Por Diego Escosteguy, com Flavia Tavares, Marcelo Rocha e
Leandro Loyola - Época
Em 12 de dezembro de 2008, a multinacional Siemens aceitou
pagar US$ 1,6 bilhão em multas aos governos americano e alemão, para se livrar
da acusação de que promovera o mais vasto esquema de corrupção já descoberto no
mundo. Numa investigação coordenada pelo Departamento de Justiça dos Estados
Unidos, a que ÉPOCA teve acesso parcial, os promotores americanos haviam
comprovado que a Siemens abastecera sistematicamente contas de empresas
fictícias em paraísos fiscais para subornar funcionários públicos e políticos
em dezenas de países. Entre 2001 e 2007, período em que os investigadores
americanos se detiveram, a Siemens gastou a extraordinária quantia de US$ 1,4
bilhão em propinas. Foram identificados 4.283 pagamentos de suborno espalhados
pelo mundo, em troca de contratos na Venezuela e na Argentina, em Bangladesh e
na China, em Israel e na Nigéria – onde quer que houvesse um bom negócio com o
governo. “A Siemens criou esquemas elaborados para esconder a natureza dos
pagamentos corruptos (…) e obter negócios ao redor do globo”, dizem os
investigadores americanos. “Notas fiscais falsas foram criadas para permitir
pagamentos mediante falsos contratos de consultoria, que identificavam serviços
que nunca seriam prestados.”
Seguiram-se punições envolvendo a maioria dos crimes
cometidos nesses países, muitas vezes com a colaboração da própria Siemens. Ao
mesmo tempo, mas em jurisdições diferentes, a multinacional francesa Alstom
também foi confrontada com sua versão “petite” do esquema de pagamento de
propina. Como ambas têm operações em comum, logo se descobriu que as duas, ao
lado de outras grandes empresas, formavam cartéis para faturar contratos
públicos. Demorou, mas essas diferentes investigações convergiram aos poucos
para o Brasil, país em que as duas multinacionais formaram um cartel para
fraudar licitações de trens e metrôs – nos governos do PSDB em São Paulo, nas
gestões Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin, e em Brasília, nas gestões
de Joaquim Roriz (então no PMDB, quando governador) e José Roberto Arruda
(então no DEM). No caso do PSDB, a Polícia Federal e a Procuradoria da
República em São Paulo passaram a investigar o esquema – mas lenta,
vagarosamente. A própria Siemens fez uma delação premiada recentemente no
Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, em que admite o cartel e
oferece provas do esquema.
Nos últimos meses, em vez de obter respostas que
esclarecessem a extensão do esquema, a opinião pública foi bombardeada por
picuinhas políticas que bordejam o caso. Tucanos insurgiram-se contra as
investigações, alegando perseguição política por parte do Ministério da
Justiça. Na semana passada, em razão de indícios, ainda que frágeis, de que
três secretários do governo Alckmin podem ter sido beneficiados pelo esquema, a
investigação do caso foi enviada de São Paulo ao Supremo Tribunal Federal, onde
autoridades com foro privilegiado, como eles, são processadas. Isso pode
inaugurar uma nova e crítica fase nas investigações. Nas últimas semanas, ÉPOCA
tentou penetrar a fumaça da política para descobrir quais são as provas sobre o
esquema – e qual a consistência delas. A reportagem entrevistou as autoridades
que acompanham as diferentes frentes de investigação, obteve os autos dos
diversos processos e levantou documentos comerciais, judiciais e bancários nos
países em que foram feitos pagamentos de propina aos brasileiros. Emergem dessa
investigação fortes evidências de que, como nos demais países, o esquema das
multinacionais no metrô de São Paulo existiu e envolveu o suborno de
funcionários públicos. Não há ainda prova de que políticos graduados do PSDB
façam parte do esquema. Emerge também a demora das autoridades brasileiras – em
comparação com outros países – em investigar, denunciar e processar os
envolvidos.
COMO O ESQUEMA OPERAVA
Seja lá fora ou no Brasil, o esquema era o mesmo. Primeiro,
a Siemens ou a Alstom abasteciam contas secretas em paraísos fiscais, sempre em
nome de laranjas, com o dinheiro destinado a pagar propina. Na sede da Siemens,
em Munique, esses recursos tinham até codinome: “NA”, ou “nützliche
Aufwendungen” (“despesas úteis”). Uma vez que a despesa útil estivesse
liberada, os executivos locais descobriam quem era preciso pagar, naquele país,
para conseguir contratos com o governo. Na maioria dos países, como no Brasil,
era preciso recorrer ao serviço de lobistas, que costumam controlar o acesso
aos burocratas e aos políticos. Geralmente, tratava-se de uma compra casada: os
lobistas negociavam os acertos tanto com os funcionários públicos quanto, em
alguns casos, com os políticos que haviam nomeado esses funcionários. Para que
o dinheiro da propina chegasse a quem detinha o poder de assinar os contratos,
os lobistas valiam-se do mesmo expediente empregado pelas multinacionais ao
lidar com dinheiro sujo. Recebiam os pagamentos da Siemens ou da Alstom em
contas mantidas em paraísos fiscais, também tituladas por empresas de fachada.
