Em sua primeira entrevista como presidente da República,
antes de embarcar para o encontro dos países integrantes do G20 na China na
quarta-feira 31, Michel Temer falou com exclusividade à ISTOÉ no Palácio do
Planalto. Plácido, Temer discorreu durante quase duas horas sobre os projetos e
planos para os próximos dois anos e quatro meses de governo. Na entrevista, ele
prometeu priorizar o ajuste fiscal, votar a reforma da Previdência, trabalhar
para acabar com a divisão entre os brasileiros e entregar ao sucessor, em 2018,
um País com as contas em ordem. “Prometo aquilo que os pés no chão admitem.
Nada mirabolante”, afirmou. Ciente dos enormes desafios que terá de vencer a
fim de recolocar o País nos trilhos, Temer não se furtou em abordar, na
conversa com ISTOÉ, mesmo os mais delicados temas como a relação com o PSDB, a
sucessão presidencial, o fim da reeleição, o qual disse apoiar, e as denúncias
da Lava Jato envolvendo o seu nome. Ao fim, confessou uma angústia espiritual:
“Que o povo dissesse, daqui a dois anos: ‘esse Michel Temer deu um jeito no
País’ ”.
O que muda no governo a partir de agora que o sr. assume
como presidente efetivo e qual será a sua prioridade número um?
Agora, ao mesmo tempo, há uma revolta com privilégios da
própria Previdência …
Mas nós vamos equiparar a Previdência geral com a pública.
Não haverá mais distinção. A questão da idade, por exemplo, será fixada para a
Previdência geral e pública.
Como o sr. quer ficar marcado ao final desses dois anos e
quatro meses?
Como alguém que recolocou o País nos trilhos. Não vou ter a
ilusão de que vamos transformar o País na terceira ou quarta economia do mundo
em dois anos e quatro meses. Se colocarmos o País nos trilhos de maneira que eu
possa entregar ao sucessor um País organizado, com as contas em dia e
pacificado me dou por satisfeito. Não prometo nada mirabolante. Prometo aquilo
que os pés no chão admitem.
Qual o maior obstáculo para colocar o País nos trilhos?
O maior obstáculo para colocar o País nos trilhos é o
desemprego. O desemprego torna a pessoa indigna. Um dos fundamentos da
Constituição é a dignidade da pessoa humana. Meu papel é restabelecer primeiro
a confiança. E os índices de confiança já estão aumentando. Na indústria subiu
de 42 para 86. Como conseqüência da confiança você vai ter investimento. Como
conseqüência do investimento você vai ter indústria funcionando. Para combater
o desemprego você não pode ter preconceito com a iniciativa privada. É ela que
vai gerar emprego.
Há um programa específico para combater o desemprego?
Uma abertura absoluta do governo. Criamos uma secretaria
especial para cuidar das concessões. Ao mesmo tempo da desestatização. E esse
setor vai gerar muitos empregos. Eu mesmo vou viajar para o exterior para
trazer investimento e capital para cá. Há muito dinheiro aí fora e muita gente
querendo aplicar.
Estamos caminhando para um Estado menor? Este é o objetivo
do governo?
Vamos para o Estado necessário, que hoje é aquele que
promove a integração entre a atividade pública e a privada. Não quero ser
piegas, mas não pergunte o que o Estado pode fazer por você, mas o que você
pode fazer pelo Estado. Significa uma integração muito grande entre o público e
o privado.
Se for necessário para o ajuste fiscal, vai haver aumento de
imposto?
Esta é a última das hipóteses. Agora estamos cuidando de
outras coisas. Vamos pensar na venda dos ativos da União, precisamos esperar os
resultados da repatriação, quanto vai dar … Depois de aprovar esses ajustes que
estamos propondo, se for indispensável, e grife o “in”, haverá aumento de
imposto.
Ou seja, só haverá aumento de imposto se for indispensável?
Sim, só se for indispensável e se não houver outra solução.
Mas qual é o critério para estabelecer quando ele é
indispensável?
Se o Congresso não aprovar, por exemplo, nenhuma dessas
medidas que estamos propondo, começa a ficar difícil. Por isso é um dos fatores
de convencimento que nós vamos usar para também aprovar esses projetos.
Obviamente que o sr. circula com mais facilidade no meio
político do que sua antecessora. Essa falta de interlocução política, sem
dúvida, foi um dos problemas do governo anterior. Como o sr. vai levar a sua
experiência política para o dia a dia do novo governo?
Minha conduta será a mesma. Claro que os parlamentares vão
encarar de maneira diferente. Vão dizer: ‘Agora ele é o presidente para valer.
