No artigo anterior visitamos a primeira concepção sobre o
futuro presente na obra de Edgar Morin: a inevitabilidade da morte e os efeitos
de sua recusa na transformação do Homo Sapiens em Homo Sapiens-Demens.
Aqui, abordamos a segunda das três noções de futuro que destacamos na obra do
filósofo francês, que recentemente nos deixou (20/05/2026): o futuro como
incerteza, cuja dimensão tem crescido com o surgimento da policrise após a
década de 1970.
A imprevisibilidade do futuro é um tema central em toda a
obra do filósofo francês, constituindo um dos estímulos à compreensão e
relevância do pensamento complexo. Para ele, a história não é linear, mas um
processo cheio de desvios e imprevistos. E os estudos prospectivos erram ao
considerar que o futuro é a simples realização das tendências dominantes do
presente. “A concepção simplista crê que passado e presente são conhecidos, que
os fatores da evolução são conhecidos, que a causalidade é linear e, portanto,
o futuro é previsível” (Où va le monde. Paris, Éditions de L’Herne,
2007, p. 12)[1]. Ledo
engano.
A primeira dificuldade de pensar o futuro é
supor que conhecemos o presente, simplesmente porque nele estamos. Sem dúvida,
o presente contém, potencialmente, os futuros prováveis, como me ensinou
Claudio Porto: “O presente é grávido de muitos futuros”. O presente contém o
futuro em formas microscópicas que se desenvolvem sutilmente e são ainda
invisíveis. “A evolução não obedece nem às leis nem a um determinismo
preponderante. A evolução não é nem mecânica nem linear”, nos previne Morin (p.
18). Por concluir: “a realidade social é multidimensional”. E algumas dimensões
podem dominar em um determinado momento, mas, como existe uma rotatividade das
dominâncias, uma outra pode dominar em outro momento. Afinal, os fenômenos
sociais são multicausais. “A causalidade é uma policausalidade onde não apenas
as inter-retroações se intercombinam e se intercombatem, mas, também, todo
processo autônomo produz sua própria causalidade, sofrendo as determinações
exteriores, ou seja, comporta uma auto-exo-causalidade complexa” (p. 19).
O livro ilustra de múltiplas maneiras as dificuldades dos
estudos prospectivistas. Um dos exemplos é o estudo de Jean Baechler[2]. O
discípulo de Raymond Aron, ex-presidente da Académie des Sciences
Morales et Politiques, mostra, segundo Morin, que “o capitalismo não foi
resultado do desenvolvimento das forças produtivas do mundo feudal. Ele
apareceu como um parasita na sociedade feudal” (p. 20). O resíduo, uma
minúscula contracorrente que se tornou corrente dominante.
O devir para Morin é de uma “prodigiosa complexidade”.
Afinal, “a história inova… ela muda de trilho, se descarrilha: a contracorrente
suscitada pela corrente se mistura com esta corrente e, derrotando-a, torna-se
a corrente” (p. 21). Tudo está em movimento: “basta uma pequena inflexão
inicial, um fraco deslocamento… para que o curso (da história) seja desviado”
(p. 21). O estudioso do futuro é desprovido dos meios de previsão, pois “a
evolução dificilmente decorre de um processo provável de um determinado presente”
(p. 22). Ele não conhece as inovações que ainda não surgiram, não conhece os
processos microscópicos que vão ter um acelerado desenvolvimento, não sabe
prever os efeitos das inumeráveis inter-retroações que constituem a verdadeira
causalidade complexa, não percebe as permutações de finalidades que marcam os
processos futuros (p. 23).
Isso quer dizer que “um princípio de incerteza irredutível
afeta o futuro” (p. 24). E este reconhecimento foi um dos grandes legados da
década de 1970 com suas crises e confirmado pelas décadas seguintes, com a
queda da URSS, a invenção dos PCs, da internet, da IA. Afinal, é o crescimento
da crise civilizacional, que se esboça nos anos 1970 e se desenvolve nas
décadas seguintes em uma policrise, que impulsiona o crescimento da incerteza
no mundo atual.
