Da ISTOÉ
Em março deste ano, o Ministério Público de São Paulo pediu
a prisão preventiva do ex-presidente Lula pelos crimes de lavagem de dinheiro e
falsidade ideológica no caso do tríplex do Guarujá. Agora, se descobre que o
esquema do imóvel ocultado pela família Lula da Silva tem mais capilaridade do
que se imagina e não se limitou a beneficiar o petista. Privilegiou também
outros personagens ligados a Lula, à cúpula do PT e à Central Única dos
Trabalhadores. É o que demonstra o Ministério Público de São Paulo em nova fase
da investigação, batizada de Operação Alcateia. Mais de sete volumes de
documentos colhidos pelos promotores até agora dão segurança para eles
afirmarem que a amiga de Lula, Rosemary Noronha, recebeu um apartamento da
falida Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop) sem tirar um centavo do
bolso. Rose, como era conhecida no governo quando, a pedido de Lula, ocupou a
chefia de gabinete do escritório da Presidência em São Paulo, teria sido
favorecida com um duplex de cerca de 150 metros quadrados no Condomínio
Residencial Ilhas D’ Itália, numa área nobre do bairro paulistano da Mooca.
“Rosemary Noronha não conseguiu provar que pagou o imóvel”, afirmou à ISTOÉ o
promotor Cássio Conserino. “Ela, assim como outros personagens ligados a Lula,
não apresentou um mísero comprovante bancário de pagamento de uma parcela”,
complementa. Os outros personagens íntimos de Lula a que Conserino se refere
são o presidente da CUT, Vagner Freitas, e a própria Central Única dos
Trabalhadores. O lado mais sórdido disso tudo é a consequência desta e de
outras fraudes da Bancoop. Com a falência da cooperativa, mais de sete mil
famílias perderam as economias de uma vida e o sonho da casa própria ao
investirem na entidade ligada ao sindicato dos bancários. Enquanto cooperados
de boa-fé foram lesados em suas poupanças, Lula e amigos, de acordo com a
investigação, acabaram contemplados com imóveis sem precisar mexer no bolso.
A nova fase da investigação, filhote daquela que chegou ao
tríplex de Lula, está prestes a ser concluída. O nome Alcateia foi escolhido
pela semelhança entre a cadeia hierárquica existente entre os investigados e a
adotada pelos lobos. Em ambos os casos, acreditam os promotores, há um líder
central que designa o papel e garante a sobrevivência dos outros integrantes do
bando. Neste caso, o chefe seria o ex-presidente Lula, como mostram documentos
e depoimentos. Em um deles, uma testemunha narra ter presenciado João Vaccari
Neto, ex-tesoureiro do PT preso na Lava Jato e então presidente da Bancoop,
afirmar, aos risos, que em breve a cooperativa iria quebrar. Mas a bancarrota,
segundo Vaccari, pouparia o tríplex do chefe no Guarujá e apartamentos de
pessoas íntimas dele. Os promotores já sabem que Vaccari não blefou. O que o
ex-tesoureiro do PT implicado na Lava Jato não revelou, naquela ocasião, é que
muitos desses imóveis sequer seriam pagos pelos futuros proprietários. O MP
chegou a essa conclusão ao enviar para Rosemary Noronha e outras doze pessoas
próximas ao “chefe” uma lista de questionamentos. Perguntaram quais imóveis
eles teriam adquirido da Bancoop e pediram que comprovassem o pagamento das
parcelas.
A protegida
De acordo com o MP, Rose possui dois apartamentos da
Bancoop. Ambos localizados no bairro paulistano da Mooca. Em relação ao mais
valioso deles, um duplex de 150 metros quadrados no Condomínio Residencial
Ilhas D’ Itália, a amiga de Lula não apresentou um documento sequer que
atestasse o pagamento. “Rosemary não apresentou um comprovante e ainda omitiu
que era dona deste imóvel em sua resposta”, afirmou o promotor Cássio
Conserino.
