Artigo de Fernando Gabeira
Eduardo Paes reconheceu, numa entrevista ao “Guardian”, que
a Olimpíada é uma oportunidade perdida. Crise econômica, corrupção, violência
urbana, vamos nos mostrar ao mundo num momento de grande fragilidade. Foi bom
que aceitasse algo que repisamos há muito tempo. Ele mencionou a sucessão de
problemas como se fossem fatos naturais, acontecendo em sequência. Esqueceu de
falar da visão megalomaníaca dos dirigentes da época e dos seus profundos erros
que nos colocaram nessa situação de hoje.
Mas, no momento, isso é secundário. A Olimpíada já está aí,
o país embarcou nela: não há retorno. A única saída que nos resta é uma
política de contenção de danos, uma tentativa de evitar que o desgaste seja tão
grande. É um objetivo mais modesto, defensivo. No momento, não me parece
impossível, desde que se concentre nas questões básicas. A segurança que é um
problema cotidiano no Rio pode ser aliviada com a presença das tropas federais.
A experiência mostrou isso a partir da Conferência Rio-92.
Todos os grandes eventos internacionais foram realizados sem
grandes incidentes no Rio. Embora a situação da polícia seja mais delicada no
momento, a presença de tropas federais representa um importante fator
psicológico. Ela tende a transmitir a sensação de segurança e desencorajar
ações criminosas de maior amplitude. Outro tema que pode nos dar algum alívio:
telecomunicações. Embora as conexões no Brasil não sejam grandes coisas,
comparadas com o Japão, por exemplo, a tecnologia e a infra existentes podem
garantir um resultado satisfatório. Resta a mobilidade urbana, que motivou um
grande número de obras. Uma das principais, a linha 4 do metrô, talvez seja concluída
a duras penas. Será preciso mais tempo e dinheiro para transformá-la num legado
durável. Um dos problemas mais sérios é a quebradeira do estado. Todo o serviço
de saúde pública, inclusive hospitais de referência, está em crise. Como a
crise na saúde é antiga, nos momentos mais graves a solução de emergência que
existia era usar leitos dos hospitais particulares. Num certo momento, como nos
surtos de dengue, isso funcionou, como escape, mas o governo deixou de pagar
aos hospitais, perdendo sua credibilidade. Aí está um problema que existe
também em relação aos outros serviços públicos. Além de sua decadência
material, não se pagam com regularidade os funcionários. Um dos grandes
desgastes que o Rio viveu foi a manifestação de policiais no Galeão. Seu cartaz
de protesto dizia: “bem-vindos ao inferno”. Uma ação desse tipo atinge um
pequeno número de turistas desembarcando. Mas a imagem que corre o mundo
expressa com muita clareza a dimensão do nosso drama. O Brasil se lançou,
através dos dirigentes delirantes, numa aventura global: atrair a Olimpíada e
mostrar não só a prosperidade mas nosso crescente nível de organização.
Considerada a porta de entrada e símbolo do Brasil no
exterior, o Rio de Janeiro era uma visão do paraíso. É uma grande surpresa para
quem não acompanha os fatos no país deparar-se com um cartaz dos próprios
policiais nativos afirmando que aqui é o inferno. Esse episódio é apenas uma
demonstração de que, como os governantes que trouxeram a Olimpíada, por seu
erro de avaliação, conseguiram o resultado simetricamente oposto ao que
projetaram. O calote nos funcionários é o dado inquietante. Precisa ser
resolvido para que uma política de redução de danos seja bem-sucedida. Existem
críticas na sociedade, mas existe também uma grande vontade de ajudar,
encarnada pelo volume e disposição dos voluntários. A boa vontade das pessoas,
mesmo nesse episódio de delírio do poder, é a grande esperança de êxito numa
política de contenção de danos. Se, depois de tudo, a Olimpíada transcorrer
normalmente — isso é o termômetro de seu êxito como evento esportivo — já será
uma grande vitória. Um tipo de vitória que aumenta a autoestima para enfrentar
os novos e difíceis tempos pós-Olimpíada. Se a sociedade conseguir neutralizar
os estragos de uma decisão delirante, terá cumprido um excelente papel e, quem
sabe, pode até estimular a modéstia de seus futuros governantes. As críticas
continuam válidas, tanto que o próprio Eduardo Paes, um dos mais otimistas,
reconheceu que vivemos um momento péssimo para realizar Olimpíada. Mas na vida,
como na política, existem os fatos consumados. Diante deles, a fase da revolta,
da negação, acaba dando lugar a um ajuste com a realidade.
A Olimpíada está aí. A imagem do país e da cidade já sofreu
muito com a decisão equivocada. Agora, é necessário desejar que seja um êxito
esportivo, sem incidentes. Quem sabe o Brasil possa demonstrar através dela que
viveu uma grande crise, foi ao fundo do poço, e começa agora o longo caminho da
reconstrução. Isso é inteligível não só pelos atletas que vivem fases
diferentes em suas vidas. Não passaremos a imagem de um país poderoso e eficaz,
como se queria no passado. Mas mostraremos que, mesmo apesar de um desastre
econômico, político e moral, demos a volta por cima e terminamos a prova como aqueles
atletas de maratona: com a língua de fora, quase desmaiando. Mas chegam.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 17/07/2016

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