E o filósofo francês se perguntava: “Como trabalhar com esta
incerteza?” e responde: “Interrogando este século (XX) que se agoniza” (p. 26).
O século XX é aquele que inventou os antibióticos e as vacinas, salvando vidas,
mas também no qual o homem desenvolveu a capacidade de se autodestruir com a
bomba atômica. Venceu o totalitarismo, mas instalou o império das
desigualdades, aumentando-as, e conservou os germes da destruição da
democracia. Produziu a riqueza ao preço da crescente degradação da natureza, provocando
as mudanças climáticas com seus eventos climáticos extremos, cada vez mais
intensos e frequentes. Tornou-se o século das crises, pois o desenvolvimento
capitalista tem na crise sua forma de existência.
As crises da década de 1970 levou a sociedade humana a uma
policrise: econômica, social, política, moral e ambiental. Não como um conjunto
autônomo e separado de crises específicas, mas de crises que se contrapõem, se
complementam e se inter-relacionam. O século XX, ao mesmo tempo que viu se
desenvolverem as forças produtivas de forma nunca vista na história da
humanidade, nos revelou seus limites naturais. Mostrando, assim, que o
desenvolvimento capitalista é inseparável da destruição, repleto de bondades e
maldades, de inclusão e exclusão, de reconhecimento e negação. E que o
progresso convive com o regresso, o avanço convive com o recuo.
O progresso técnico produz bens maravilhosos e, ao mesmo
tempo, a dependência crescente dos humanos, com o aumento de sua fragilidade,
como sinalizou Harari[3].
Permite-nos acessar um universo de informações e, simultaneamente, nos mergulha
em uma enorme ignorância. Controla doenças e cria doenças.
Acrescentaríamos que, no século XXI, ao mesmo tempo que o
progresso ergue a barreira das nações aos processos migratórios, cria uma
mentalidade ecológica e planetária. O desenvolvimento econômico-financeiro
globalizado, ao mesmo tempo que padroniza e esmaga as culturas, alimenta
resistências culturais locais. Enquanto a democracia liberal é vilipendiada,
criam-se movimentos de renovação democrática. Os contrários convivem, opõem-se
e se mesclam.
É preciso abandonar a ideia de um desenvolvimento infinito,
de um progresso sem limites. Abandonar a concepção de um progresso simples e
linear. O caminho criado pelo progresso nos conduz a um futuro que pode ser
abominável ou esplendoroso. A civilização e a barbárie convivem em um mesmo
espaço e tempo. Morin já dizia em 1958, no seu livro Autocritique (p.
227), que a civilização não passa de uma frágil película sobre a barbárie.
Morin não quer que desistamos de pensar o futuro. Seria
abdicar do presente. Apenas não devemos ter a expectativa de “adivinhá-lo”.
Pois pensar o futuro, ter um projeto, é parte da essência humana. Tentar
controlar o futuro é um desvario. Futuros se descortinam no horizonte, que pode
ser o da barbárie como o de uma nova civilização. Todas essas alternativas
estão contidas na nossa contemporaneidade.
Pleno de incerteza, o futuro deve ser enfrentado adotando-se
os princípios do pensamento complexo. As incertezas não podem deixar de ser
enfrentadas, não podem nos paralisar se quisermos construir um futuro melhor. E
nós podemos.
[1] Este
livro é um extrato de outro publicado em 1981 – Pour sortir du XXe
siècle. Paris: Fernand Nathan, cap 3. Existe uma versão em português, mas
aqui apresentam-se traduções livres do autor, e o número das páginas de
referências são do original francês.
[2] Jean
Baechler (1937-2002). Les origines du capitalisme. Paris:
Gallimard, 1971 (republicado em dois volumes em 1995 pela mesma editora)
[3] Yuval
Noah Harari. Sapiens: uma breve história da humanidade. São Paulo:
Cia das letras, 2020.
*Sociólogo, doutor em sociologia, professor associado II
da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de Desenvolvimento
Sustentável/UnB (2007/2011).

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