No meio da disputa entre Mendonça e Moraes, clarividente,
está o presidente do tribunal, Edson Fachin, vendo que a estratégia da defesa
de Daniel Vorcaro e de sua turma é a busca da nulidade
Os dez ministros do Supremo precisam olhar para a estatueta
da Justiça que enfeita seus gabinetes. Ela é cega.
O presidente do tribunal, Edson
Fachin, sabe que a estratégia da turma do Vorcaro é obter a nulidade de
todo o processo e de suas provas. Afinal, o banqueiro quebrado ameaçou várias
vezes contar “toda a história” do Master.
Preso, está conseguindo mais do que supunha. Os
ministros Alexandre
de Moraes e André
Mendonça engalfinharam-se. Um (Mendonça) quer que os diálogos de
Moraes com Vorcaro em poder da Polícia Federal venham a público.
Trata-se da aplicação da lei do juiz americano Louis
Brandeis: “A luz do sol é o melhor desinfetante”.
O outro, Moraes, quer investigar iniciativas ilegais de
Mendonça.
No meio, clarividente, está o presidente do tribunal, Edson
Fachin, vendo que a estratégia da defesa de Vorcaro e de sua turma é a busca da
nulidade.
Assim, a maior fraude financeira da
história iria para baixo das togas. Quais? Todas, como se deu com a Lava-Jato.
Isso está claro desde o tempo em que a relatoria do caso
estava sob o ferrolho do ministro Dias Toffoli.
Como ensinaria Chico Buarque, “chamem o banqueiro”.
Institutos e ministros
O ministro André Mendonça deve estar amargamente arrependido
de ter criado o Iter, uma instituição privada de ensino nascida em 2024. Ela se
apresenta como um lugar onde “autoridades vivem o que ensinam”. O sujeito dessa
frase é a autoridade, não necessariamente o saber.
Mendonça encabeça o plantel do Iter e é seguido por um
“membro da Câmara Nacional de Licitações e Contratos da Advocacia-Geral da
União” e outro é “assessor de ministro do Supremo Tribunal Federal”: “No
Instituto Iter você aprende com quem faz.” Em dois anos, o instituto recebeu R$
10,8 milhões em verbas púbicas, vindos de 55 contratos, 54 dos quais sem
licitação.
Mendonça criou o Iter três anos depois de ser nomeado para o
Supremo Tribunal, mas não foi ele quem inventou essa fonte de conhecimento. A
iniciativa de maior sucesso na área é o IDP, Instituto Brasileiro de Ensino,
Desenvolvimento e Pesquisa, criado pelo ministro Gilmar Mendes há 25 anos, um
ano antes de ser indicado para o STF, quando ele era advogado-geral da União.
Estendendo suas atividades a Portugal, o IDP promove ciclos de palestras
chamadas de “Gilmarpalooza”, que reúnem em Lisboa magistrados, ministros,
parlamentares e empresários.
O atual procurador-geral da República, Paulo Gonet, foi um
dos fundadores do IDP.
O IDP se apresenta como “conhecimento que conecta,
comunidade que transforma” e convida: “Formamos os nomes por trás das grandes
decisões. Agora é a sua vez!”.
A lei permite que magistrados lecionem. Cada ministro do
Supremo recebe R$ 46.366,19, mais automóvel e escolta, no Brasil e no Ultramar.
Pindorama tem dois tipos de sem-teto
Em tese, os servidores não podem receber mais que os
vencimentos dos juízes do STF. Na vida real, o Brasil tem dois tipos de
sem-teto.
O primeiro tipo não tem onde morar. São cerca de 65 mil
pessoas que vivem na rua. O segundo tipo é o dos servidores públicos cujos
contracheques ultrapassam o teto constitucional. Eles seriam 53 mil. São
magistrados, procuradores, militares, professores e sabe-se lá quem mais.
Estima-se que 65% dos magistrados brasileiros recebam a cada mês valores acima
do teto. Seis dos dez ministros do STF furam o teto. Como o Supremo está na
chuva, vale mencionar os ministros que vivem livres desses penduricalhos: Edson
Fachin, Cármen Lúcia, Dias Toffoli e Cristiano Zanin.
Recordar é viver
O caso Master jogou luz sobre a presença de delegados da
Polícia Federal em gabinetes de ministros do Supremo. Tudo bem, esse magnetismo
é velho e universal.
Em abril de 1964, o marechal Castello Branco nomeou seu
colega Juarez Távora (1898-1975), ministro da Viação e Obras Públicas, que
ficava no Centro do Rio. Juarez começou a trabalhar e percebeu que sempre havia
um PM na porta do seu gabinete. Intrigado, o marechal quis saber o que o PM
fazia ali.
Demorou, mas veio a informação. Fazia tempo, o ministro da
ocasião mandou pintar a porta de sua sala. Com a tinta fresca, algumas pessoas
sujaram seus ternos e seu chefe de gabinete mandou que o PM postado à entrada
do prédio (no sol) fosse realocado para garantir que ninguém esbarrasse na
porta (refrigerada).
Isso, há anos.
Chame o ladrão
Está nas livrarias “Chame o ladrão — Como os artistas
driblaram a censura do governo militar”, do repórter Miguel de Almeida. Em 142
páginas ele traça um panorama do jogo de gato e rato entre artistas e censores
durante a ditadura. O caso mais conhecido é o de Chico Buarque, que virou
Julinho da Adelaide para escapar da censura que cortava tudo o que ele
assinava. Mas há outros. Luiz Carlos Barreto resgatou “Dona Flor e seus Dois
Maridos”, de seu filho Bruno, com a ajuda de Amália Lucy Geisel, filha do
presidente.
Um censor achava que a atriz Glauce Rocha e o cineasta
Glauber Rocha eram a mesma pessoa. Vários censores amoleciam com bebidas, um
general recebia as vítimas na garçonnière, mas todos censuravam e mutilavam a
cultura nacional. Hilária a cena do Chacrinha enxotando os censores.
Aquele mundo não era divertido como parece meio século
depois. Gilberto Gil, Caetano Veloso e dezenas de artistas foram presos,
projetos de filmes, peças e canções morreram no nascedouro por receio da
tesoura. Miguel de Almeida pesa muito bem suas escolhas. No seu melhor momento,
conta a saga do romancista Inácio de Loyola Brandão para liberar seu romance
“Zero”. Em 1973, 13 editoras rejeitaram-no.
Loyola furou a censura publicando “Zero” pela editora
italiana Feltrinelli. Só depois da edição italiana, em 1975, saiu a edição
brasileira, logo proibida. Era tarde: 10 mil exemplares haviam sido vendidos e
seu “Zero” estava na vitrine da Biblioteca Mário de Andrade.
“Chame o Ladrão” ecoa um verso de Chico Buarque. Nos
primeiros anos da ditadura, o Serviço de Censura e Diversões Públicas era
Romero Lago.
Romero Lago era Hermelindo Ramirez Godoy, mandante de um
duplo assassinato, fugido da cadeia, andou pela Argentina e pelo Paraguai, até
trocar de identidade, estabelecendo-se no Rio. Optou pelo serviço público e
explicou:
— Eu queria acima de tudo servir ao meu país, e ter uma vida
honrada. Minha principal preocupação era limpar totalmente aquela mancha. Iria
trabalhar e mais tarde propor a comprovação da minha inocência — disse. — Nunca
fui reconhecido — completou.
Segundo Romero/Hermelindo, o mandante do crime foi seu
irmão.

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