Da Veja
A ironia é involuntária: o programa que infernizou a vida de
milhares de brasileiros na semana passada chama-se Simples Doméstico. Cerca de
1 milhão de cidadãos tentaram acessar o portal eSocial para gerar um boleto com
impostos e contribuições relativos ao seu empregado doméstico, mas nada foi
simples. Com um software que não funciona, o eSocial tornou-se o mais recente
pesadelo promovido pela burocracia nacional. Milhares de cidadãos tentaram
cinco, dez, quinze vezes, e nada. Ficaram plantados na frente do computador de
madrugada, e nada. Perderam horas de sono, de trabalho, de lazer, e nada. O
sistema devolvia diversas gentilezas - "deu erro", "está fora
do ar", "senha errada", "tente mais tarde" -, menos o
maldito boleto.
O desastre do eSocial ofereceu a milhares de cidadãos uma
pequena mostra do massacre diário enfrentado pelos brasileiros que dão emprego,
empreendem, criam empresas, fazem negócios. Brasileiros que, de certo modo,
precisam gerar um boleto do eSocial quase todos os dias. Por isso, tornou-se
óbvio dizer que os empresários e empreendedores são heróis nacionais. Eles
navegam diariamente num oceano de burocracia - softwares que não funcionam, leis
que mudam a toda hora, tributos que têm troca de alíquota, regras que não
servem para nada - e frequentam com infeliz assiduidade o templo da burocracia
nacional, os cartórios. Nesse ambiente hostil, muitos ainda conseguem inovar e
crescer.
Na cola da lambança do eSocial, VEJA quis saber como é a
vida dos empreendedores que, apesar de tudo, têm sucesso. A revista teve acesso
exclusivo a uma pesquisa inédita sobre um tipo especial de empresa. São
companhias de alto crescimento ou, na expressão em inglês, scale-ups - palavra
que confere um contraste com a denominação das empresas iniciantes, as
start-ups. Nos últimos três anos, as scale-ups aumentaram em pelo menos 20% seu
número de empregados ou sua receita, a cada ano. No Brasil, existem cerca de 35
000 scale-ups. Elas representam menos de 1% do total das companhias
brasileiras, mas criaram 3,3 milhões dos 5,6 milhões de empregos gerados de
2010 a 2012. Ou seja: de cada dez novos postos de trabalho, seis foram
ofertados por uma scale-up.
Para fazer a pesquisa, a Endeavor, organização de apoio ao
empreendedorismo com atuação internacional, resolveu deixar de lado os
conhecidos dados nacionais e desceu à realidade das cidades, que é onde as
empresas efetivamente existem e atuam. Escolheu as cidades que concentram o
maior número de scale-ups, excluindo as situadas em regiões metropolitanas. Com
esse critério, chegou a 32 municípios em 22 estados. Além de Brasília, são 21
capitais de estado e dez cidades do interior - quatro em São Paulo, duas em
Santa Catarina, duas no Paraná, uma no Rio Grande do Sul e uma em Minas Gerais.
Nelas, os pesquisadores levantaram dados sobre o tempo que
se leva para abrir uma empresa, regularizar um imóvel, aprovar um projeto
arquitetônico e fazer uma ligação de energia elétrica, coisas que o
empreendedor tem de enfrentar em algum momento. Conferiram também a alíquota
média do IPTU, a alíquota do ICMS e os incentivos fiscais concedidos, além das
dificuldades práticas para recolher tributos, da frequência com que são
editados novos decretos tributários e do congestionamento de processos no
tribunal de Justiça do estado. Mesmo sem o tormento de gerar um boleto no
eSocial, esperava-se um resultado ruim. Mas o resultado foi aterrador. A
burocracia parece calibrada para punir as empresas na hora em que elas mais
crescem.
Trecho da reportagem da revista Veja desta semana que já
está nas bancas.

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