Do UOL
A crise política vai afetar os próximos lançamentos
nacionais no cinema, mas não no bolso dos produtores. Após a onda do
"favela movie" e das comédias, a política vai ditar as grandes
apostas para 2017.
A própria Operação Lava-Jato, que ainda segue em curso, deve
ser a primeira a chegar às telas, antes mesmo da estreia da série de José
Padilha sobre o tema para a Netflix. "Polícia Federal – A Lei É Para Todos" , de Marcelo Antunez, terá elenco global e informações exclusivas da própria PF, que também vai ceder o helicópteros e suas dependências em
Curitiba para a as filmagens.
Existe até a possibilidade da saga se tornar uma trilogia.
"Estamos vendo quando vamos finalizar no roteiro, porque a investigação
não para", explicou o produtor Tomislav Blazic ao UOL. "Com tanto
conteúdo, queremos também transformá-la em série na TV aberta".
Mas é no passado que o cinema vai discutir o presente, seja
na história do inimigo número 1 da Ditadura Militar ou na relação do
ex-presidente Fernando Collor com a imprensa.
O produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features, colocará Collor
na tela com a adaptação de "Notícias do Planalto", livro-reportagem
do jornalista Mario Sergio Conti.
"É um tema repleto de possibilidades. Há quatro anos
atrás, eu jamais compraria os direitos de 'Notícias do Planalto'. Me interessei
porque eu acho que o momento atual permite fazer um filme bom com esse
material", observa.
Enquanto isso, Wagner Moura prepara sua estreia por trás das
câmeras no ano que vem. Entocado na Colômbia, onde grava a segunda temporada de
"Narcos", o ator deve voltar ao Brasil até agosto para se dedicar
integralmente à pré-produção de "Marighella – O Guerrilheiro que Incendiou
o Mundo", adaptação do livro do jornalista e blogueiro do UOL, Mario Magalhães.
Inicialmente, Wagner interpretaria o político e guerrilheiro
baiano, fundador do maior grupo armado de oposição à ditadura militar –a Ação
Libertadora Nacional–, mas desistiu para focar integralmente as energias na
direção.
Com produção do próprio ator com a O2 Filmes, a ideia é que
a saga de Marighella seja uma obra de ação. As filmagens começam no 1° semestre
do ano que vem, quando o circuito deve receber o thriller político "3.000 Dias no Bunker", sobre outro momento crucial da história do Brasil: a criação do Plano Real.
Embora tenha comprado os direitos do livro de Guilherme
Fiúza em 2013, o produtor Ricardo Fadel Rihan diz que sua intenção é
"engajar" os jovens no tema. A expectativa é alta. "Hoje o
brasileiro tem se interessado mais por política do que em futebol",
observou.
Mario Magalhães, que após Marighella se dedica ao livro de
mais um personagem controverso da política brasileira, o jornalista e político
Carlos Lacerda, observa que o cinema político pode ser tão atraente quanto
qualquer outro gênero.
"Seja a trajetória de um revolucionário como Carlos
Marighella, seja a criação do Plano Real, há de contá-la com encanto,
hipnotizando, tirando o fôlego, comovendo, revoltando, emocionando. Se ainda
contribuir para pensar, melhor ainda", defende. "Quanto mais conflagrado
um tempo histórico, mais os cidadãos querem conhecer o passado. Para se
reconhecer nele ou não."
O cinema brasileiro soma clássicos sobre o tema. Seja na
alegoria de "Terra em Transe", marco do cinema novo, dirigido por
Glauber Rocha, ou nos recortes mais intimistas do Estado Novo de Getúlio Vargas
("O Caso dos Irmãos Naves", de Luís Sérgio Person, e "Memórias
do Cárcere", de Nelson Pereira do Santos) e da Ditadura Militar de 1964
("Lamarca" e "Zuzu Angel", de Sergio Rezende, "O que É
Isso, Companheiro?", de Bruno Barreto, e "Nunca Fomos Tão
Felizes", de Murillo Salles).
A diretora paulista Vera Egito, que estreia seu primeiro
longa, "Amores Urbanos", neste mês, quer revisitar o tema de uma
maneira diferente. "Os militantes são sempre retratados com atores de 30
anos, mas quando você vai pesquisar, as pessoas na verdade eram muito mais
jovens, entre 17 e 18 anos. A própria
Dilma [Rousseff] foi presa aos 19 anos, uma menina", lembra.
De olho nas ocupações de escolas públicas pelo País, ela
enxerga um paralelo com o conflito ideológico de 1964, quando estudantes da USP
e do Mackenzie, em São Paulo, se enfrentaram na rua Maria Antonia, que separava
as duas universidades. "Quero convidar os estudantes que estão nas
ocupações para participar do filme", avisa. As filmagens começam no fim do
ano.
Presidenciáveis em baixa
A dica já havia sido dada com "Lula – O Filho do
Brasil": presidentes e candidatos à presidência não caíram no gosto do
público de cinema. Esperava-se que a cinebiografia do ex-presidente, lançado em
2009, ultrapassasse a marca de 10 milhões de espectadores. Mas mal chegou a 1
milhão.
Em 2011, foi noticiado que a chegada da presidente Dilma
Rousseff à presidência também ganharia um longa-metragem. O produtor Antônio de
Assis comprou os direitos de "A Primeira Presidenta", do jornalista Helder
Caldeira, mas, com o tempo, o projeto andou para trás --assim como a
popularidade da governante e a empolgação do autor em relação à própria obra.
"Boa parte do que eu chamo de 'falta de compreensão' do
que era o livro, especialmente por minhas opiniões críticas sobre a presidente
Dilma Rousseff já em 2011, levaram ao fracasso retumbante da obra",
revelou Caldeira ao UOL.
A cineasta Sandra Werneck, porém, mantém seu projeto de
levar a história de Marina Silva, virtual candidata à presidência em 2018, aos
cinemas. Ela guarda uma valiosa pesquisa com a família de Marina e já tem uma
atriz para o papel principal: Lucy Ramos (a Malena da novela "Liberdade,
Liberdade). Mas pondera: ainda não é o melhor momento para o projeto.
"Quero que as coisas se acalmem, é um momento
conflituoso, não sabemos o que vai acontecer com o país. A própria Marina, no
momento, está mais reclusa", disse.
Envolver um possível presidenciável no projeto também tem
afastado investidores. "Já está difícil captar o ar, imagina a verba".

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