Na ocasião, Lula segurou a guitarra, como se tocasse em um
show de rock, e posou para o fotógrafo oficial da Presidência. O instrumento
foi leiloado em maio e arrematado, por R$ 322 mil, pelo empresário Pedro
Grendene – que recebeu a guitarra em setembro das mãos de Lula, pai do Fome
Zero.
Em 2006, ano de reeleição, seria a vez do irlandês Bono Vox,
o ainda mais pop star vocalista do U2. Bono doou ao Fome Zero uma guitarra para
ser leiloada e gerar – além dos recursos – publicidade ao programa carro-chefe
do governo Lula. O segundo leilão, no entanto, aconteceria somente um ano
depois, depois de muita cobrança e questionamentos dos fãs – uma das suspeitas
levantadas na ocasião envolvia a guarda do instrumento, que supostamente
estaria na casa de um dos filhos do então presidente.
Dez anos depois, a Operação Lava Jato revela bastidores
dessas doações destacadas na imprensa nacional e internacional. Análise de
e-mails do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente, mostra que
houve uma disputa entre a ONG Ação Fome Zero e o Ministério de Desenvolvimento
Social e Combate à Fome pelo direito dos recursos levantados com os leilões e a
preocupação da coordenadora da entidade, Fátima Menezes, em relação a cobrança
da imprensa sobre a guarda da guitarra de Bono Vox.
Amigos de Lula – A organização não-governamental Ação Fome
Zero foi criada por Bumlai e por outro amigo de Lula, o consultor Toninho
Trevisan. A entidade funciona como um braço do Programa Fome Zero, fora do
Ministério do Desenvolvimento Social e de Combate à Fome.
A ONG foi responsável por promover o recebimento oficial das
guitarras de Kravitz e Bono, fazer a divulgação e os leilões dos equipamentos
realizados em 2006 e 2007 – tudo amplamente divulgado e registrado
publicamente.
Informação da Polícia Federal, em Curitiba, reúne e-mails
trocados por Bumlai, Trevisan e Fátima Menezes. Em uma dessas mensagens
eletrônicas, a ex-coordenadora da ONG reclama da reversão do dinheiro
arrecadado com as guitarras para o fundo de combate à fome, do Ministério de
Desenvolvimento Social.
“Temos agora uma situação de tensão que é o leilão de duas
guitarras. Um trabalho bem feito poderia render a AFZ (Ação Fome Zero)
visibilidade, recursos e credibilidade (principalmente depois da experiência
anterior)”, relata Fátima Menezes a Bumlai, em e-mail enviado no dia 17 de
abril de 2007.
“Acontece que no processo de regularização dos bens doados
(que é um assunto complicado para o qual os advogados do governo e os nossos
parecem não ter uma posição concordante) que venho liderando a cerca de um ano
trouxe à tona algumas questões que me permitem reavaliar as vantagens que a
Entidade e o projeto possam ter com essa atividade.”
Segundo Fátima, que deixou a coordenação da Ação Fome Zero
em 2014, um parecer jurídico do governo informava que a entidade teria que
firmar um termo de cooperação com ministério e que o dinheiro “advindo do
leilão efetuado deverá ser destinado ao Fundo de Combate à Erradicação da
Pobreza” e que a utilização dele em projetos da ONG teria que ter parecer do
conselho consultivo do fundo – conselho que, segundo ela, teria se reunido duas
vezes em quatro anos. “Em resumo: nós não podemos fazer uso do recurso obtido
pelo leilão” – reclamou a coordenadora.
Fátima afirma na mensagem que propôs ao Ministério de
Desenvolvimento Social que “como havia duas guitarras, uma fosse destinada ao
Fundo de Combate à Pobreza”. “Enquanto o leilão da outra viesse para nossa
Entidade que aplicaria em um projeto de cisternas em escolas”, explicou a
coordenadora da ONG.
Bumlai respondeu no dia 18 que não sabia do ocorrido e iria
conversar com Trevisan. O pecuarista é alvo de investigações da Lava Jato,
junto com Lula, suspeitos de integrarem o esquema de cartel e corrupção na
Petrobrás.
O material com bastidores das doações das guitarras para o
Fome Zero foi anexado em inquérito em que Bumlai é alvo – ele é réu em processo
em fase de sentença a ser proferida pelo juiz federal Sérgio Moro.
No mesmo dia que Bumlai respondeu à coordenadora da ONG,
Trevisan havia escrito que concordava que seria melhor abrir mão dos recursos
arrecadados com as guitarras. “O assunto da guitarra tem de fato sido uma pedra
no nosso sapato. Não sei se o Bumlai concorda mas nesse caso me parece melhor
entregar o dinheiro a MDS para que ele dê conta da empreitada e aplique o dinheiro
dentro de sua visão.”
Trevisan opina que “firmar acordo de cooperação” parece mais
uma etapa “complicada pelas características e pouco producente pelos
resultados”.
Filho – Os e-mails de Bumlai, revelados pela Lava Jato,
mostram também a preocupação da coordenadora da ONG com questionamentos feitos
pela imprensa sobre quem guardava a guitarra de Lenny Kravitz entre a doação,
em 2005, e o leilão, em 2006. Em um e-mail, Fátima relata da suspeita de que o
equipamento estaria “na casa do filho”. Para a Polícia Federal, a menção seria
a um dos filhos de Lula.
A guitarra doada pelo vocalista do U2 foi recebida em
fevereiro de 2006. Em troca de e-mail de maio daquele ano, Fátima Menezes
comunica que jornalistas cobravam a ONG para apresentar o instrumento.
“A jornalista do Estadão continua telefonando diariamente
para saber onde a guitarra está. Conversamos e eu disse a ela que a guitarra
estava aqui mas pedi para que ela não divulgasse a informação por questão de
segurança”, comunica a coordenadora da ONG para Bumlai.
A guitarra de Bono Vox foi entregue em fevereiro de 2006
durante uma turnê da banda no Brasil. O instrumento foi leiloada em agosto de
2007, em um evento que contou com a cooperação da Federação das Indústrias do
Estado de São Paulo (Fiesp), e arrematado por R$ 15 mil pela internet por Sear
Harton – um irlandês radicado no Brasil.
Conteúdo Estadão

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