Por Débora Bergamasco, IstoÉ
Atualmente um dos políticos mais próximos do vice Michel
Temer, o presidente da Fundação Ulysses Guimarães, Moreira Franco, concluiu na
semana passada a redação do documento “Uma Ponte para o Futuro”, em que propõe
medidas para tirar o Brasil da crise. O texto que será discutido no congresso
nacional da legenda, no próximo dia 17, gerou polêmica por conter duras
críticas ao governo no momento em que setores do PMDB defendem o rompimento com
o Palácio do Planalto.
A contundência do material deu margem à seguinte elucubração
no meio político: seria o documento um clássico programa de governo, com vistas
à disputa presidencial em 2018, ou um conjunto de propostas para serem
implementadas já, em caso de impeachment de Dilma, cujo grande beneficiário
seria o vice Michel Temer? Em entrevista à ISTOÉ, Moreira Franco negou que haja
uma conspiração em curso contra Dilma. “Não existe conspiração em ‘on’ só em
‘off’. E nós só falamos em ‘on’ ”, afirmou ele.
Segundo ele, “quem tem patrocinado este debate (do
impeachment) é a Presidência da República”. “Porque a primeira pessoa a falar
sobre impeachment quando estava na Rússia foi a presidente”, lembrou. O PMDB,
acrescenta ele, apenas formulou propostas “urgentes” para o País. “Essa
letargia já foi longe demais”, lamentou. Para o peemedebista, o timão (leme) está
solto. “Ninguém tem o timão firme (...) e sem um comando firme, não há
possibilidade de avançarmos”.
ISTOÉ - O documento “Uma Ponte para o Futuro”, que diz que o
governo “cometeu excessos”, representa a opinião de quem? Da cúpula do PMDB?
MOREIRA FRANCO - Espero que represente a opinião da
sociedade. Queremos unir. O documento foi feito ouvindo muita gente dentro e
fora do partido. Está sendo amplamente distribuído entre os diretórios e
estamos estimulando o debate. No dia 17, quando as pessoas se encontrarem no
congresso, vão expressar seus pontos de vista.
ISTOÉ - Representa a opinião do presidente do partido e
vice-presidente da República, Michel Temer?
MOREIRA FRANCO - Para nós, é mais importante representar o
partido, não vou “fulanizar”. Você está com o vício da “fulanização”. É claro
que vai representar. Não só a dele como a minha também.
ISTOÉ - É um documento bastante crítico à atual situação do
Brasil. Isso cria mais arestas entre o PT e o PMDB, já que o seu partido é
acusado de não ser tão aliado quanto o PT gostaria?
MOREIRA FRANCO - Olha aqui, o PMDB acha que o PT não é tão
aliado como deveria ser. Mas o problema principal para este quadro que estamos
vivendo é termos um caminho e formarmos uma maioria em torno dele. Essa
discussão não é para agradar nem desagradar quem quer que seja. É para nós
cumprirmos o papel que o PMDB sempre cumpriu, de apresentar uma alternativa.
Evidentemente, não agrada a todo mundo, mas se consolida como um esforço
político de atender uma maioria.
ISTOÉ - Por ser tão crítico, não parece um documento de quem
está na oposição?
MOREIRA FRANCO - Ah, se a oposição tivesse tido essa
manifestação, talvez as coisas estivessem melhores.
ISTOÉ - E o que está fazendo a oposição?
MOREIRA FRANCO - Pergunte ao governo. Quem sabe da oposição
é o governo. Hoje, o PMDB está preocupado com a nação, com a sociedade. Não se
pode continuar assim, temos que ter o sentido da urgência. Essa letargia já foi
longe demais.
ISTOÉ - O que o significa “esta letargia já foi longe
demais”?
MOREIRA FRANCO - Que não dá mais para continuar do jeito que
está. Veja as declarações de economistas, empresários. O Abílio Diniz disse que
o Brasil está em liquidação. E é uma verdade. Temos urgência.
ISTOÉ - A presidente Dilma Rousseff tem força política para
fazer isso?
MOREIRA FRANCO - Agora é a hora de firmar o leme. E no
Brasil de hoje, o timão está solto, ninguém tem o timão firme. O esforço que o
PMDB faz com esta proposta é exatamente o de convocar, de tentar reunificar o
País, que está muito dividido. Sem um comando firme, não há possibilidade de
avançarmos. Então, o momento que nós estamos vivendo é o de criar as condições
para segurar este timão e levar o País para frente.
ISTOÉ - O vice-presidente, Michel Temer, teria pulso firme o
suficiente?
MOREIRA FRANCO - Eu só não respondo a esta pergunta, porque
ela vai ser mal interpretada, vão dizer que eu estou querendo cantar a música
do Roberto Carlos. E não é o nosso objetivo.
ISTOÉ - Qual música do Roberto Carlos?
MOREIRA FRANCO - “Esse Cara Sou Eu” (risos). Ou, no caso,
“esse cara é ele”. Já houve uma escorregada em casca de banana nesta área, não
terá outra, porque nosso objetivo é ter uma ponte para o futuro, definindo uma
política para tirar o Brasil da crise.
ISTOÉ - Essa discussão não pode levar a interpretações de
que o PMDB quer se colocar como o partido capaz de reunificar o Brasil?
MOREIRA FRANCO - Não, não mudou nada. Temos compromisso com
o Brasil. Vamos apresentar nossas propostas sem nenhum sentido de provocação.
ISTOÉ - O PMDB está no comando da vice-presidência da
República há cinco anos e de lá para cá vem ocupando vários ministérios do governo.
O seu partido não tem responsabilidade pela crise pela qual o País passa?
MOREIRA FRANCO - A crise decorre de medidas de natureza de
política econômica que foram tomadas.
