Artigo de Fernando Gabeira
Quando o presidente do COI, Thomas Bach, disse que a
Olimpíada seria realizada “à la Brasil”, deixou uma pergunta no ar. Isso é bom
ou ruim? Os próprios jornalistas, quando repetiam a expressão “à la Brasil”,
com um sorriso, acrescentavam: no bom sentido. O próprio Thomas Bach declarou
que usou o termo pensando na alegria e emoção dos brasileiros. Dizem que os
estrangeiros na Cidade Olímpica têm uma expressão mais simples para explicar a
sucessão de pequenos problemas: TIB, This is Brazil.
Historicamente, ambiguidade tem um lugar importante na
definição de Brasil. No século XVI, Américo Vespúcio classificava o país como
um misto de éden e barbárie. Quase todas as tentativas de definir o Brasil
esbarram na ambiguidade, mesmo quando são feitas por brasileiros.
A expressão “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda,
tanto pode ser vista como uma tendência à bondade quanto como uma recusa em
aceitar o jogo impessoal do poder compartilhado, uma resistência aos ideais
republicanos.
Se as tentativas de definir o Brasil são tão ambíguas, pode
ser até que ambiguidade seja um traço insuperável de nossa História. Talvez
tenha sido esta a intenção de Tom Jobim quando disse que o Brasil não era para
principiantes.
Mesmo aqui dentro, quando nós tentamos encontrar certezas,
somos confrontados com contradições insuperáveis. Muitos analistas consideram
que os brasileiros têm um traço bovariano, expressão inspirada em Emma Bovary,
personagem do escritor Gustave Flaubert. Nesse sentido, eles teriam a tendência
a se considerar melhores do que são na realidade, esperando sempre que algo de
bom e extraordinário venha resgatá-los. Outros, baseados em Nelson Rodrigues,
afirmam que os brasileiros têm um complexo de vira-lata e sentem-se inferiores
aos outros povos.
Thomas Bach disse que o momento era especial por causa da
crise. Ele mesmo pediu às delegações que compreendessem essa realidade e
limitassem seu nível de exigência. O Brasil, disse ele, é um país dividido.
Faltou dizer que é dividido também quanto à Olimpíada: a maioria teme que o
país perca mais do que ganhe com os Jogos.
Mas a alegria e a emoção estão garantidas. Alegria, emoção e
choradeira. Na TV, as reportagens sobre atletas brasileiros sempre têm chororô.
Às vezes, do computador, pergunto: já choraram? Dependendo da resposta, vou
assistir ao final na tela grande, ver as imagens, conhecer as famílias. São
muitas histórias de superação. O “New York Times” destacou um traço talvez
singular no Brasil: o destaque às pessoas que superam dificuldades, mesmo que
não tenham chance de vitórias. Nos EUA, a chance de vitória talvez seja um
critério mais decisivo. Aqui é a superação.
Tenho uma certa dificuldade em dividir não só pessoas como
países em espaços racionais e emocionais. Hoje em dia, sabemos que as emoções
contêm elementos racionais, e a chamada racionalidade não está despojada de
emoções. Quando a Embraer produz um avião, realiza uma tarefa de alta
complexidade e é julgada unicamente pela qualidade, segurança e preço de seus
produtos. Milhares de outros produtores brasileiros buscam incessantemente a
excelência e sabem que apenas ela pode ajudá-los a competir.
Emoção e alegria são qualidades invejáveis. No entanto, em
muitas áreas não são decisivas. Mesmo que não tenha intenções, Thomas Bach
acabou nos fazendo encontrar de novo com a ambiguidade que nos persegue desde
1500. Reduzam suas exigências, valorizem a emoção e a alegria pois assim se
fazem as coisas “à la Brasil”. Soa um pouco paternal, mas essa é a canção que
ouvimos muito antes de Bach, o compositor, nascer, em 1650. Pode ser que a
alegria seja um fator importante. Não quero complicar, mas a ambiguidade se
estende também até ela.
Há quem ache os brasileiros tristes. Em 1928, Paulo Prado
publicou um famoso ensaio sobre a tristeza brasileira, afirmando que a
sensualidade tropical levou ao esgotamento da energia, uma constante fadiga.
Índios que perdiam suas terras, africanos escravizados e portugueses
expatriados, todos tinham razão para se entristecer.
São muitas as armadilhas para se compreender de estalo o
sentido de “à la Brasil”. É preciso ver os olhos do outro, os lábios do outro,
o tom de sua voz. A expressão é uma espécie de certeza individual diante de uma
ambiguidade secular. “À la Brasil” pode ser um método de depilação íntima, um
atraso no horário de entrega, um choro ao receber a medalha, enfim, uma
permanente tentativa de definir o quase indefinível.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 07/08/2016

Nenhum comentário:
Postar um comentário