Efetivo’. Mesmo na interinidade, eu jamais mandei um projeto para Câmara ou
Senado sem antes reunir os líderes. Agora, efetivado, além de reunir líderes
também reunirei bancadas. Precisamos de uma ação conjunta. Hoje o que pode
salvar o País é uma ação conjunta entre Executivo, Legislativo, Judiciário e
sociedade. Quando eu disse lá atrás que precisávamos reunificar o País não foi
apenas uma palavra. É um conceito. Se não colocar isso em execução você não
tira o País da crise. Conversarei até mesmo com os companheiros da oposição.
Você sabe que há certas questões que são de governo. Outras, de Estado. O teto
dos gastos, por exemplo, é uma questão de Estado, que vai servir para mim agora
na Presidência e para outros que virão depois.
Nos últimos anos, essa relação com o Congresso se deteriorou
muito. Ficou muito fisiológica. Como mudar isso nesse quadro de fragmentação
partidária. É possível fugir da armadilha do fisiologismo?
Reconheço que aumentou o que está sendo chamado de
fisiologismo. Mas, quando você governa, você o faz com vários partidos que têm
o direito de participar do governo. Direito de que maneira? Indicando nomes
adequados. Você dizer que político não pode indicar nome é um equívoco. Agora,
de outro lado, muito recentemente, sancionamos uma lei que moraliza essas
indicações, como a norma das estatais. Ela estabelece restrições. Quem 36 meses
antes da nomeação exerceu função política não pode ocupar cargo. Então,
moralizamos. Concordo que a fragmentação partidária dificulta a
governabilidade. Porque se você tem duas ou três correntes de opinião, quatro
ou cinco partidos, você faz uma aliança com dois ou três legendas e, pronto,
está feito o governo. O ideal até é que tivéssemos duas correntes de opinião.
Uma que está no poder e outra na oposição, como nos EUA. Mas isso não depende
do Executivo. Podemos contribuir com uma reforma política que paulatinamente
reduza o número de siglas partidárias.
Mas o sr. acha que há espaço hoje para aprovar uma reforma
política?
O direito nasce dos fatos. Os fatos vão amadurecendo até se
converter em lei. Acho que o tema da reforma política está amadurecido. Acho
que isso pode se converter em lei.
O governo anterior recebeu muitas críticas e foi muito
rejeitado pela grande quantidade de equívocos cometidos em diversas áreas. Em
que o governo que saiu errou que o sr. vai procurar não errar ?
O governo anterior foi objeto de um julgamento que o levou
ao impedimento. Aliás, um fenômeno da democracia. Acho que a sra. ex-presidente
cumpriu um papel, cometeu equívocos… Um deles, a questão da falta diálogo, que
eu considero importantíssimo. Quero, inclusive, que o diálogo e a pacificação
sejam a marca do meu governo. O Brasil não pode ser um País de divisão entre os
brasileiros, mas de somatória.
No PMDB houve dois ícones políticos: Ulysses Guimarães e
Tancredo Neves. Eles são referências para o sr.?
A atuação que Ulysses e Tancredo tiveram na pregação da
democracia e na participação de todos nas questões de Estado é um exemplo para
todos nós. Invoco Juscelino também, ao dizer que não tenho compromisso com o
erro.
O ex-presidente José Sarney foi um vice que assumiu com a
responsabilidade de fazer uma transição política. Itamar Franco assumiu e fez
uma transição para a estabilidade econômica. O sr. assume para fazer uma
transição política e econômica?
É verdade. Precisarei ter uma atuação política que reverta
em benefício da economia brasileira. Se puder somar as duas coisas, ficarei
satisfeito.
No plano externo, o sr. ainda é uma figura, não diria
desconhecida, mas que ainda gera um pouco de dúvidas sobre quem é, o que vai
fazer. Como o sr. imagina driblar isso?
Durante a vice-presidência, eu realizei muitas missões
internacionais. Era recebido por todas as autoridades. Muitas delas eu conheço,
como o presidente (François) Hollande (da França), os chefes de Estado de
Portugal, dos Emirados Árabes … O próprio Barack Obama (presidente dos EUA).
Estive com ele em uma reunião ampla de segurança nuclear e conversamos um
pouco. Vou estar pela quarta vez com o presidente da China, Xi Jinping.
E em relação ao entendimento internacional sobre o processo
político que passamos aqui? Houve um ruído no exterior em meio à disseminação
da narrativa do golpe pelo PT. Como contornar uma eventual desconfiança externa
nesse aspecto?
