Disputa é uma corrida de erros, e Lula tropeça menos que
Flávio
No início de agosto, temos um cenário basicamente semelhante
ao do início de julho. Lula segue
à frente nos cenários de primeiro e de segundo turno; Flávio Bolsonaro, apesar
dos tropeços, continua firme no encalço do líder; e a terceira via faz barulho,
mas não decola — apesar de Renan Santos aparecer com quase 8% na última
pesquisa da AtlasIntel.
Já descrevi a disputa como uma corrida de erros, aqui mesmo
nesta coluna, e o cenário prossegue igual. Mas, no momento, Lula erra menos do
que Flávio
Bolsonaro e ainda teve a ajuda luxuosa dos desentendimentos na família
Bolsonaro e das medidas americanas contra o Brasil. Teve, ainda, a ajuda
inesperada do espetáculo lamentável de Javier Milei na convenção do PL. Numa
corrida assim, ganha mais quem erra menos — e, por ora, é o presidente quem
administra melhor os próprios tropeços.
Porém, a liderança de Lula continua em
xeque, já que o antipetismo é forte e beira os 50% do eleitorado. O que,
considerando uma disputa de segundo turno em que a maioria dos votos dos
candidatos da terceira via possa migrar para Flávio, torna a disputa final uma
incógnita. É o velho paradoxo das nossas eleições: lidera no primeiro turno,
mas carrega um teto de rejeição que o deixa vulnerável no voto decisivo.
“Petista teve ajuda luxuosa da família Bolsonaro, das
medidas dos EUA e do espetáculo lamentável de Milei”
De fato, Lula só perde para ele mesmo. O que significa isso?
Lula é o favorito tanto por ser o incumbente quanto por ter a caneta na mão e
estar distribuindo sacos de bondade para o eleitorado. Conta, como disse, com a
ajuda dos tropeços do seu principal adversário. Ganhou de presente a decisão do
PP, do Republicanos e do União Brasil de não fechar, pelo menos até agora, com
a candidatura de Flávio — um Centrão que prefere esperar para ver de que lado o
vento sopra. E ainda assiste de camarote ao fato de que a terceira via não
decola. Lula sabe que correria um risco enorme caso outro nome fosse para o
segundo turno.
Pelo lado de Flávio Bolsonaro, reafirmo que sua resiliência
aos erros, conflitos e tropeços de sua campanha — e à falta de apoio do Centrão
— é admirável. Desde que seu relacionamento com o Master apareceu, sua perda de
intenção de voto foi relativamente pequena: cerca de seis pontos percentuais,
em média. É pouco para um episódio dessa natureza — sinal de eleitorado fiel.
Assim, apesar de tudo, Flávio está competitivo e não pode ser descartado.
O que muda o atual cenário? Aponto três fatos, para não ser
exaustivo. Primeiro: o interesse da cidadania pelas eleições vai aumentar a
partir de agosto, o que abre campo para reflexões mais aprofundadas sobre a
escolha dos candidatos. Segundo: há a certeza de que novas revelações vão
abalar a opinião pública — em ambos os lados da polarização atual. Terceiro:
quem irá decidir a eleição são, de fato, os “nem-nem”, esse contingente que só
se move na reta final. E não podemos deixar de considerar que, ainda que em
proporções reduzidas, um nome da terceira via desponte no horizonte com mais de
10% ao longo de agosto.
Portanto, olhando para o futuro, a tendência é de que Lula
se mantenha favorito na disputa, mas o cenário está em aberto — pelos três
fatores apontados e pelo fato inconteste de que o futuro a Deus pertence.
Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006

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