Por Dora Kramer, colunista de O Estado de S.Paulo
Com toda a deterioração das condições objetivas para que o
governo dê como favas contadas a reeleição da presidente Dilma Rousseff, convém
que os candidatos de oposição não se animem em excesso nem desconsiderem a
hipótese de que a Presidência seja do PT mais uma vez, a partir de 2015.
O que se tem como impossibilidade é apenas a vitória no
primeiro turno, coisa que o bom senso, o histórico e os dados de realidade
jamais autorizaram como cenário real. Se nas últimas três semanas o quadro
mudou em desfavor do governo, nos próximos quatro meses nada impede que se
inverta da trajetória.
Competência e instrumentos para construir a viravolta os
ocupantes do poder já demonstraram que têm. E ultimamente vêm dando sinais de
que encontraram um caminho em busca da salvação.
Desde que começou a ganhar eleições, o PT faz o mesmo:
escolhe uma ideia-força que seja simples de entender, soe prazerosa aos ouvidos
da população e martela aquilo de modo a que represente a salvação e o
adversário seja o retrato da danação.
Em 2002, "a esperança venceu o medo". Esperança de
quê? "De que um mundo diferente é possível". Em 2006, a oposição
venderia a preço de banana todo o patrimônio do País, Petrobrás à frente. Em
2010, "a primeira mulher a governar o Brasil" levaria o País ao
prometido futuro devido aos atributos de gestora excepcional.
Vencidas as validades desses slogans, hoje se prepara um
novo roteiro, já posto em execução, com base na ideia-força da luta do bem
contra o mal. Não se pode desprezar a eficácia dessa dicotomia.
Por ela, a presidente Dilma seria a representação de um
horizonte confortável, com a continuidade das benesses dos últimos anos, sem
crises nem remédios amargos. A oposição, por sua vez, que só fala em crise, na
necessidade de se tomar medidas impopulares, representaria uma ameaça ao
conforto proporcionado pelos governos do PT.
Aos ouvidos de plateias que dispõem de informações sobre o
que vem por aí, o discurso até soa artificial. Mas, para a maioria não é assim.
Para esse eleitorado, vale mais uma doce promessa na mão que a perspectiva de
amargura voando.
É nessa arena que a oposição será desafiada. E por ora não
parece preparada para responder.
Sem retoque. Ao dizer em entrevista à Folha de S. Paulo que
a candidatura do senador Aécio Neves "tem cheiro de derrota no segundo
turno", a candidata a vice-presidente da chapa do PSB, Marina Silva, foi
apenas Marina Silva cumprindo o papel que lhe cabe na parceria estabelecida em
moldes muito claros em termos de personalidade política e representatividade
social.
Adversária dos tucanos, com a vida pública construída no PT
até a saída do governo Lula e ocupando um espaço que vai muito além do papel de
mera coadjuvante, natural que Marina marque seu território junto ao eleitorado.
Foi com a ideia de agregar essas forças que em 2010 já não
quiseram se aliar ao PT nem ao PSDB que o ex-governador Eduardo Campos recebeu
com entusiasmo a filiação de Marina, quando a Rede de Sustentabilidade não
obteve registro na Justiça Eleitoral.
No momento em que o candidato do PSDB sobe nas pesquisas, o
movimento do terceiro colocado é se diferenciar para disputar. Se não o fizer,
transforma-se numa sombra daquele que pode até não ser o inimigo principal (não
é quem se tenta afastar do poder), mas não deixa de ser um oponente.
A reclamação tucana de que Marina está "levando água
para o moinho do PT" só faz sentido pelo desejo de que os colegas de
oposição participem da campanha na condição de linha auxiliar. Na disputa para
valer, ao dizer que Campos é o único em condições de derrotar o governo, Marina
leva água para onde deve levar: ao moinho do PSB. Para onde mais?

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