Artigo de Fernando Gabeira
Gastamos um bom tempo da nossa vida pensando numa saída para
a crise. Creio que Michel Temer também. Sua trajetória, no entanto, terá mais
repercussão na crise do que qualquer um de nós. Daí a importância de
monitorá-lo.
Os jornais falam de um Ministério em formação. É difícil
analisar algo que ainda não existe. Mas a julgar pelas notícias, o projeto
contém uma primeira contradição. Temer, diretamente e por intermédio de Moreira
Franco, afirmou apoiar a Lava Jato.
O provável Ministério, todavia, tem vários nomes de
investigados. Se forem confirmados, não há avanço em relação ao PT, que, por
sua vez, é um retrocesso em relação ao governo Itamar. Neste os investigados
não entravam. E se estivessem no governo, deixavam o cargo para se defenderem.
Essa é uma trama ainda secundária, porque o foco estará na
reconstrução econômica. Temer parece escolher uma equipe com a visão clara de
que é preciso reconquistar a credibilidade como primeiro passo para que se
volte a investir.
Quanto mais leio e ouço sobre o rombo financeiro, não apenas
sinto a dimensão da tarefa de levar o Brasil até 2018, mas percebo como faltam
dados sobre a verdadeira situação que o PT e seus aliados, PMDB incluído, nos
legam. Mexidas no tamanho do Estado, discussão sobre nosso sistema de
Previdência, tudo isso só se fará de forma menos emocional se houver uma
verdadeira revelação de nossos problemas financeiros.
Não se faz apenas com um discurso, ou mesmo um documento. É
algo que tem de ser bem difundido, com quadros comparativos, animações e um
trabalho de divulgação que consigam atenuar o peso do tema. Será preciso dizer,
por exemplo, se o governo vai pôr dinheiro e quanto na Petrobras, na Caixa
Econômica, suas grandes empresas que vivem em dificuldade.
Leio também nos jornais que Temer vai trazer de volta uma
velha guarda de políticos. Em princípio, nada contra. Mas é necessário lembrar
que alguns problemas decisivos dependem de sensibilidade para a revolução
digital.
Na quebra do monopólio das teles, além de pensar no avanço
que isso traria para o Brasil, sabíamos também que havia regiões que não
interessavam às empresas. Criou-se um fundo para universalizar a conexão
telefônica e modernizar a infraestrutura de comunicações. Esse dinheiro jamais
foi usado em sua plenitude, como manda a lei. Uma visão de retomada do
crescimento tem de passar por um novo enfoque do mundo virtual e seu potencial
econômico. Se nos fixarmos só no crescimento do universo material, corremos o
risco de um novo engarrafamento adiante, se já não estamos de alguma forma
engarrafados perante outros povos, como os coreanos, que trafegam com muito
mais rapidez do que nós.
Temer disse que não é candidato. Isso é positivo não apenas
porque ficou mais leve para atrair partidos com projetos para 2018. Mas,
principalmente, porque ele pode tomar medidas que horrorizam um candidato.
Claro que as medidas serão debatidas, que em caso de
divulgação ampla haverá uma consciência maior do buraco econômico. Ainda assim,
os economistas preveem que em 2018 chegaremos ao poder aquisitivo de 2011.
Certamente haverá uma aspiração de maior rapidez no processo de retomada. E
Temer não pode andar tão rápido quanto a velocidade das expectativas.
Além disso, terá de navegar num mundo político desgastado,
que dependeu da sociedade para chegar ao impeachment e dependerá dela para
realizar a transição. Os temas da reconstrução mexem com diferentes interesses,
dificilmente vão mobilizar da mesma forma que o impeachment.
Há, no entanto, um desejo de mudança.
Os rombos no Brasil sempre foram cobertos com aumentos de
impostos, os contribuintes pagam o delírio dos governantes. Se Temer usar o
caminho tradicional, vai romper com o desejo de mudança e adiar para as
calendas um ajuste pelo qual o governo passe a gastar de acordo com seus
recursos.
Todos gastaram muito. Há uma grande pendência sobre a dívida
dos Estados com a União. Juros simples ou compostos? Na verdade, a discussão
mesmo é sobre quem vai pagar a conta, que pode resultar num prejuízo federal de
R$ 340 bilhões.
Finanças dos Estados parecem um tema muito chato. No
entanto, quando você vive no Rio de Janeiro, vê hospitais decadentes,
funcionários sem receber, escolas ocupadas, percebe claramente que, quando o
governo entra em colapso, isso fatalmente influencia a sua vida cotidiana.
Um tema dessa envergadura acabou no Supremo Tribunal,
quando, na verdade, teria de ser decidido no universo político, governadores e
presidente. É uma demonstração de incapacidade que obriga o próprio Supremo a
se desdobrar, estudar todo o mecanismo financeiro, ouvir as partes, estimular
acordos que eles próprios já deveriam ter celebrado.
Com esses corredores e os obstáculos na pista será difícil
chegar a 2018 se não houver um esforço de reconstrução que transcenda o mundo
político. Esse esforço se torna mais viável com os dados na mesa: o estrago da
corrupção e os equívocos da gestão econômica.
Algumas coisas já podem mudar nas próximas semanas. Por que
tantos cargos comissionados? Por que reduzir investimentos, e não o custeio da
máquina do governo? Incentivos para quê e para quem? Aumentos salariais do
funcionalismo agora?
Quando Dilma entrou, na esteira de suas mentiras, lembrei
que não teria lua de mel. Vinha de uma vitória eleitoral. Temer, por tudo de
errado que Dilma fez, talvez ganhe um curto período. O problema é que a crise
mexeu com a nossa noção de tempo, mais encurtado, desdobrando-se com
imprevisíveis solavancos.
Mesmo ainda sem a caneta na mão, é preciso uma ideia na
cabeça. A partir da semana que vem termina um capítulo da nossa História
recente. O País precisa se reconstruir como se tivesse seus alicerces abalados
por um bombardeio.
Artigo publicado no Estadão em 06/05/2016

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