Retinham uma comissão e se encarregavam de repassar a propina a quem de
direito.
Para dar alguma aparência de legalidade a essas transações,
as multinacionais firmavam com os lobistas contratos de “consultoria”. Tanto
faz se for em português, francês ou alemão: “consultoria” pode significar
qualquer coisa – e, portanto, pode dissimular qualquer serviço sujo. É uma
estratégia tão manjada que a Siemens admitiu ao governo americano ter mantido,
em determinado momento, cerca de 2.700 contratos desse tipo espalhados pelo
mundo. De modo a dificultar ainda mais o rastreamento, em boa parte dos casos o
dinheiro da propina nem sequer saía dos paraísos fiscais. Muitos burocratas e
políticos já mantinham suas próprias contas secretas nos mesmos bancos – a
“despesa útil” que receberiam da Siemens seria apenas mais uma moeda no
cofrinho. O esquema que uniu Siemens e Alstom no Brasil seguiu esse modelo, com
pequenas diferenças, como contratos locais de consultoria e alguns pagamentos a
diretores de empresas estatais em contas nacionais.
QUEM SÃO OS ENVOLVIDOS
No processo que acaba de subir para Brasília, há fartas
provas – testemunhais, bancárias, contratuais – de que essas multinacionais e
outras empresas que participaram do cartel do metrô em São Paulo contrataram os
lobistas e pagaram propina aos funcionários públicos. O caso da construção da
linha 5 do metrô de São Paulo, um contrato de R$ 735 milhões em valores
atualizados, é exemplar para entender o esquema. Em 10 de abril de 2000,
durante o governo Covas, a Siemens da Alemanha assinou contratos de
“consultoria” com duas empresas dos lobistas Arthur e Sérgio Teixeira, ambas
sediadas no Uruguai. Pelo contrato, eles ganhariam da Siemens comissão de 8% do
valor total. Em 2 de maio, os lobistas pagaram US$ 216.800, usando contas
secretas na Suíça, ao diretor de operações do metrô de São Paulo, João Roberto
Zaniboni, que também tinha uma conta na Suíça. Em agosto, os diretores do
metrô, entre eles Zaniboni, assinaram o contrato com o consórcio liderado por
Alstom e Siemens. Nos anos seguintes, enquanto liberava os pagamentos para o
consórcio, Zaniboni recebia pagamentos que somaram, no total, US$ 500 mil, na
mesma conta na Suíça, desta vez por meio de doleiros brasileiros. Há outros
ex-funcionários graduados como Zaniboni em situação semelhante. Parte dos bens
de Zaniboni e dos demais lobistas está bloqueada.
A dúvida crucial que resta, portanto, é se os políticos
tucanos que nomearam esses funcionários também receberam dinheiro, fosse para o
bolso, fosse para campanhas do partido. Até hoje, nos muitos casos de contrato
com indício de propina, surgiram evidências fortes contra apenas um tucano:
Robson Marinho, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE).
Marinho é um dos fundadores do PSDB, coordenou a campanha de Mário Covas ao
governo de São Paulo em 1994 e, logo depois, tornou-se chefe da Casa Civil no
governo tucano. Uma conta dele, que movimentou US$ 1 milhão, foi bloqueada na
Suíça em 2009. De pronto, ele negou que tivesse dinheiro no exterior. Neste
ano, entrou com recurso na Justiça suíça para impedir que autoridades
brasileiras tenham acesso a suas movimentações bancárias em Genebra. No caso de
Marinho, segundo o Ministério Público suíço, a propina foi paga pela Alstom,
quando ele já era conselheiro do TCE. Ela se refere, dizem as autoridades
brasileiras, a um contrato de fornecimento de estações de energia ao metrô,
assinado pela Alstom, em 1998, com a Eletropaulo, companhia de energia de São
Paulo. O MP suíço enviou às autoridades brasileiras, entre outras provas, uma
carta manuscrita em que estão registradas as iniciais “RM”, como de um
“interlocutor” entre a Alstom, um partido político não identificado, o TCE e a
Secretaria de Energia. Cita-se uma comissão de 7,5% para o fechamento do
negócio. “RM” é apontado como Robson Marinho. Até agora, nada aconteceu com
ele. Marinho nega as acusações. Permanece no cargo e não foi indiciado pela PF.
