Eleição será decidida por quem conseguir devolver ao
trabalhador a sensação de que vale a pena acordar cedo
Por que tanta gente anda votando com raiva? A política
brasileira continua procurando a resposta nas estatísticas, quando ela está no
ônibus lotado, na fila do posto de saúde e na mesa de quem trabalha, mas não
fecha as contas. Quem olha apenas para os indicadores encontra motivos para
comemorar. O desemprego está em 5,4%. Mas basta conversar com quem dirige por
aplicativo, vende comida na rua, faz entregas de bicicleta ou acumula dois ou
três trabalhos para perceber que há outro Brasil, onde o emprego voltou, mas a
tranquilidade não.
Não é uma percepção subjetiva. O salário
mínimo é de R$ 1.621, enquanto o mínimo necessário, calculado pelo Dieese,
supera os R$ 8 mil. O trabalhador acorda cedo, corre o dia inteiro e, no fim do
mês, decide o que deixará de pagar. Não falta ocupação. Falta dignidade
econômica. É nesse espaço que nasce o ressentimento. Não de quem perdeu
privilégios, mas de quem faz tudo certo e continua ficando para trás. Antes de
ser ideológico, esse sentimento é humano. Quem se sente abandonado procura
alguém que demonstre compreender sua realidade.
A dona da mercearia emprega três pessoas, mas nunca
conseguiu crédito compatível com seu negócio. O mecânico sustenta duas famílias
e paga juros que comprometem sua renda. A costureira não consegue disputar
licitações porque os editais favorecem empresas maiores. O país repete que os
pequenos empreendedores movem a economia, mas lhes nega crédito, assistência
técnica, compras públicas e condições para crescer. Empurra todo o risco para
quem tem a menor margem de erro. Transforma sobrevivência em mérito e falência
em fracasso individual.
Ao mesmo tempo, desapareceram muitos dos espaços onde essas
dificuldades eram compartilhadas. O chão de fábrica perdeu importância, a
sindicalização encolheu, e milhões passaram a trabalhar sozinhos, na
informalidade ou conectados apenas por plataformas digitais. A organização
coletiva enfraqueceu, mas a angústia permaneceu.
A História mostra que, quando insegurança econômica,
enfraquecimento da representação e ausência de escuta caminham juntos,
discursos simplificadores encontram terreno fértil. Não porque apresentem os
melhores diagnósticos, mas porque oferecem respostas fáceis para angústias
reais. Em vez de competir para resolver o problema, os dois lados disputam quem
conta a melhor história. Um culpa a herança, o outro culpa a ideologia, mas
quase ninguém explica por que quem trabalha e produz riqueza continua pagando o
preço mais alto para permanecer de pé.
O brasileiro não rejeita a presença do Estado. Rejeita um
Estado que demora, humilha e não entrega. Quer crédito onde encontra
burocracia, assistência técnica onde recebe exigências e políticas públicas
construídas com quem conhece o problema porque vive nele. A favela e o Brasil
popular não são territórios à espera de soluções. São lugares onde elas nascem
diariamente, mas raramente chegam às mesas onde as decisões são tomadas.
A eleição deste ano será decidida por muito mais que
programas de governo ou estratégias de comunicação. Será decidida por quem
conseguir devolver ao trabalhador a sensação de que vale a pena acordar cedo,
trabalhar duro e acreditar que o amanhã pode ser melhor que hoje. Quando essa
esperança desaparece, nasce o ressentimento. E, quando ele encontra quem o
represente antes de encontrar quem o resolva, toda a democracia passa a
conviver com um problema maior que uma disputa eleitoral.

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