Do O Globo
Empossada presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), a
ministra Cármen Lúcia iniciou sua participação na cerimônia desta segunda-feira
com um pedido de licença para quebrar protocolo. Ao cumprimentar primeiro não a
maior autoridade presente, o presidente Michel Temer, mas "Sua Excelência,
o povo". Depois foi a vez das pessoas que recorrem ao Judiciário, e só
depois as autoridades presentes.
— Cumprimento o jurisdicionado, aquele que procura o
Judiciário na luta pelos seus direitos. Com ele me comprometo, como acho que é
o compromisso de todos nós do Supremo Tribunal Federal, firme e fielmente,
estejam certos todos os cidadãos do país, a trabalhar até o limite de nossas
forças e de nossa capacidade para que a jurisdição seja devidamente prestada e
prestada para todos — afirmou a ministra.
Em seu discurso, Cármen Lúcia reconheceu que o Judiciário
brasileiro não atende as expectativas da população e, mais do que uma reforma,
precisa passar por transformação. Ela destacou que a Justiça precisa ser mais
rápida e afirmou que, além do povo, os próprios juízes não estão satisfeitos
com o Judiciário hoje.
— O Judiciário brasileiro reclama mudanças e a cidadania
exige satisfação de seus direitos, como a Constituição lhe assegurou. Estamos
promovendo mudanças. E é preciso que elas continuem, cada vez com mais pressa,
diminuindo o tempo de duração dos processos, sem perda das garantias do devido
processo legal, do amplo direito de defesa, garantia do contraditório, mas com
processos que tenham começo, meio e fim, e não se eternizem em prateleiras
emboloradas que empoeiram as esperanças de convivência justa — disse Cármen
Lúcia.
Apesar dos problemas elencados, a ministra ressaltou a
necessidade da Justiça na vida dos cidadãos.
— Sem justiça, sobra força de uma pessoa sobre a outra, a
violência pessoal que não respeita o que de humano distingue o homem de outras
espécies — disse a presidente do STF.
Ela agradeceu seu antecessor no cargo, o ministro Ricardo
Lewandowski, disse que o país passa por tempos tormentosos e citou até mesmo a
banda de rock Titãs.
— Como na fala do poeta da música popular brasileira,
ninguém quer só comida, a gente quer comida, mas também diversão e arte —
afirmou a ministra.
AUTORIDADES INVESTIGADAS NA PLATEIA
A cerimônia foi disputada por autoridades do governo e a
cúpula do Poder Judiciário. O ministro Dias Toffoli será o vice, em um mandato
de dois anos de duração. Entre os presentes ao evento estavam o presidente
Michel Temer, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e o presidente
da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Renan tem hoje dez inquéritos
abertos no STF, entre investigações da Lava-Jato, da Zelotes e de outros temas.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que também
responde a um inquérito no STF por conta da Operação Lava-Jato, também
compareceu. Ele foi o responsável pela nomeação de Cármen Lúcia para uma das
onze cadeiras do tribunal, em 2006. Desde que deixou a presidência da
República, em 2010, Lula não havia sido visto no STF. Outro investigado na
Lava-Jato que fez questão de comparecer à posse foi o senador Edison Lobão
(PMDB-MA). O ministro Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União (TCU),
também foi cumprimentar Cármen. Ele é investigado na Operação Zelotes, em um
processo relatado pela ministra.
Logo no início da cerimônia, Caetano Veloso cantou o hino
nacional e tocou a música no violão, sentado em um banquinho, no plenário do
tribunal. Arrancou aplausos efusivos dos presentes.
O mais antigo integrante da corte, o ministro Celso de Mello,
fez um discurso forte contra a corrupção, que ganhou repersussão nas redes
sociais. Citando o ex-presidente da Câmara Ulysses Guimarães, Celso disse que
"não roubar, não deixar roubar, pôr na cadeia quem roube" é o
primeiro fundamento da moral pública. Ao longo do discurso, ele também usou
palavras fortes, como "delinquência governamental" e "marginais
da República".

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