Da Época
Natasha Mosley é uma adolescente de 15 anos. Quando caminha
pelas ruas da Zona Sul do Rio de Janeiro, onde mora, atrai olhares. Isso a
incomoda. Aluna da Escola Parque, no bairro da Gávea, ela diz sentir medo
quando ouve uma cantada na rua, mesmo aquelas que aos olhares de mulheres mais
velhas possam parecer inocentes. “Uma pessoa que não me conhece não tem o
direito de dizer certas coisas para mim. Tenho vontade de reagir, de dizer que
não quero ouvir aquilo, mas fico com medo. Se um menino da escola me cantar,
posso dizer para ele que aquilo não me agrada porque estamos em igualdade de
condições. Mas na rua, de um desconhecido, não posso fazer nada. Isso me
oprime.”
A violência de uma cantada indesejada parece pequena diante
de casos como o da bailarina Ana Carolina de Souza Vieira, de 30 anos,
assassinada em São Paulo por um ex-namorado ciumento, Anderson Rodrigues
Leitão, de 27 anos. Ou diante das agressões verbais sofridas pela jornalista
Leka Peres no Facebook e via WhatsApp depois de criticar a decoração da
lanchonete The Dog Haüs, no Itaim, em São Paulo – um quadro na parede trazia os
dizeres: “Guys: no shirts, no service. Girls: no shirts, free drinks” (“Homens:
sem camisa, sem serviço. Garotas: sem camisa, bebidas grátis”). Ou ainda diante
da aprovação em uma comissão da Câmara dos Deputados do projeto de lei que
dificulta ainda mais que vítimas de violência sexual possam interromper a
gravidez.
Todos esses casos, do mais leve ao mais extremo, têm no
entanto algo em comum: são inaceitáveis – e as mulheres, de todas as idades e
gerações, não estão mais dispostas a contemporizar. Nos últimos dias, uma onda
de protestos femininos varreu o país, nas ruas e nas redes sociais, numa
espécie de Primavera das Mulheres, um “no pasarán”a uma cultura que, muitas
vezes, vê as vítimas como culpadas pelas agressões sofridas. A rede foi-se
formando aos poucos, com ativistas como as mulheres que estão nesta reportagem,
até arregimentar multidões que saem às ruas, como a que aparece na capa de
ÉPOCA desta semana.
O estopim para a mobilização feminina, que já vinha se
desenhando nas escolas, universidades e locais de trabalho, veio no mês
passado, quando mensagens de teor sexual a respeito de uma menina de 12 anos
ganharam as redes sociais. O Brasil se chocou com a brutalidade das ofensas
contra Valentina, a participante do programa de TV MasterChef Júnior. A
indignação fez com que milhares de mulheres de todas as idades se sentissem
livres para relatar nas redes sociais situações em que se sentiram humilhadas,
subjugadas por homens que se achavam no direito de persegui-las, tocá-las, ofendê-las
e, em casos mais graves, estuprá-las. Sob a hashtag primeiroassedio, a campanha
trouxe à luz histórias havia anos mantidas em segredo por mulheres que se
sentiam envergonhadas, como se tivessem culpa de ataques a caminho do trabalho,
na volta da escola, no metrô, numa festa de família.
No coro de Valentinas estão mulheres como a jornalista
paulistana Juliana de Faria, de 30 anos. Há dois anos à frente do grupo Think
Olga, espaço virtual para discutir questões femininas, Juliana ajudou a criar
condições para que agressões cotidianas sejam finalmente encaradas pela
sociedade como inaceitáveis. É do Think Olga a campanha #primeiroassedio e o
movimento Chega de Fiu-Fiu, que começou com uma pesquisa sobre as cantadas que
as mulheres ouvem nas ruas. Das 8 mil entrevistadas, 99,6% relataram já ter
passado por situações constrangedoras. Assim como Juliana, Natasha e outras
mulheres retratadas nesta reportagem, milhares delas estão construindo as bases
do que pode ser chamado não de um novo feminismo, mas de uma onda revigorada da
luta pelos direitos das mulheres. “Hoje a feminista está no cotidiano, não é
mais aquela com o sutiã na mão, como era vista antigamente”, diz a antropóloga
Debora Diniz, professora da Universidade de Brasília (UnB). O feminismo ficou
pop, como diz a historiadora Margareth Rago, da Universidade Estadual de
Campinas.
Trecho da reportagem de Cristina Grillo, Graziele Oliveira e
Marcela Buscatto, da revista Época desta semana que já está nas bancas.

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