Se o poder é solitário, como diz a célebre frase, o fim dele
pode ser ainda mais eremítico. Assim transcorreram os dias que antecederam a
oficialização do afastamento de Dilma Rousseff, na quinta-feira 12. Em um
cenário oposto ao da noite de votação do impeachment na Câmara, quando ainda
nutria alguma esperança de se manter no poder, na quarta-feira 11 Dilma
dirigiu-se para o Palácio da Alvorada completamente sozinha, a fim de
acompanhar a sessão do Senado que selaria o seu destino. No dia seguinte ao do
resultado funesto, a presidente foi tomada por um mau humor indisfarçável.
Pudera. A quinta-feira 12 pode ter sido o último dia de Dilma no comando do
País. Caso o Senado sacramente em até 180 dias seu impedimento, o fim será
irremediável. Pela manhã, pouco depois das 10h, ao saber que o senador
Vicentinho Alves (PR-TO) estava perto de chegar com a intimação comunicando a
instauração do processo de impeachment por crime de responsabilidade, Dilma
convocou todos os ministros que estavam no corredor do 3º andar do Palácio do
Planalto para o seu gabinete. Tão logo o documento foi assinado, o ministro
Miguel Rossetto ensaiou uma salva de palmas. Pela trapalhada, recebeu uma
reprimenda da chefe na frente dos colegas. A segunda bronca foi dedicada ao
chefe de gabinete e ex-ministro Jaques Wagner, porque este insistiu que ela não
deveria exonerar seus ministros. “Presidenta, deixe esse constrangimento para
Temer, a fim de reforçar a tese do golpe”, sugeriu. Dilma não só não concordou,
como o censurou imediatamente.
Um interlocutor que esteve com Dilma nas 24 horas anteriores
ao afastamento a definiu como “fria. Absolutamente fria.” Os mais próximos
dizem que essa é uma característica manifestada por ela especialmente em
momentos de crise. De tão gélida, a presidente ganha objetividade e, às vezes,
até faz troça da própria desgraça. Nos momentos de reflexão, a frase mais
recorrente foi: “Fizemos tudo o que podíamos”. Já as reclamações mais
contundentes foram destinadas aos que viraram casaca aos 45 do segundo tempo.
Nos últimos dias, Dilma descobriu que o então ministro Waldir Simão, do
Planejamento, vinha mantendo reuniões secretas com o nome escolhido por Temer
para comandar a pasta, o senador Romero Jucá. Outra decepção foi saber que
outro funcionário Dyogo Oliveira, que foi secretário executivo de Nelson
Barbosa no Planejamento e posteriormente na Fazenda, também estava fechado com
Jucá para integrar sua equipe.
Apesar de abatida e ciente de que será praticamente
impossível reverter sua situação, ela continuará insistindo na tese de que foi
afastada injustamente e que foi vítima de um golpe, o que mostra que ela ainda
permanece mergulhada no mundo da fantasia que ela criou para si mesma. Nesse
mundo paralelo, não houve pedaladas fiscais nem estelionato eleitoral, muito
menos envolvimento de petistas no Petrolão. No País das maravilhas de Dilma
também não existiram tentativas de obstrução de Justiça, por ela mesma, nem
tramas para dificultar os trabalhos da Lava Jato. As delações de Delcídio do
Amaral e, mais recentemente, de Marcelo Odebrecht teriam sido apenas quimeras.
No mundo real, Dilma vai tirar os próximos dias para
descansar. Pretende viajar para Porto Alegre para visitar sua filha, Paula, e
seus netos Gabriel e Guilherme, que ainda é de colo. Durante o período em que
estiver afastada, continuará contando com um avião da Força Aérea Brasileira
para levá-la para onde ela quiser. Poder viajar em jatinhos da FAB era uma
questão crucial para ela, que anseia percorrer o Brasil e exterior a fim de
entoar a já enfadonha cantilena do “golpe”. Outra regalia obtida foi o direito a
salário integral, no valor de R$ 27,8 mil. As prerrogativas da petista foram
anunciadas pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), tão logo foi
divulgado o resultado da votação do impeachment. Dilma também terá direito a
carro oficial com motoristas, segurança pessoal e assistência médica, além de
uma estrutura de gabinete pessoal. O ex-presidente Lula, no entanto, ficará
afastado. Na semana passada, o petista confidenciou a amigos já ter cumprido
sua missão. Agora, vai cuidar da própria sorte.

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