Editorial de O Estado de S.Paulo
Enquanto a economia afunda, o impasse político se prolonga e
a presidente é pressionada pelo partido para buscar um novo rumo, a figura do
ministro da Fazenda encolhe, seu prestígio se esvai e seu poder, muito frágil
desde o início, se aproxima de zero. Por que o ministro Joaquim Levy insiste em
ficar no cargo? Esta é a questão mais intrigante, neste momento, a respeito do
governo, dos impasses e do jogo entre os Poderes em Brasília.
Cada dia da crise
política sai muito caro para o País e impõe uma provação talvez inútil à
presidente Dilma Rousseff. Mas é possível compreender seu esforço para escapar
do impeachment. Mesmo diante da perspectiva de se tornar uma governante apenas
nominal, obediente robô a serviço de seu criador, a presidente pode considerar
tolerável essa condição. As alternativas mais prováveis seriam o despejo depois
de um processo devastador ou uma renúncia humilhante.
Ganhar tempo faz sentido para a presidente e para os líderes
de seu partido. Mas o tempo ganho dessa forma para os políticos sob pressão – e
isto inclui o presidente da Câmara, Eduardo Cunha – é tempo perdido para quem
deve cuidar da política econômica e, portanto, do complicado e penoso ajuste
das contas públicas. Na economia o impasse político se traduz como perda: a
insegurança aumenta, o empresário posterga o investimento produtivo, o
financiador encurta o crédito, o consumidor adia suas compras, o desemprego
aumenta, a arrecadação diminui, o Tesouro se enfraquece e as contas públicas
pioram.
Se as agências de avaliação de crédito cortam a nota do
País, como fez a Fitch na quinta-feira, quem se surpreende? E quem se
surpreenderá se em alguns meses a Fitch ou a Moody’s acompanhar a Standard
& Poor’s (S&P) e jogar o Brasil no grau especulativo, carimbando os
papéis do Tesouro como junk bonds, isto é, como títulos bons para o lixo?
Quando uma agência corta a nota de um país, impõe uma
reprovação à sua política econômica. A reprovação pode valer moralmente para
quem chefia o governo e para todos os políticos envolvidos nas decisões erradas
e nos impasses. Dirigentes da Fitch, como de outras agências, têm mencionado a
crise política e a corrupção em seus documentos. Mas quem, no Congresso ou na
chefia dos partidos, incluído o PT, se importa com isso?
O carimbo do rebaixamento atinge muito mais fortemente a
imagem do ministro da Fazenda que a de qualquer outro. Se houvesse perspectiva
clara de recuperação econômica, a partir da correção das finanças públicas, o
dissabor poderia valer a pena. Mas a recuperação é muito incerta, as
possibilidades de piora são consideráveis e isso foi explicitado pelos técnicos
da Fitch e da S&P.
Dar a volta por cima pode ser uma ideia tentadora, mas
dificilmente justificável no caso do ministro Joaquim Levy. O tempo das meras
pressões do PT contra sua presença no governo já passou. O tutor da presidente
Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula, pede abertamente a demissão do ministro e
uma ampla mudança da política econômica.
A imagem do Brasil já é desastrosamente ruim, como o
ministro Levy deve ter notado em Lima, durante a reunião do Fundo Monetário Internacional
(FMI). Ele mesmo pagou caro pelos desmandos de outros, ao ser acuado, numa
entrevista, com perguntas sobre o risco de impeachment e sobre a rejeição do
balanço fiscal do ano passado pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Foi salvo
pela intervenção da diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde. Não parece, no
entanto, ter aprendido.
Petistas e analistas a serviço do ex-presidente Lula acusam
o ministro Levy pela crise, como se a recessão fosse consequência de sua
política – um ajuste de fato nunca iniciado. Sua imagem será manchada pelo
fracasso no ajuste, mas alguns o criticarão por ter tentado ajustar as contas.
Sem nunca o ter prestigiado, a presidente Dilma estará ocupada demais para
defendê-lo. Os causadores do desastre sorrirão e Levy será humilhado. Ele deve
saber disso, mas, incompreensivelmente, insiste em ficar.

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