrasta em guerra com os enteados pela herança
política do patriarca preso e doente.
Da rusga entre irmãos, decorreu um impeachment do qual o
país saiu institucionalmente salvo. Do litígio atual, a solução virá da
resposta que o Brasil der à família em questão.

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