Ainda é cedo para muitas conclusões. A extraordinária
mobilização popular que tirou Lula
de um segundo lugar no primeiro turno e lhe deu mais 10 milhões de votos no
segundo certamente não será esquecida.
Um dos primeiros reflexos deve ser no quarto governo Lula.
Ele mencionou algumas vezes que governará de forma diferente e ouvirá mais os
outros. Essa abertura tem o potencial de enriquecer seu mandato, salvando-o das
armadilhas burocráticas. A derrota da direita no segundo turno também serve
para alterar seu destino político. Mesmo quando as pesquisas eram desfavoráveis
a Lula, elas já revelavam uma variável crescente: crescia o medo entre os
eleitores de uma volta da família Bolsonaro.
Se isso for interpretado corretamente, nunca mais teremos um
Bolsonaro disputando uma eleição majoritária. A direita poderá se libertar
dessa liderança. Isso não significa que ela desaparecerá. Apenas ocupará um
lugar mais modesto, compatível com seu nível de radicalidade.
No discurso da vitória, Lula mencionou a questão digital,
que teve grande papel na sua vitória. Usará as redes sociais para se comunicar
e, possivelmente, todo o governo seguirá seu caminho. Com o tempo, o governo
perceberá que o meio digital precisa dominar todas as suas instâncias. Não se
trata apenas de melhorar a imagem de governantes. Trata-se principalmente de
tornar mais fácil a vida de cidadãos e empresas que necessitam dos serviços
públicos.
A adesão da campanha à disputa nas redes sociais mostrou
também que houve avanço nesse campo. Isso graças ao trabalho de André Janones,
cuja eficácia reconheço, apesar de divergir de seus métodos.
No discurso da vitória, Lula mencionou o sucesso no combate
ao desmatamento, sinal de que fortalecerá sua política ambiental. A derrota de Flávio
Bolsonaro pelo menos espantou o fantasma de perdermos décadas de trabalho
para construir uma das melhores legislações ambientais do planeta.
O perigo ainda existe num Congresso dominado por
negacionistas. Mas o antídoto está aí: a união da minoria eleita com boas
intenções com a opinião pública mobilizada pode dar uma chance de resistência
vitoriosa. Foi assim na lei que, de certa forma, ameaçava privatizar as praias.
Nada está totalmente decidido no ano que entra. Haverá luta, mas ela acontecerá
num novo contexto.
Lula não falou mais das emendas parlamentares usadas pelo
Congresso. Disse apenas que lançaria mão delas para financiar o transporte
gratuito aos fins de semana. Sabemos que isso não é fácil. Para atenuar o
impacto negativo das emendas, serão necessárias a vigilância da Justiça e
forças-tarefas da Polícia Federal. São quase R$ 60 bilhões, indispensáveis para
um plano de governo. Quando esse problema será resolvido? A mobilização
histórica e a própria eleição se enfraquecem se o governo central não pode usar
o Orçamento de forma racional.
Finalmente, o discurso da vitória fala nos data centers que
o Brasil poderia atrair. Precisamos de um ou outro. Mas o paraíso dos data
centers seria um inferno para os moradores, porque eles usam energia e água em
grande quantidade. A resistência a eles é grande tema político nos Estados
Unidos.
Tudo isso pode esperar. O governo se prepara neste fim de
ano, e o fim das eleições é um alívio. Inclusive para nós que estamos saudosos
de novos temas.
Artigo publicado no jornal O Globo em 27 / 10 / 2026

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