Mário Simas Filho, ISTOÉ
Antes de se eleger presidente pela primeira vez, em 2002,
Luiz Inácio Lula da Silva percorreu o País nas chamadas Caravanas da Cidadania.
Na semana passada, Lula novamente colocou os pés na estrada. Bem no estilo
populista, vestiu um chapéu de couro e percorreu cinco cidades da Bahia e de
Pernambuco. O problema é que depois de 13 anos no poder e de protagonizar ao lado
do PT o maior escândalo de corrupção já registrado em nossa história, a versão
moderna das romarias de Lula nada mais é do que uma caravana de mentiras.
Procurando impor um clima de comícios eleitorais em suas paragens, o
ex-presidente desfiou um rosário de inverdades para defender a afilhada apeada
do Planalto, Dilma Rousseff, chegou a admitir o que chamou de “pequenos erros
administrativos” de sua sucessora, mas em nenhum momento fez menção aos desvios
de dinheiro público que já levou para a cadeia alguns dos principais líderes de
seu partido. E, para se fazer de vítima, insistiu na irresponsável tese do “nós
contra eles”. Na tarde da quinta-feira 14, um dos principais líderes do PT no
Rio Grande do Sul foi taxativo ao analisar o périplo de Lula: “Desse jeito ele
só irá afastar ainda mais o PT de seu antigo eleitor”.
As primeiras mentiras da caravana de Lula foram proferidas
em Juazeiro (BA), na segunda-feira 11, e tiveram como alvo o presidente Michel
Temer. “Temer quer privatizar porque não sabe governar”, afirmou Lula, tentando
bater a velha tecla de que ele seria o único líder capaz de preservar o
patrimônio nacional e os demais seriam entreguistas de nossas riquezas. Uma
bobagem que pode até ter surtido algum efeito eleitoral no passado, mas que hoje
certamente não encontra ressonância. O que o ex-presidente não disse é que nos
últimos 13 anos, sob a nomenclatura de “concessões” ou “PPPs”, as gestões
comandadas por ele e Dilma não cansaram de passar para o controle da iniciativa
privada uma série de rodovias, portos, ferrovias, aeroportos etc. A maior parte
das obras do PAC são privatizadas e em 2004 o próprio Lula fez força para
aprovar uma lei que garante uma espécie de seguro para que o empresário seja
ressarcido caso seu investimento nas “concessões” não tenha o retorno previsto.
Na prática, Lula não só promoveu uma série de privatizações, como instituiu no
País uma espécie de capitalismo sem risco. Sob seu comando, o lucro é privado,
mas o prejuízo, se houver, é público. Ainda em Juazeiro, o ex-presidente
afirmou: “Agora eles (governo Temer) estão tentando desmontar os programas
sociais”. Outra bravata que não encontrou ressonância. Boa parte dos que ouviam
Lula sabiam que em 29 de junho o presidente Michel Temer reajustou em 12,5% o
valor do Bolsa Família, aumento superior aos 9% que Dilma havia anunciado em
março.
Da Bahia, Lula seguiu para Pernambuco e levou na bagagem
novas mentiras (leia quadro ao lado). É difícil afirmar qual delas é a mais
descarada. Em Petrolina e no Recife, o ex-presidente afirmou que o impeachment
de Dilma “só evoluiu por uma vingança do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha”
e que “as pedaladas fiscais foram uma invenção”. O ex-presidente não explicou a
seus ouvintes que o processo de impeachment no Congresso foi acompanhado passo
a passo e referendado pelo STF. Ele também não disse que as pedaladas fiscais
foram reveladas e condenadas pelo Tribunal de Contas de União e também
apontadas pelo Judiciário como crimes de responsabilidade. Mas, de todas as
mentiras proferidas pelo ex-presidente na semana passada, há duas que chamam a
atenção pelo cinismo contido nelas. Na terça-feira 12 em Carpina (PE), disse:
“estão me investigando há dois anos e duvido que se ache um empresário a quem
eu pedi R$ 10”. Na verdade, o juiz Sérgio Moro tem diversos indícios de que
empresários tenham favorecido Lula com milhões de reais. O dinheiro teria sido
repassado como pagamento de palestras fictícias. Nesse sentido, há inclusive
delações premiadas de ex-diretores da Andrade Gutierrez e a Odebrecht. Existem
ainda as suspeitas de que Lula tenha ocultado patrimônio através do tríplex no
Guarujá e do sítio em Atibaia. Em delação premiada, o empreiteiro Leo Pinheiro,
da OAS, afirmou que Lula solicitou e recebeu as melhorias nos imóveis em troca
de tráfico de influência a favor da construtora no Exterior. Em seu último
evento, no Recife, Lula disse que “só existe apuração de corrupção porque o PT
permitiu e não interferiu na escolha do procurador-geral da República”. Mais
uma bravata. Na semana passada, o procurador geral, Rodrigo Janot, acusou Lula
e Dilma de tentarem barrar as investigações da Lava Jato, não só tentando
comprar o silêncio de testemunhas como nomeando para o Superior Tribunal de
Justiça ministros que teriam a tarefa de tirar da cadeia os empresários que
pudessem aderir às delações. Isso sem mencionar a tentativa do Planalto de
fazer de Lula ministro apenas para lhe garantir foro privilegiado. Com tantas
mentiras, Lula pode até se iludir. Mas para ser um candidato forte em 2018
precisará encontrar outro discurso, além de escapar da Justiça.

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