Da IstoÉ
As frases da página anterior foram entoadas em gritos menos
graves do que os ouvidos em outras manifestações. Dessa vez, a imensa maioria
das pessoas que caminhou pela Avenida Paulista até a Praça da Sé, no centro de
São Paulo, na sexta-feira 30, era de mulheres. Foi um movimento político,
dirigido ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e seu
infame projeto de lei que limita o acesso da mulher estuprada ao aborto – hoje
garantido por lei – e a obriga a passar por uma delegacia. Mas o ato, que
também aconteceu em outros estados do País e teve manifestantes de todas as
idades, contemplava mais. Elas falaram sobre assédio sexual, racismo,
intolerância, machismo. E partilharam tudo nas redes sociais, um palanque tão
importante atualmente quanto a praça pública. Na mesma semana, a atriz Taís
Araújo deu uma demonstração de coragem ao denunciar as ofensas raciais sofridas
na rede. “Há uma confluência de fatores que está fazendo o grito das mulheres
emergir da maneira como estamos vendo”, afirma a historiadora Margareth Rago,
professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especialista em
história do feminismo. “Vivemos um momento de crise política e um avanço do
conservadorismo, notamos um retrocesso de valores e muita intolerância, que
estão mexendo em conquistas que estavam garantidas, como é o caso do PL do
Cunha. Para reagir, elas estão se organizando para ter mais visibilidade.” Elas
estão dizendo não.
“Há uma nova geração de mulheres lutando não somente para
ampliar direitos, mas para garantir o legado dos movimentos feministas”, diz
Clara Araújo, vice-coordenadora do núcleo de estudos sobre desigualdade e
relações de gênero da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). As
manifestações coletivas acontecem em convergência com uma nova postura
individual, à medida que mais mulheres tomam conhecimento de seus direitos e se
sentem seguras para reclamar. Nesse sentido, as redes sociais possibilitaram a construção
de um novo diálogo e tem um papel fund≠≠amental nessa nova postura feminina.
“Elas são um elemento de mobilização que estimula as mulheres, pois permite a
troca de ideias e opiniões”, diz Clara, da UERJ. A organização em rede favorece
a integração e viabiliza outras formas de participação. “A internet possibilita
um conhecimento muito mais amplo sobre o que está acontecendo.” A pesquisadora
explica ainda que, no Brasil, o índice de associativismo é considerado baixo,
apesar de estar aumentando, inclusive entre mulheres, e as redes sociais
conseguem alterar esse cenário. Outro aspecto importante é que elas podem
observar nitidamente as desigualdades do cotidiano no relato de colegas e
potencializar o discurso - o que explica o êxito da campanha #primeiroassedio,
em que relataram na internet a primeira vez em que sofreram abuso. Nas redes
sociais há uma infinidade de páginas feministas, perfis pessoais que falam das
relações de poder entre os gêneros e grupos privados de ajuda entre mulheres e
meninas que pedem conselhos em casos de violência e estupro. A própria
manifestação citada no começo desta reportagem foi organizada pelo Facebook.
Com tanta informação tão fácil de ser encontrada, não é de
se espantar que as garotas tenham contato com a pauta das lutas femininas cada
vez mais cedo. A militância é tanta que há coletivos feministas, grupos típicos
de universidades, já nas escolas. E o protaganismo jovem rende frutos
concretos: na terça-feira 3 foi lançado o aplicativo para celular Sai Pra Lá,
criado pela estudante Catharina Doria, 17 anos, e que permite registrar os
assédios sofridos diariamente. A estudante Victoria Lima Dorta, 16 anos,
conheceu o feminismo no ano passado por páginas no Facebook e diz ter se
identificado com o movimento porque começou a observar que sofria com as mesmas
situações que os textos on-line mostravam. “Abriu os meus olhos para o quanto a
sociedade trata as mulheres como objetos dos homens, como não temos direito nem
sobre nossos corpos e como a desigualdade de gênero é gritante”, diz. “Também
me ajudou a entender um pouco melhor outros tipos de opressão como racismo,
homofobia e transfobia.”