Algumas das respostas chamaram a atenção do Ministério
Público. Em documento enviado em junho, Rose passou com louvor na prestação de
contas de um outro imóvel construído pela Bancoop também na Mooca. Juntou uma
série de comprovantes que mostram o pagamento do apartamento no Condomínio
Torres da Mooca. Não falou, no entanto, uma palavra sobre um imóvel mais
valioso localizado na mesma rua: o duplex de 150 metros quadrados, que está em
nome de sua filha Mirelle. Às autoridades, a própria Mirelle confirmou que quem
comprou o duplex da Bancoop, avaliado em R$ 1,5 milhão, foi sua mãe. Em janeiro
de 2014, o apartamento teria sido repassado para a filha. “A partir deste
momento, passei a arcar com os pagamentos do imóvel”, disse Mirelle em
documento enviado para as autoridades paulistas.
Amigos de Lula
Ocorre que Mirelle também não conseguiu comprovar o
pagamento de uma parcela sequer. Apresentou uma planilha da empreiteira OAS,
que assumiu o empreendimento da Bancoop, e uma declaração de quitação em que
não aparecem nem o valor total pago nem a forma como se deu o pagamento. “Além
dos documentos apresentados não terem validade, é estranho que ela não tenha
feito nenhuma referência ao pagamento da taxa de migração para a OAS que todos
os cooperados tinham de arcar. Há cada vez mais indícios de que os suspeitos
receberam um tratamento diferenciado”, complementa Cássio Conserino. Para os
promotores, está claro que o apartamento não foi pago. Foi doado pela Bancoop
em uma das muitas fraudes que levaram a cooperativa à falência. “Quaisquer
vantagens obtidas ocorreram em detrimento das famílias lesadas”, lamentou o
promotor.
No meio político, Rosemary Noronha ganhou notoriedade pela
proximidade com o ex-presidente. A relação dos dois remonta a 1988, quando ela
trabalhava como caixa da agência bancária onde o Sindicato dos Metalúrgicos do
ABC detinha conta corrente em São Bernardo do Campo. A amizade levou Rose a
administrar as contas pessoais de Lula, que depois a convidou para ser
secretária da sede do PT em São Paulo. Lá, ela trabalhou por 12 anos. Quando
ascendeu à Presidência, Lula nomeou Rosemary como assessora do gabinete em São
Paulo. Depois, como chefe de gabinete do escritório da presidência da
República, também na capital paulista. Em diversas viagens de Lula ao exterior,
ela esteve presente na comitiva. Nos bastidores, o poder alcançado por Rose
incomodava a ex-primeira-dama Marisa Letícia. Em dezembro de 2012, Rosemary
deixou o governo após ser um dos alvos da Operação Porto Seguro. A protegida de
Lula foi acusada de envolvimento com uma organização criminosa que fazia
tráfico de influência em órgãos públicos.
As informações colhidas até agora pelo Ministério Público
complicam outro aliado do ex-presidente. O presidente da Central Única dos
Trabalhadores, Vagner Freitas, não conseguiu demonstrar ter pago à Bancoop por
um apartamento registrado em seu nome no condomínio Altos do Butantã.
Apresentou apenas uma explicação fajuta de que teria comprado a unidade na
capital paulista a partir da soma de valores de cotas que teria adquirido de
dois apartamentos. “É estranho que ele tenha investido em duas unidades e não
tenha mostrado comprovantes de nenhuma”, diz Conserino. Segundo o Ministério
Público, a matrícula registrada em cartório não comprova que Vagner Freitas
quitou o imóvel. “A questão é se ele pagou. Isso ele não conseguiu mostrar”, afirma
o promotor.
As provas reunidas até agora pelo Ministério Público
demonstram também que a Central Única dos Trabalhadores, fundada por Lula e
braço sindical do PT, também teria sido aquinhoada com imóveis da Bancoop de
maneira irregular. Questionado pelos promotores, Vagner Freitas se limitou a
dizer que as unidades, sem mencionar quais, foram negociadas diretamente com a
Bancoop e que não ocorreram repasses para a OAS. Não demonstrou um comprovante
bancário, transferência ou boleto atestando que a CUT realmente pagou alguma
parcela das duas unidades que possui em um empreendimento construído pela
Bancoop no bairro paulistano do Tatuapé. Com três quartos, cada apartamento
está avaliando em cerca de R$ 400 mil. “Há uma simbiose grande entre a CUT e Bancoop,
cooperativa do sindicato dos bancários. Inclusive, há, atualmente, integrantes
da CUT que participam do alto escalão da cooperativa”, complementa o promotor
Cássio Conserino.