De acordo com o MP suíço e investigadores brasileiros
ouvidos por ÉPOCA, o mentor da propina nos contratos da Alstom é o lobista José
Amaro Pinto Ramos. Amigo de faculdade do grão-tucano Sérgio Motta, Amaro se
apresentava no mundo dos negócios como assessor do então presidente Fernando
Henrique Cardoso. Na França, tornou-se próximo de presidentes e ministros.
Intermediava financiamentos de bancos franceses a governos de outros países,
desde que esses governos se comprometessem a gastar o dinheiro em contratos com
empresas francesas – caso do contrato negociado, segundo o MP suíço, pelo
tucano Marinho. Amaro ficava, segundo o MP suíço, com uma comissão de cada
operação. De tão influente e rico, Amaro já foi suspeito, numa investigação do
FBI de 1993, a que ÉPOCA teve acesso, de pagar propina a Ronald Brown, então
secretário de Comércio do governo de Bill Clinton. Amaro ajudara a pagar uma
casa para Brown, diz a acusação. Segundo ela, Brown, em troca, atuou para
levantar o embargo que os Estados Unidos mantinham no Vietnã, algo que
interessava aos negócios de Amaro. O Departamento de Justiça americano acabou
arquivando o caso. Procurado por ÉPOCA, Amaro negou, por meio de sua
assessoria, ter participado do esquema. Disse também que a Justiça da Suíça o
absolveu.
Das muitas empresas que, segundo o MP suíço, eram usadas por
Amaro, ÉPOCA conseguiu confirmar a existência de quatro – duas no Uruguai, uma
na Inglaterra e outra nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal.
Documentos comerciais do Uruguai confirmam que a GHT Consulting e a Vanlight
Corporation existem – e têm a mesma sede em Montevidéu que as empresas de
fachada controladas pelos lobistas Arthur e Sérgio Teixeira. Os papéis
comerciais da Inglaterra e das Ilhas Virgens Britânicas, a que ÉPOCA teve
acesso, também comprovam que outras duas empresas de Amaro – a Dashlink
International e a Klansman Overseas – existiam até recentemente. Foram fechadas
em 2009, quando tinham capital declarado de e 340 mil. Numa demonstração do
grau de sofisticação de Amaro, as empresas dele informavam às autoridades
britânicas que seus dirigentes eram… outras empresas – no caso, empresas do
grupo Amicorp, especializado em esconder dinheiro das autoridades.
AS FALHAS NA INVESTIGAÇÃO – E OS NOVOS CAMINHOS
Os investigadores brasileiros pediram a colaboração do
governo britânico para rastrear essas e outras empresas. Os dados ainda não
chegaram. Podem até não ser enviados – graças à desorganização dos brasileiros.
Os ingleses, como fazem a maioria dos países, não aceitam compartilhar
informações sigilosas, caso elas se destinem a instruir processos cíveis, como
ações de improbidade, comuns no Brasil. Compartilham apenas para colaborar em
ações criminais. Entre o grupo que assinava o pedido de colaboração brasileiro,
havia promotores da área cível do Ministério Público de São Paulo. Diante
disso, os ingleses informaram ao governo brasileiro que não enviariam os
documentos se não houvesse uma garantia de que eles serão usados somente em
processos criminais.
O que parece um pequeno erro dos investigadores esconde, na
verdade, um padrão inaceitável de trapalhadas cometidas pela PF e pelos
procuradores e promotores responsáveis
pelo caso. Os documentos do MP suíço chegaram ao Brasil em 2011. Informavam que
lobistas como Amaro e Arthur Teixeira haviam sido indiciados por corrupção e
lavagem de dinheiro, ao pagar propina em nome da Alstom. Os promotores suíços
pediam que o MP brasileiro investigasse o caso – em troca, compartilhariam
ainda mais provas sobre o esquema. No lance mais incompreensível do processo
até agora, o procurador responsável pela investigação, Rodrigo de Grandis,
“esqueceu” o pedido por quase três anos, embora tenha sido cobrado oficialmente
ao menos sete vezes por seus colegas. Em razão disso, o MP suíço informou no
mês passado que o processo contra os lobistas teve de ser arquivado. A omissão
do procurador rendeu-lhe uma investigação no Conselho Nacional do MP. Os
prejuízos à investigação – e à boa relação com a Suíça, de que o Brasil precisa
para desvendar outros esquemas de corrupção – são incalculáveis.
