Por Elio Gaspari, colunista da Folha de S. Paulo
As Comissões da Verdade flertam perigosamente com a síndrome
de Virgínia Lane. João Goulart foi envenenado e Juscelino Kubitschek morreu num
acidente provocado por um atirador de elite. Daqui a pouco aparecerá alguém
sustentando que Carlos Lacerda também foi assassinado pela ditadura. Os três
morreram entre agosto de 1976 e maio de 1977. Para quem gosta de romance
policial, há aí um prato cheio.
Vive no Rio Grande do Sul, em liberdade condicional, o
ex-agente dos serviços de segurança uruguaios Mário Neira Barreiro. Foi
condenado por roubo e posse ilegal de armas pela Justiça brasileira e o governo
de seu país pede sua extradição, por outros crimes. É dele a formulação
implausível de que em 1976 saiu da Presidência da República a ordem para matar
João Goulart. Nessa versão, trocaram-se os comprimidos da caixa de remédios de
Jango. Cardiopata, ele já tivera dois infartos e morreu na sua fazenda
argentina, ao lado da mulher. Os restos mortais do presidente estão sendo
examinados por uma equipe de legistas. Será deles a última palavra. Uma coisa é
certa: Neira Barreiro é um delinquente.
Noutra denúncia, Juscelino Kubitschek teria morrido porque
seu motorista foi baleado com um tiro na cabeça enquanto dirigia na via Dutra.
Atravessou a pista e chocou-se com uma carreta. Cena de filme. A advogada Maria
de Lourdes Ribeiro, filha do motorista, disse ao repórter Pedro Venceslau:
"Foi um acidente. Essa tese do tiro é muito primária para mim, que sou
advogada".
Existem hoje no Brasil mais de uma dezena de Comissões da
Verdade. Há a federal, as estaduais, as municipais e as autárquicas. Enquanto
os comandantes militares não reconhecerem que praticaram-se torturas nas suas
masmorras, essas comissões podem fazer bem. Por exemplo: como sumiram dezenas
de guerrilheiros que estavam no Araguaia? (Foram assassinados, mesmo quando se
entregaram.)
Numa revelação espetacular, saiu da Comissão Nacional da
Verdade a prova de que o deputado Rubens Paiva estivera no DOI do 1º Exército
em janeiro de 1971, quando desapareceu. A versão oficial da época, desmascarada
em 1978 pelos repórteres Fritz Utzeri e Heraldo Dias, dava conta de que Paiva
fora resgatado por militantes de esquerda quando era transportado no banco de
trás de Volkswagen, escoltado por um capitão e dois soldados da Polícia do
Exército. (Paiva era um homem corpulento.) Provou-se assim que um preso dado
como fugitivo, preso estivera.
Noutro lance, o ex-policial João Lucena Leal disse em maio à
Comissão Nacional da Verdade que existiu um plano para sequestrar João Goulart
e Leonel Brizola. Em novembro contou ao repórter Lucas Ferraz que mentira no
caso de Jango.
Estão vivos oficiais que sabem como foram assassinados os
guerrilheiros do Araguaia e como o cadáver de Paiva foi retirado do DOI. Tão
importante quanto conhecer os detalhes de cada crime é a busca dos mecanismos
de poder e de persuasão que transformaram oficiais do Exército em assassinos,
no cumprimento de ordens de generais, ministros e presidentes.
E Virgínia Lane? Ela tinha o título de A Vedete do Brasil e
pernas inesquecíveis para o gosto da época. Nonagenária, revelou como morreu
Getúlio Vargas: "Eu estava na cama com ele quando mataram ele". Está
no YouTube. É um regalo.
Elio Gaspari, nascido na Itália, veio ainda criança para o
Brasil, onde fez sua carreira jornalística. Recebeu o prêmio de melhor ensaio
da ABL em 2003 por "As Ilusões Armadas". Escreve às quartas-feiras e
domingos na versão impressa de "Poder", da Folha de S. Paulo

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