Houve, entre os investigados pela Operação Alcateia, quem
conseguisse comprovar que desembolsou pelos imóveis. Carlos Gabas, ex-ministro
de Dilma Rousseff, forneceu comprovantes suficientes para lotar uma pasta.
Freud Godoy, ex-segurança de Lula, e a esposa dele também enviaram uma série de
registros de pagamentos dos apartamentos que compraram da Bancoop. No entanto,
nessa nova fase da investigação, os promotores ainda vão periciar os
documentos. Em pelo menos um caso, mantido em sigilo, constam recibos pela
metade ou boletos sem autenticação bancária. O Ministério Público ainda pretende
cruzar as informações de pagamento dos investigados com os dados fiscais da
Bancoop, obtidos em outra denúncia sobre fraudes na cooperativa.
Uma cooperativa de fraudes
Na lista de suspeitos do Ministério Público aparecem ainda
conhecidos da Operação Lava Jato. São os casos do ex-tesoureiro do PT e
ex-presidente da Bancoop, João Vaccari Neto, e da cunhada dele, Marice Corrêa
de Lima. Ambos foram presos por envolvimento no Petrolão. Ao responder aos
promotores, Marice disse que as escrituras dos apartamentos que teria adquirido
da Bancoop já estavam com a força-tarefa do Petrolão. Enviou apenas uma
planilha da Bancoop. Nela, estão as somas das parcelas pagas. Para os
promotores, o documento por si só não serve para afastar as suspeitas que
recaem sobre eles. “Não há como levar a sério uma planilha referendada pela
cooperativa se os acusados são dirigentes ou pessoas próximas a ela”, afirma o
promotor do MP-SP. Em um despacho sobre Marice, o próprio juiz Sergio Moro
disse que “enquanto vários foram prejudicados pela gestão da BANCOOP”, “a
investigada aparenta ter lucrado em decorrência de aparente generosidade da
OAS”. A cunhada de Vaccari recebeu da empreiteira envolvida no Petrolão mais de
duas vezes o valor que pagou ao devolver um apartamento no prédio em que está o
tríplex atribuído à família Lula. O mesmo imóvel foi vendido, em seguida, pela
construtora por um valor abaixo do pago a Marice.
A situação de Vaccari é ainda mais grave. O ex-tesoureiro do
PT se tornou um personagem onipresente nas investigações da Bancoop. Sua
passagem pela presidência da cooperativa, entre 2004 e 2008, foi marcante.
Cooperados reclamam de assembleias fraudadas e cobranças de taxas irregulares.
Foi pelas mãos dele que a Bancoop foi à bancarrota e iniciou as controversas
transferências de empreendimentos inacabados. Desde 2010, ele é réu de uma ação
por lavagem de dinheiro, estelionato e formação de organização criminosa. Recentemente,
teve a sua prisão pedida no caso do tríplex do Guarujá, apesar de já estar
detido, desde abril de 2015, por envolvimento na Operação Lava Jato.
Operação Alcatéia
Promotores paulistas estão prestes a concluir a segunda fase
da investigação do tríplex de Lula. Suspeitas chegam à Rosemary Noronha, amiga
do ex-presidente. Confira:
> A investigação é a segunda etapa da que pediu a prisão
do ex-presidente. Ela recebeu o nome de Operação Alcatéia pela semelhança entre
a hierarquia existente entre os investigados e a dos lobos. Em ambos os casos,
há um líder central que designa o papel e garante a sobrevivência dos outros
integrantes do bando. Neste caso, seria o ex-presidente Lula
> Com base em mais de sete volumes repletos de
documentos, os promotores suspeitam que personagens ligados a Lula, ao PT e à
CUT receberam vantagens da Bancoop. Há fortes indícios de que alguns chegaram a
ganhar apartamentos sem pagar nada. Rosemary Noronha, amiga de Lula, não
conseguiu comprovar o pagamento de um duplex na capital paulista.

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