Por Marcel Frota e Nivaldo Souza, iG Brasília
O deputado Marco Feliciano (PSC-SP) polemiza ao falar sobre
o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela, morto no último dia 5 de
dezembro. Apesar de homenagear Mandela com um minuto de silêncio durante a
última sessão da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, Feliciano
dispara contra o líder negro por causa da aprovação de lei de aborto na África
do Sul.
Apesar da crítica, Feliciano elogia a atuação de Mandela na
questão da igualdade racial e promete uma homenagem ao líder da luta contra a
segregação racial do apartheid. O deputado é relator do projeto de lei que pode
destinar 20% das vagas em concursos público para negros. Ele antecipa que dará
parecer favorável às cotas. “Meu voto vai ser uma homenagem a Mandela”, indica.
O parlamentar avalia que deixou de ser um político somente
identificado com a corrente evangélica para ocupar um espaço vago na
preferência de eleitores conservadores, independentemente da orientação
religiosa. “Talvez eu revelei ao país uma espécie de político que parece que
está em extinção: o político com posicionamento”, afirma, ressaltando acreditar
ser hoje no cenário político “uma pessoa firme que suporta pressão”.
Isso alimenta o sonho de Feliciano em disputar uma vaga no
Senado por São Paulo em 2014. O pastor diz que a decisão não depende apenas
dele. É preciso avaliar a postulação ensaiada também por Eduardo Suplicy (PT),
Gilberto Kassab (PSD), José Serra (PSDB). Em um cenário apenas com ele e
Suplicy, o deputado diz que haveria uma “luta bonita”. “Se fosse só ele (o
candidato no estado), entraria na disputa sem medo nenhum. Seria uma luta
bonita, porque o sobrenome Suplicy está atrelado a tudo o que contraria a nós
(evangélicos)”, diz.
Feliciano compara a briga com Suplicy às históricas lutas
entre os ex-boxeadores Mike Tyson e Evander Holyfield, em meados dos anos 1990.
“Seria a luta do século (pelo Senado)”, diz, avaliando que uma candidatura a
senador pode enfrentar dificuldades na hora de encontrar um candidato ao
governo paulista disposto a tê-lo em seu palanque. “Não sei qual governador
seria capaz de comprar essa briga”.
Cabo eleitoral
O presidente da Comissão de Direitos Humanos será cabo
eleitoral do candidato do PSC à Presidência da República. Ele diz que já gostou
de Eduardo Campos (PSB-PE), mas teve de desistir do presidenciável pernambucano
depois de ler declarações dele sobre cobrança de impostos das igrejas. “Tinha
simpatia (por Campos), já estive com ele”, conta. “Mas para que ferir um povo
que tem peso de voto?”, questiona, emendando que Campos “é mal assessorado”.
Críticas mais duras são dirigidas a ex-senadora Marina Silva
(PSB-AC), que Feliciano considera que poderia ter sido sua “mentora” política
por também ser evangélica. Ele se diz desencantado com Marina depois de
declarações nas quais ela sinalizou ser favorável à união civil (material)
entre pessoas do mesmo sexo e contrária ao casamento homossexual, o que
implicaria em reconhecimento religioso. “Por que negar sua fé? Só para inglês
ver?”, critica Feliciano. “O meu problema com o casamento gay não é um papel,
um documento. É o que o documento vai dar a eles (homossexuais), como a adoção.
A Marina sabendo do nosso posicionamento se não se posicionou”.
O tom sobe mais quando questionado sobre apoiar a presidente
Dilma Rousseff, a quem acusa de não cumprir um acordo com correntes religiosas
em relação à não aprovar leis favoráveis ao aborto. Em julho, Dilma sancionou
lei estabelecendo direitos a mulheres vítimas de estupro – entre eles: oferta
da pílula de emergência conhecidas como ‘pílula do dia seguinte’, que pode
evitar a gravidez em até 72 horas após o ato sexual. “Quando a presidente
assinou um documento dizendo que no mandato dela o aborto não seria votado, eu
acreditei”, diz.
Em 2010, a então candidata Dilma divulgou carta afirmando
que não tomaria “a iniciativa de propor alterações de pontos que tratem da
legislação do aborto e de outros temas concernentes à família e à livre
expressão de qualquer religião no país”. A mudança foi decisiva para não apoiar
a reeleição de Dilma. “Eu não posso caminhar ao lado dela”, afirma Feliciano.
Direitos Humanos
Feliciano fez um apanhado de sua atuação à frente da
Comissão de Direitos Humanos e disse que o projeto de decreto legislativo
234/2011, conhecido como "projeto da cura gay", pode voltar à pauta
da comissão em 2014. A proposta tenta suspender resolução do Conselho Federal
de Psicologia que proíbe o tratamento da homossexualidade como doença.
Feliciano diz que o texto pode ser colocado em votação pelo próximo presidente
da comissão – o pastor deixará o cargo em fevereiro, quando o Congresso voltar
do recesso. “O projeto não morreu, ele foi retirado de pauta. O autor do
projeto, deputado João Campos (PSDB-GO), pode voltar (a colocá-lo em discussão)
a qualquer momento no próximo pleito”, diz.
O deputado avalia que houve excessos na discussão do projeto
que, segundo ele, suspendia uma “resolução criminosa” do Conselho de
Psicologia. “A maldita cura gay, que de cura não tem nada, é um projeto que
sustava uma resolução que para mim é criminosa”, afirma. “Conheço pessoas que
querem ajuda. A homossexualidade não é um assunto esgotado, não é científico,
não existe um gene gay”, diz.
A resposta ao ativismo gay tem sido trabalhada pela frente
parlamentar evangélica na Comissão de Direitos Humanos do Senado, onde tramita
o projeto de lei complementar (PLC 122/2006) que pretende colocar no mesmo
patamar do racismo a discriminação ou o preconceito pela orientação sexual e
identidade de gênero.
A oposição do pastor e outros religiosos levou o senador
Paulo Paim (PT-RS), relator do PLC 122, a retirar do texto a palavra homofobia
e colocar um trecho dando liberdade aos templos de recusar pessoas que
demonstrem afetividade diferente da sua orientação religiosa. Apesar das
mudanças, a frente evangélica tentará obstruir a votação do PLC 122 na comissão
do Senado. “Esse projeto é um projeto natimorto, demonizado como o da cura
gay”, diz Feliciano. “Por mais que se tente melhorá-lo, já ficou uma marca de
que ele é um projeto de gay contra evangélico.”

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