Se eu pudesse, eu levaria uma Constituição e leria dois
artigos que imediatamente definiriam essas questões. É verdade que se plantou
muito essa tese do golpe. Mas é uma coisa curiosa. Em determinado momento, a
presidente viajou para Nova York, eu assumi por quatro, cinco dias. Ela voltou,
reassumiu e aí as pessoas perguntavam no exterior: “Mas que golpe é esse?” Isso
é fruto do momento.
Qual é a mensagem que o sr. vai levar ao G-20?
Será uma mensagem de pacificação política do País. Não vou
ignorar que nós passamos cerca de 120 dias num grande embate político, que pode
ter gerado equívocos na área internacional, mas que hoje há a absoluta
tranquilidade, especialmente porque, a formação nossa e de todos que assumem o
governo é legalista e democrática. De modo que direi que eles terão segurança
jurídica para a formulação de contratos e investimentos, e que dia 13 ou 14
vamos lançar um plano de concessões.
No plano internacional, devido às prioridades da gestão
anterior, o Brasil se distanciou muito do relacionamento comercial e político
com os Estados Unidos e Europa, concentrando muito no bloco latino-americano. O
sr. planeja mudar isso?
Já estamos fazendo isso ao universalizar as relações
diplomáticas do nosso País. Ao invés de segmentá-las neste ou naquele bloco,
vamos universalizá-las. Aliás, tão logo o ministro José Serra assumiu o
Itamaraty, conversamos sobre isso e disse que nós precisamos ter contato com
todos os Países sem nenhuma distinção. Sem preconceito ideológico, político e
econômico.
Mas o Mercosul como bloco foi muito limitador, causando
prejuízos na expansão de outros mercados?
Nós damos muita importância ao Mercosul. Você ter uma
conjugação de países que se unem, até em defesa de interesses variados
políticos e econômicos, é importante. Agora, estamos propondo também uma
readequação das relações dentro do Mercosul. Porque, de fato, não pode ser
impeditivo que você venha a fazer relações econômicas e comerciais com outros
países.
Estão sendo discutidas mudanças nos programas sociais. Qual é
a nova roupagem que está se planejando?
Chegaram a dizer que poderíamos eliminar programas sociais,
mas o que fizemos foi valorizá-los. O Bolsa Família aumentamos em 12,5%, o que
dá mais ou menos uns R$ 20, que multiplicados por 14 milhões (de beneficiários),
são R$ 280 milhões, que vão circular na venda, no armazém. Ou seja, movimentará
a economia. Haverá, evidentemente, uma espécie de revisão. Aqueles que não
dependerem mais do Bolsa Família, não podem nele continuar. Em relação ao Minha
Casa Minha Vida, são 40 mil casas, que deverão ser construídas logo, e mais 600
mil para o ano que vem. Além disso, aumentamos a faixa de financiamento de R$
1,5 milhão para R$ 3 milhões para incentivar também a construção civil, que é
um dos setores que mais pode dar emprego. É o programa social que está
cuidando, ao mesmo tempo, do desemprego e da economia. Para incrementar o Fies,
que as pessoas diziam que nós íamos eliminar, demos mais 75 mil bolsas de
estudos. O Ministério do Desenvolvimento Social também está lançando o Criança
Feliz que é para cuidar das crianças pobres de um a três anos.
Em que consiste o programa?
Cuidar não só com alimentação, mas também psicologicamente.
Estamos lançando também o Cheque Reforma, que são financiamentos de R$ 3 a R$ 5
mil para que a pessoa possa reformar sua casa, montar um banheiro, aumentar um
quarto, enfim, melhorar. Trata-se de outro incentivo para a construção civil.
Os programas sociais são fundamentais. Mas eles haverão de ser sempre uma
espécie de rito de passagem. Haverá um momento em que o País prosperará de tal
maneira, que não haverá mais a necessidade.
E o Mais Médicos continuará a importar médicos cubanos?
Devemos incentivar, em primeiro lugar, a contratação da mão
de obra médica nacional. Agora, se houver necessidade também de médicos
estrangeiros, não pode haver preconceito.
E qual seu plano para a Reforma Agrária?
A primeira reforma que vamos fazer é dar títulos àqueles que
já estão assentados. São milhares deles que não têm título.
Mas eles poderão vender o título …
Olha, aí é um risco calculado. Se é dele, de fato ele pode
vender. Agora, eu verifico que as pessoas estão muito preocupadas com isso, há
movimentos sociais voltados para essa regularização.
No Pontal do Paranapanema aconteceu muito isso. Uma vez
assentados e organizados, vendiam os títulos …
Talvez seja possível dar o título com algumas restrições.
