Não é memória curta, mas um sistema eleitoral que torna
lembranças pouco relevantes
A pesquisa Datafolha que revelou que 75% dos brasileiros não
conseguem citar o nome de um senador e 68% não se lembram de um deputado
federal provocou uma enxurrada de diagnósticos pessimistas sobre a democracia
brasileira. Para muitos, os números seriam prova do desinteresse dos cidadãos
pela política, da baixa qualidade do voto ou da incapacidade do Congresso de se
conectar com a sociedade.
Em vez de perguntar por que o eleitor esquece em quem votou,
deveríamos perguntar por que o sistema eleitoral lhe daria incentivos para
lembrar. A memória política não é apenas uma característica individual. Ela é,
em grande medida, produzida pelas instituições.
Em democracias que adotam distritos
eleitorais pequenos, como Estados Unidos e Reino Unido, cada parlamentar
representa uma comunidade claramente delimitada. A relação entre representante
e representado tende a ser direta, territorial e personalizada. O eleitor sabe
quem é seu deputado, e o deputado sabe quem são seus eleitores.
No Brasil, porém, a lógica é outra. Elegemos deputados pelo
sistema proporcional de lista aberta em distritos de enorme magnitude. Nesse
ambiente, a representação deixa de ser uma relação direta para se transformar
em uma representação em rede. Entre o parlamentar e o eleitor surgem prefeitos,
vereadores, lideranças religiosas, associações comunitárias, sindicatos,
empresários locais e inúmeras outras organizações que fazem a ponte entre
ambos. São esses intermediários que mobilizam votos, acompanham a atuação do
parlamentar e ajudam a transformar recursos públicos em apoio político.
O parlamentar, portanto, depende de manter ativa essa rede
de relações. Em vez de responder diretamente a milhões de cidadãos dispersos, o
parlamentar presta contas continuamente às lideranças locais que sustentam sua
base eleitoral.
Isso ajuda a compreender a importância das emendas
parlamentares na política brasileira. Ao proporcionar capacidade individual dos
parlamentares de direcionar recursos para municípios e organizações locais,
elas fortalecem justamente essas redes de intermediação. Quanto mais recursos
um deputado controla, maior o incentivo para cultivar lideranças locais e menor
a necessidade de investir na construção de uma reputação junto ao eleitorado
como um todo.
Isso não significa que o eleitor seja alienado ou que a
democracia esteja necessariamente em crise. Significa apenas que nosso sistema
eleitoral recompensa um tipo específico de conexão entre representantes e
representados: uma conexão indireta, mediada por redes políticas locais.

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