Jornalista e ex-guerrilheiro Celso Lungaretti morre em SP
aos 75 anos
Preso e torturado pelo regime militar, dedicou-se à
militância política e ativismo em defesa dos direitos humanos. Nos últimos
anos, escreveu o segundo volume do livro autobiográfico "Náufrago da
Utopia".
Morreu neste sábado (18) o jornalista Celso Lungaretti,
ex-militante da luta armada contra a ditadura militar, aos 75 anos. Ele estava
internado havia 21 dias no HCor, em São Paulo, depois de quebrar o fêmur
direito num acidente doméstico. Passou por uma cirurgia corretiva no início do
mês, mas acabou não resistindo às complicações pós-operatórias.
Nascido em São Paulo, em 6 de outubro de 1950, participou do
movimento estudantil e ingressou ainda muito jovem na resistência ao regime
militar. Preso em 1970, foi submetido a torturas e carregou por décadas as
marcas físicas e emocionais daquele período.
Formado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade
de São Paulo (ECA-USP), construiu uma trajetória que reuniu jornalismo,
militância política e ativismo em defesa dos direitos humanos. Em 2005,
publicou o livro Náufrago da Utopia: vencer ou morrer na guerrilha aos
18 anos, no qual revisitou sua experiência na luta armada e refletiu sobre
os sonhos, erros e tragédias daquele período histórico. O título daria nome
também ao blog que manteve por quase 20 anos como espaço de análise política e
debate público.
Uma das passagens mais marcantes de sua trajetória foi a
acusação de ter delatado aos militares, quando preso em 1970, a localização de
um acampamento da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) no Vale do Ribeira,
episódio que o acompanhou por décadas. A versão difundida entre antigos
militantes e em parte da literatura sobre a luta armada atribuía a Lungaretti a
responsabilidade pela descoberta, pelo Exército, da área de treinamento
comandada por Carlos Lamarca.
Lungaretti sempre rejeitou essa interpretação e fez da
defesa de sua versão dos fatos uma das principais batalhas de sua vida pública.
Segundo ele, as informações obtidas por seus torturadores se referiam a um
primeiro local de treinamento que havia sido abandonado pela organização dois
meses antes por motivos de segurança.
O acampamento efetivamente cercado pelas forças militares
funcionava em uma área próxima, da qual ele não tinha conhecimento. Para
Lungaretti, conforme relatou em diversas entrevistas, sua responsabilização
serviu para encobrir falhas de segurança cometidas pela própria VPR e
transferir a culpa pelo fracasso da operação a um militante que já estava preso
e não podia se defender.
Décadas depois, documentos militares e revisões
historiográficas ajudaram a reabrir o debate. Em 2004, o historiador Jacob
Gorender, referência nos estudos sobre a esquerda armada, reconheceu
publicamente que Lungaretti fornecera informações sobre uma área já desativada
e que não tinha conhecimento do acampamento onde Lamarca e seus companheiros
realizavam treinamentos quando ocorreu a Operação Registro. A manifestação foi
recebida por Lungaretti como uma reparação tardia para uma acusação que
considerava uma das maiores injustiças de sua vida.
Nos últimos anos, dedicou-se à elaboração de Náufrago
da Utopia 2, no qual procurou sistematizar as lições políticas e pessoais
extraídas de sua trajetória. A obra estava concluída e em fase de edição.
Ao refletir recentemente sobre o legado que gostaria de
deixar "aos companheiros que virão", destacou a luta pela própria
anistia e a campanha em defesa da libertação do escritor
italiano Cesare Battisti, condenado por assassinatos cometidos na
década de 1970, durante período conhecido como "anos de chumbo" na
Itália [Battisti viveu no Brasil entre 2004 e 2018, quando fugiu para a
Bolívia antes de ser capturado e extraditado para a Itália, onde cumpre pena de
prisão perpétua desde 2019].
"É por eles todos que eu quero ser lembrado: como quem
ousou lutar batalhas dificílimas e geralmente vencê-las, provando que nós,
revolucionários, não podemos nos conformar jamais com as injustiças e, se
travarmos as lutas até o fim, temos sempre a possibilidade de dar a volta por
cima", escreveu no final de junho no blog Náufrago da Utopia.
Celso Lungaretti deixa a esposa Nadja e as filhas Luana e
Laura. O corpo dele será velado na próxima terça-feira (21) no Cemitério São
Pedro, na Zona Leste da capital paulista.

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