Vai haver reforma ministerial?
Não tem nada.
Pontualmente alguns ajustes?
Não sei, isso o tempo dirá.
Muito se falou que na fase de transição o seu governo foi
muito receptivo a negociações para tentar montar uma ampla base de apoio. E
que, talvez, na segunda etapa, o critério técnico prevalecesse com mais força.
Mas Deus ajudou, viu, porque foi uma boa negociação. Veja a
equipe econômica que nós temos, toda ela. A equipe de Relações Exteriores, a
política… Veja aqueles mais jovens que estão no Ministério das Cidades, da
Educação, no de Minas e Energia, no da Indústria e Comércio.
Tanto o ministro José Serra (Itamaraty), quanto o ministro
Henrique Meirelles (Fazenda) têm aspirações de se candidatar à Presidência em
2018. O sr. tem alguma predileção?
Há 22 candidatos à Presidência, porque você sabe que todos
os ministros aspiram ao Planalto (risos).
Mas esses dois seriam os mais fortes.
Meirelles e Serra têm mais história, só isso.
E o sr, não pretende se lançar em 2018? E se houver um
chamamento?
Não haverá chamamento, pode ficar tranquilo (risos).
O sr. está assumindo a Presidência em meio a uma campanha
eleitoral. Planeja se engajar de alguma forma?
Não vou me engajar por uma razão singela. Eu tenho uma base
parlamentar muito ampla. Basta dizer que nesses últimos tempos foram
incorporados mais seis partidos, que disputam eleições nas várias localidades.
Então, eu vou exercer a Presidência da República.
Mas qual é a importância de ter, por exemplo, a Marta
Suplicy, que é do seu partido, como prefeita de São Paulo?
Pessoalmente eu acho importante. Agora, é uma opinião
pessoal. Acho que ela tem experiência, em primeiro lugar, segundo, está
disputando pelo PMDB. Mas eu não vou participar da campanha.
O PSDB é um parceiro importante do governo, mas, daqui a
dois anos, pode ser adversário, pois tem pretensões presidenciais. Como lidar
com isso?
O PSDB, como os demais partidos que me apoiam, tem muito
espírito público. E eles querem que dê certo, tanto que me auxiliam muito e
continuarão me ajudando muito. Em segundo lugar, tenho dito que meu objetivo é
apenas fazer um governo de transição, para que eu possa entregar para o
sucessor um País arrumado, só isso.
A proposta do fim da reeleição não seria um sinal importante
para serenar os ânimos?
Se passar o fim da reeleição, eu apoiarei. Não tenho problema
nenhum, porque não diz respeito a mim. Não vou para a reeleição, então, estou
tranquilo.
O PT disse que o seu governo iria paralisar a Lava Jato, o
que acha disso?
Qual é a fórmula que eu tenho para paralisar a Lava Jato? É
uma coisa tão absurda. Tenho dito que cada Poder vai exercer suas funções. O
Executivo não pode interferir nas questões do Judiciário. Segundo ponto, sob o
comando de Sérgio Moro, ela fez um papel muito adequado, muito correto e não
pode sofrer nenhuma espécie de restrição.
O sr. foi citado pela Lava Jato…
Duas, três ou quatro vezes. Mas, data vênia, de forma tão
ridículas que normalmente alguém publicava, a imprensa não comprava e morria no
dia seguinte.
O sr. está tranquilo em relação à Lava Jato?
Tranquilíssimo, durmo bem.
Qual vai ser o papel da primeira-dama, Marcela Temer?
Ela vai ajudar na área social. Naturalmente, agora que eu
assumi. O Osmar Terra já esteve com ela falando sobre o Criança Feliz.
Em seu livro, Anônima Intimidade, o sr. diz o seguinte no
poema “Trajetória”: “Se eu pudesse, eu não continuaria”. Isso ainda vale para
os dias de hoje?
Sabe que o poema é uma coisa muito pessoal. Não fala,
digamos assim, da trajetória política ou profissional. Fala mais, talvez, sobre
a trajetória pessoal.
Mas, em seu momento pessoal, profissional e político de
hoje, vale o poema ou não?
Vale, vale, acho que vale. Eu jamais imaginaria – e veja
como é o destino – que eu poderia chegar até aqui, ou melhor, que me trouxessem
para cá. Muitas vezes as pessoas têm angústias espirituais, sentimentais e é
nesse sentido que eu disse: ‘se eu pudesse, não continuaria’.
E qual é sua angústia espiritual hoje?
Gostaria que daqui a dois anos e quatro meses o povo
dissesse “esse Michel Temer deu um jeito no País”.

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