Nós nunca participamos dessa. Nunca fomos nem chamados nem ouvidos.
Tanto em 2010 quanto agora, apresentamos propostas de políticas econômicas que
não foram consideradas. Muitas delas estão neste documento.
ISTOÉ - E por que não foram consideradas?
MOREIRA FRANCO - Não pergunte a mim, pergunte a quem não as
considerou. Sobre a questão de haver “conspiração”, eu acho isso extremamente
curioso porque é como se fosse possível conspirar em “on”. Não existe
conspiração em “on”, você só conspira em “off”.Tanto eu quanto o Michel Temer
dizemos a todos os jornalistas que só falamos em “on”, nunca em “off”.
ISTOÉ - Conspiração pode, eventualmente, se dar não com
jornalistas, mas entre vocês, políticos.
MOREIRA FRANCO - Tanto ele, quanto eu, quando falamos no
jornal, falamos de política. Imprensa é uma ferramenta pela qual se faz política,
que se alimenta dela e alimenta a política.
ISTOÉ - Quando o vice, Michel Temer, estava à frente da
articulação política do governo, surgiram rumores de que ele e o PMDB
conspiravam para derrubar a presidente, Dilma Rousseff. A que o sr. atribuiu
isso? Tentativa de enfraquecer o vice?
MOREIRA FRANCO - Talvez. Mas isso passou. Da nossa parte,
passou e sem mágoas. Chegou numa certa hora em que o Temer disse: “Chega, eu já
cumpri minha parte, estou fora da articulação”. Ele constatou as dificuldades.
Isso é água passada. Isso não nos motiva nenhum tipo de atitude ou de
posicionamento. Enquanto achávamos que era possível, ninguém perseverou mais
que o Michel Temer. Quando ele achou que não dava mais para continuar no
comando da articulação política, pegou a trouxa dele e foi embora.
ISTOÉ - Uma recomposição do governo com a base aliada ainda
é possível?
MOREIRA FRANCO - Tem políticos brasileiros de muito talento
intelectual que fazem palestras e ganham muito dinheiro, como os ex-presidentes
Lula e Fernando Henrique Cardoso. Se eu soubesse responder a essa pergunta
certamente estaria na mesma faixa salarial que os dois.
ISTOÉ - O sr. participou do governo. Quais as maiores
dificuldades como ministro?
MOREIRA FRANCO - Já fui prefeito, deputado federal,
governador, ministro, vice-presidente da Caixa Econômica Federal, presidente da
Fundação Ulysses Guimarães. Tenho como regras não andar com tropa de ocupação
e, quando eu saio, eu fecho a porta e parto para uma nova experiência. Toda
minha reflexão é aqui na Fundação. Porque o povo brasileiro e o empreendedor
brasileiro estão com a língua de fora.
ISTOÉ - O ex-presidente Lula diz que ele e sua família estão
sendo perseguidos. O sr. acha o mesmo em relação a integrantes do PMDB?
MOREIRA FRANCO - Creio que a politização dessas
investigações tem sido excessiva. Mas precisamos deixar que essas investigações
andem, cheguem a consequências, como chegou o mensalão, mas temos que ter uma
proposta para tirar o Brasil da crise. Se não, vai ser uma tristeza você ter
milhões de brasileiros desempregados, sem perspectivas, com a fome batendo à
porta, a violência crescendo e algumas pessoas na cadeia. É bom as pessoas
estarem na cadeia para afirmar que nós não temos ambiente que não seja
transparente, que os criminosos sejam punidos, mas com um País crescendo,
gerando emprego, renda e com pessoas
cheias de esperança.
ISTOÉ - Mas ele seria expulso?
MOREIRA FRANCO - Nós não julgamos, as investigações são
feitas pelos órgãos competentes e nós vamos esperar o resultado deste processo.
Tanto para nós, quanto para todos os brasileiros.
ISTOÉ - Se houver um processo de impeachment contra a
presidente Dilma, qual será o posicionamento do PMDB?
MOREIRA FRANCO - Impeachment é uma coisa muito séria e está
sendo tratada de forma muito trivial. Quem tem patrocinado este debate é a
Presidência da República. Porque a primeira pessoa a falar sobre impeachment
quando estava na Rússia foi a presidente. E os ministros do Planalto,
reiteradamente, falam disso. A única novidade foi a introdução do impeachment
do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. A força bruta quer
transformar como caminho para resolver a crise a questão de quem vai ser
“impichado” primeiro. O governo faz as coisas para evitar seu impeachment, ou
para estimular o impeachment do Eduardo Cunha. E dizem que ele faz o contrário.
Eu prefiro discutir este documento, porque é ele que vai criar possibilidades
de você ter um leme seguro.
ISTOÉ - E a Agenda Brasil, ideia de seu colega de partido
presidente do Senado, Renan Calheiros?
MOREIRA FRANCO - Acho que foi uma ótima ideia.
ISTOÉ - Não saiu do papel.
MOREIRA FRANCO - Na política já é uma grande coisa você
colocar no papel. E acho que quando está no papel e não acontece nada, isso
gera dificuldades políticas. É claro que esse programa que estamos debatendo,
se não gerar nada, vai ser um problema político. A expectativa nossa é que ele
gere conseqüências. O Brasil precisa, tem urgência.
ISTOÉ - Está na hora de o partido voltar a ter candidato
próprio a presidente?
MOREIRA FRANCO - Claro. Sempre falamos isso. Mas ter candidato
é fácil. Difícil é ter candidatura. Com estrutura eleitoral que sustente uma
campanha. Pressupõe máquina, programa, alianças. Não é só o candidato, mas um
conjunto de ações políticas com conteúdo, representatividade, necessários para
viabilizar o candidato.

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