Após tantos anos, De Grandis não ofereceu denúncia e ainda
tirou licença para fazer um mestrado. (Procurado por ÉPOCA, ele respondeu, por
meio de sua assessoria de imprensa, que não comentaria o caso. Na semana
passada, sob investigação, De Grandis voltou da licença e reassumiu o
inquérito.) A polícia empacou na produção de provas. Os países que produziram
provas não foram devidamente acionados – e os Estados Unidos, país que conduziu
a maior investigação sobre o esquema da Siemens, não foram sequer lembrados. Os
principais lobistas e burocratas envolvidos já são senhores, e isso acelera a
prescrição dos crimes. “Se o processo permanecesse em São Paulo, apenas os
bagres poderiam ser condenados”, diz uma das autoridades que acompanham o caso.
“E talvez até eles escapassem.”
Remeter o processo a Brasília pode elevar a investigação a
outro patamar.Se a ministra Rosa Weber, sorteada como relatora do assunto na
corte, aceitar que todos os investigados sejam julgados no Supremo, haverá
novos delegados e procuradores no caso. A elite da PF e a da Procuradoria-Geral
da República serão acionadas. Nesse cenário, o Brasil poderá ter chances de
conhecer tanto os responsáveis pelo esquema quanto os que se beneficiaram dele.
A decisão que cabe a Rosa Weber não é fácil. São frágeis os
indícios que pesam contra o deputado Arnaldo Jardim, do PPS, e os três
secretários do governo Alckmin. Eles se encontram no depoimento do ex-diretor
da Siemens Everton Rheinheimer. Ao lado de outro ex-funcionário da empresa,
Rheinheimer fechou acordo de delação premiada com a PF. No caso de Arnaldo
Jardim e do secretário da Casa Civil de São Paulo, Edson Aparecido, Rheinheimer
afirmou em depoimento que soube da participação dos dois no esquema por
intermédio do lobista Arthur Teixeira. Ele disse aos investigadores que,
segundo o relato de Teixeira a ele, Jardim e Aparecido receberam parte da
propina paga pela Siemens para assegurar o famoso contrato da linha 5. No caso
dos demais secretários citados, José Aníbal (Energia), Rodrigo Garcia
(Desenvolvimento Econômico) e Jurandir Fernandes (Transportes Metropolitanos),
o indício é ainda mais tênue. Rheinheimer disse apenas que “presenciou a
intimidade” deles com os lobistas. Não há, até agora, mais nada nos autos
contra eles. Nem documentos nem outros testemunhos. A ministra Rosa Weber terá
de decidir, portanto, se esses indícios são suficientes para que os secretários
e o deputado mereçam ser investigados no Supremo.
Fique o processo em Brasília ou volte a São Paulo, ainda há
duas frentes de investigação que podem esclarecer se apenas funcionários
públicos receberam propina – ou se políticos também embolsaram a “despesa
útil”. A primeira envolve a análise da montanha digital de documentos e
computadores apreendidos pela PF em julho, nas empresas que participaram do
cartel. São cerca de 30 terabytes de informação, entre e-mails, planilhas e
comprovantes bancários. É cinco vezes a quantidade de informação apreendida pela
Promotoria de Munique em novembro de 2006, na sede da Siemens, no marco zero do
escândalo. A PF e o MPF vasculham esse enorme material apreendido em julho, mas
se trata de uma tarefa altamente complexa. É preciso ter softwares adequados,
analistas treinados e, ademais, descobrir que termos pesquisar. Até agora, a
busca não produziu resultados. Analistas do Cade também investigam esses dados.
No caso deles, procuram-se apenas provas da formação de cartel, não dos
pagamentos de propina.
A segunda frente que pode esclarecer o caso está em outros
terabytes – os apreendidos pela Promotoria de Munique. Os investigadores
brasileiros pediram ajuda aos colegas alemães. Ainda não houve resposta. Se ela
for positiva, poderá conter as peças que faltam no mosaico do caso. As
autoridades francesas, que investigaram a fundo as propinas mundiais da Alstom,
também podem mandar provas para cá. Os brasileiros ainda podem pedir
informações da investigação feita pelo Departamento de Justiça dos Estados
Unidos, que contém dados bancários do propinoduto mundial da Siemens. Essas
provas podem esclarecer a questão que, para além da espuma política, está na
mente de todos – se os tucanos deram, ou não, uma bicada no maior esquema de
corrupção do mundo.

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