O verdadeiro produtor de um filme é aquele que o
financiou e cujo nome nem sempre aparece
Se o filme sobre Bolsonaro for nacional, ele nos deve,
sim, satisfações sobre seus custos
Flávio
Bolsonaro está se jactando de que as especulações sobre "Dark Horse"
, filme sobre seu pai, são "página virada". A Ancine (Agência
Nacional do Cinema) deu ao filme o registro
de "obra estrangeira", o que o põe a salvo de investigações sobre
a origem, a trajetória e o destino do dinheiro usado na produção. Com isso, por
ser uma produção "americana", ninguém tem nada a ver com o fato de
que esse dinheiro, gerado no Brasil, foi dar um passeio pelos EUA e voltou para
pagar as contas aqui. Mas será ele, tecnicamente, uma "obra
estrangeira"?
Como definir se uma produção
cinematográfica é nacional ou estrangeira? Ao contrário do que se pensa, não é
pelo nome do produtor que, nos pôsteres, vem logo abaixo dos atores e do
diretor. Ele é apenas o produtor executivo, o que contrata os astros e a equipe,
supervisiona as filmagens, controla o organograma e acompanha o processo até o
último corte e a exibição. É um funcionário, assim como todos que passam às
pressas nos créditos ao fim do filme, só um pouco mais graduado. O verdadeiro
produtor, cujo nome nem sempre aparece, é o que pôs o dinheiro.
Este é o dono do filme, o proprietário legal do produto
final, ou seja, do arquivo ou do negativo original, da distribuição e exibição
em outras mídias e, importante, do copyright. Enfim, o produtor é o
financiador, aquele
que pagou para que o filme fosse possível –e que, certamente, exigirá
muita coisa em troca, seja em dinheiro ou, talvez, favores
institucionais. Quem
botou o dinheiro para filmar "Dark Horse"?
Não me parece plausível que produtores americanos invistam
num filme cuja bilheteria é duvidosa até no Brasil. Além disso, o país inteiro
escutou Flávio Bolsonaro suplicar milhões a Daniel Vorcaro a fim de pagar os
atrasados aos bacanas americanos. Será então Vorcaro o produtor? Nesse caso,
"Dark Horse" é uma produção nacional e nos deve satisfações, sim.
Ficam assim informados a Ancine, a
Polícia Civil de São Paulo , a PF, a PGR, o STF e o, no caso,
descansado ministro André Mendonça.

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