Artigo de Fernando Gabeira
Semana de trabalho na Baixada Fluminense. Tardes quentes e
muitas carreatas de candidatos atravancando o caminho, sobretudo no feriado de
Sete de Setembro. Não posso fugir de um tema ao falar com as pessoas por aqui.
A semana foi marcada por um escândalo nos fundos de pensão. O rombo nas contas
de quatro deles, Petros, Previ, Postalis e Funcef, somam mais de R$ 50 bilhões.
Como foi possível chegar a essas cifras? Onde estavam todos os mecanismos de
controle? Que magia permitiu que uma suspeita que data de mais de 13 anos
continuasse nas sombras?
Nos últimos meses, estourou também o escândalo do crédito
consignado para funcionários públicos. As mesmas forças que combatem uma
reforma da previdência usaram amplamente os recursos dos aposentados para seus
projetos políticos. Norberto Bobbio, em seu livro sobre o que é a esquerda,
destacava a preocupação com aposentadoria digna, uma proteção na velhice como
uma linha divisória. No entanto, acho que hoje há consenso sobre a necessidade
do sistema em muitos países. O que se discute, aqui, na França, na Grécia, é
sua sustentabilidade. Experimentei no contato com um amigo na Baixada o que é a
insegurança quando o sistema entra em pane. Ele é aposentado pela PM, o pai
pelo Corpo de Bombeiros e a mãe como professora. São três funcionários
estaduais e viveram momentos de pânico pela falta de dinheiro. O pai sofre de
Alzheimer, precisa de uma enfermeira. Sem salário, os três não conseguiam mais
pagar a enfermeira por sua vez estressada com o perigo de desemprego. É tão
sério manter a sustentabilidade e o circo da campanha eleitoral, que com suas
bandeiras e carretas parece alheia à realidade cotidiana.
Numa das noites, vi na TV dezenas de funcionários reclamando
dos salários. Deveriam recebê-los, por ordem da Justiça, no terceiro dia do
mês. Não havia dinheiro para todos. O governo optou por uma escolha de Sofia
estatística: 30% ficariam sem o salário. Naquela imagens da TV, os 30% ganhavam
rosto e voz, eram pessoas reais com dificuldades comoventes na sua vida
cotidiana. O populismo vai garantir sempre que luta pelos “nossos velhinhos”,
mas os últimos acontecimentos mostraram: os “nossos velhinhos” é que
impulsionam com seu sacrifício os sonhos de poder e riqueza de setores da
política. Na propaganda política parece que nada se passou, que não houve as
grandes manifestações de 2013. Os candidatos estão sempre prometendo que vão
cuidar de você, dos velhos, das crianças, dos transeuntes.
No torpor de quem trabalhou todo o dia, imagina-os como se
fossem médicos correndo de enfermaria em enfermaria, cuidando de todos
exaustos. É um discurso anacrônico. As manifestações de 2013 pediam serviços
públicos decentes, em troca dos pesados impostos que se pagam. Parece pouco,
mas é o desafio do momento. Não creio que as pessoas precisem de um pai.
Sobretudo agora que o pai dos pobres e a mãe do PAC acabam de deixar o poder.
Acredito que muitos dispensariam pai e mãe no poder se tivessem apenas um bom
funcionário público no governo. Mas a força de elementos irracionais, uma visão
equivocada do papel do estado, ainda levam muitos à busca de um candidato
populista que procura associar à imagem paterna. Fiquei muito impressionado com
esses dias na Baixada. Ao cruzar com as campanhas políticas e sua bandeiras,
foi como se o tempo não tivesse passado e todos esses últimos anos fossem
apenas uma lembrança nebulosa.
De uma certa forma, era uma invasão de zumbis. Não ameaçam a
vida mas a própria noção do tempo. Não sei se inflacionei minhas expectativas,
mas em quase toda parte vejo campanhas políticas desoladoras. Em alguns
lugares, você deixou de ser aquele eleitor que escolhe um candidato e se
transformou num especialista em redução de danos, escolhendo a dedo o desastre
menos assustador. Aquele processo que construímos a partir da democratização
acabou. Sobrevive como um fósforo apagado. Não é preciso ter lembranças para se
chegar a essa conclusão. A frieza das ruas mostra que grande parte das pessoas
prefere uma distância sanitária das investidas eleitorais. Infelizmente a
marcha dos zumbis é tão sofisticada que os próprios doadores também já
morreram. Dados do Tribunal Superior Eleitoral registram um grande número de
mortos entre os doadores de campanha.
O processo só ficará completo quando produzirem uma grande
quantidade de títulos de eleitores dos mortos. O ciclo se fechará. Os mortos
dão a grana, votam, os zumbis acenam bandeiras e nos entopem de santinhos. Não
creio que isso vá durar muito tempo. Prefiro acreditar que é uma dessas séries
de TV que custam a acabar e estou vendo apenas um dos seus últimos capítulos.
Vi uma manifestação de rua questionando os gastos do governo. O cartaz dizia:
Seropédica acordou. O verbo é bem escolhido. Imaginei milhares de luzes se
acendendo no mapa do Brasil e antevi uma reforma política. De baixo para cima
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 11/09/2016

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