As mulheres negras, que historicamente são alvo de racismo e
discriminação, têm seu próprio protagonismo na luta por direitos. Prova que as
batalhas dessa parcela da população ocorrem todos os dias são as recentes
injúrias raciais sofridas pela atriz Taís Araújo nas redes sociais. Na
internet, foi ofendida com comentários preconceituosos desde o sábado 31. Ela
se manifestou publicamente e o caso foi investigado pela Delegacia de Repressão
aos Crimes de Informática do Rio de Janeiro. Em julho deste ano, a jornalista
Maria Júlia Coutinho também foi alvo de internautas racistas. “A luta das
mulheres negras vem desde o período da escravidão, quando, mesmo sob muito
sofrimento, elas conseguiram chegar a determinados espaços”, diz Maria das
Dores do Rosário Almeida, integrante da Articulação de Mulheres Negras do
Brasil. Hoje, elas aceitam o corpo, o cabelo, as características físicas de uma
forma muito melhor.” Segundo Maria das Dores, apesar de ainda existir uma
grande invisibilidade em diversos aspectos, as redes sociais ajudam a revelar o
racismo diário. “Taís foi atrás de seu direito e denunciou. Em geral, muitas
ainda ficam no anonimato por falta de informação e por medo.” Mas, segundo a
militante, nos últimos dez anos aumentou 50% o número de mulheres que se sentem
estimuladas a denunciar. “Há um ranço da escravidão que as redes sociais tem
nos ajudado a derrubar.”
Contemplar problemas que dizem respeito a diferentes grupos
sociais é um dos pontos mais importantes do feminismo atualmente. A luta pelo
fim de qualquer manifestação de intolerância vem de um esforço em acabar com
pensamentos binários. Mulheres que exigem ser ouvidas não aceitam uma divisão
da sociedade baseada em gêneros, entre homem e mulher, sendo um mais forte do
que o outro. “É um pensamento autoritário”, afirma Margareth Rago, da
Universidade de Campinas (Unicamp). Mas é principalmente pela crítica ao padrão
da dominância masculina que alguns homens têm posturas reativas. Na semana
passada, páginas no Facebook que falam sobre direitos e lutas das mulheres
foram derrubadas. Entre elas a da YouTuber Jout Jout, que recentemente gravou
um vídeo orientando as garotas a fazerem um escândalo sempre que assediadas.
Além disso, feministas que se expressam publicamente têm sofrido ameaças e
ofensas. Parece ser uma reação à emergência de discussões nas redes sociais,
movida também pelo tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem),
sobre a persistência da violência contra a mulher, em 25 de outubro. “Há, sim,
uma reação, por verem esse avanço das discussões como uma ameaça à posição
privilegiada que ocupam socialmente”, afirma a socióloga Tica Moreno, da
Sempreviva Organização Feminista.
No cenário político, essa reação surgiu em forma de projeto
de lei. No dia 21 de outubro, foi aprovado pela Comissão de Constituição e
Justiça da Câmara dos Deputados o PL 5069/2013, de autoria do presidente da
casa, Eduardo Cunha, que dificulta o caminho da vítima de violência sexual que
procura o atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS). “É a normatização do
tratamento desumanizado e discriminatório contra a mulher”, diz Silvia Chakian
de Toledo Santos, coordenadora do Grupo Especial de Enfrentamento à Violência
Doméstica e Familiar contra a Mulher do Ministério Público de São Paulo. O
projeto, explica, exige que a mulher faça exame de corpo de delito para que
seja comprovado que ela foi vítima de violência sexual e, com isso, tenha
acesso ao medicamento. “Quem trabalha na área sabe que nem todas as violências
deixam vestígios que possam ser comprovados com laudos”, diz Silvia. Além
disso, o documento cria uma condicionante pela qual, para ter acesso ao sistema
de saúde, a mulher deve acionar o sistema da Justiça Criminal antes. “É
inaceitável já que nem toda mulher suporta a dor de denunciar seu agressor.
Muitos abusos ocorrem dentro de casa e o ônus do processo criminal seria um
fardo.” O projeto criminaliza ainda a conduta de agentes que, eventualmente,
forneçam qualquer orientação à vítima que de alguma forma a induza ao aborto. O
PL segue agora para votação no Plenário da Câmara, mas não sem protestos.
Com manifestações nas ruas, nas redes sociais e com uma
mudança de postura nas situações cotidianas, não há mais como calar a luta
feminina. Se depender delas, o PL de Eduardo Cunha não passa, muito menos ele
continua no cargo que ocupa atualmente. Outras manifestações já estão agendadas
pela derrubada do projeto. “O desafio agora é que outros movimentos sociais
possam incorporar em suas agendas as discussões do universo feminino: questões
ligadas ao controle do corpo e da sexualidade da mulher”, afirma a socióloga
Tica Moreno. “A história mostra que as mulheres estão sempre à frente da
resistência no conservadorismo. É um movimento que precisa ser reconhecido.” E,
ao que parece, se surgirem outros empecilhos para se alcançar a tolerância e a
igualdade de direitos, elas vão gritar, mais uma vez.
Reportagem de Camila Brandalise e Fabíola Perez, da revista
IstoÉ desta semana.

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