Por Dora Kramer, colunista de O Estado de S.Paulo
Na comissão que ontem aprovou o prosseguimento do processo
de impeachment da presidente Dilma Rousseff, um dos petistas mais críticos ao
modo dela de governar, o senador Lindberg Farias, foi dos mais aguerridos
defensores da desgastada tese do “golpe”.
O senador repetiu argumentos e recorreu aos instrumentos da
falácia cometida na campanha de 2014 e desmentida logo após a reeleição,
lançando acusações ao léu: Michel Temer na Presidência “entregaria” a Petrobrás
à sanha do capital estrangeiro, daria fim aos programas de benefícios sociais,
entre outras inverdades ditas por Dilma na campanha e que tanto prejuízo
renderam quando a realidade a desmentiu.
Na época, Lindberg era crítico da presidente. Ele era adepto
da ideia, apoiada por inúmeros petistas, de que o ex-presidente Luiz Inácio da
Silva seria o melhor candidato. A defesa feita ontem obedeceu ao ritmo de
último tango em cadência de uma nota só.
Nenhum problema, desde que a lógica e a realidade não sejam
agredidas. Lamentavelmente, existe a agressão. Houve distorção quando se
discutia inutilmente a condição de “vice” de Eduardo Cunha quando o artigo 86
lhe negava claramente essa prerrogativa.
Soam precipitadas e um tanto equivocadas análises desse
cenário, segundo o qual Temer teria a ganhar, mas também a perder, com a
decisão do Supremo Tribunal Federal de afastar Cunha das funções de deputado e,
consequentemente, da presidência da Câmara.
Por essa ótica, Temer ganhou do STF a liberdade de não
precisar se posicionar sobre a condição de Cunha e de livrá-lo de companhia
constrangedora, mas perdeu um imprescindível operador dos trâmites legislativos
para levar a bom termo as votações das propostas que precisará aprovar. Nesse aspecto
residem duas questões. A primeira, precipitação decorrente da suposição de que
Cunha mantém o poder de influência sem o cargo de presidente e o exercício do
mandato. A segunda, o equívoco de acreditar que Temer e grupo mais próximo não
têm experiência, influência e habilidade políticas para negociar a aprovação de
medidas no Parlamento.
Um dado essencial: Cunha presidiu a Câmara por meio período.
Temer foi presidente da Casa por três períodos completos. Realidade e
pragmatismo darão conta de estabelecer o prazo de validade do poder de Cunha.

Nenhum comentário:
Postar um comentário