Da ÉPOCA
O dia 31 de agosto de 2016 começou, na verdade, em outubro
de 2014. Naquele mês, no dia 26, os brasileiros reelegeram Dilma Rousseff para
a Presidência da República. Três semanas antes, no dia 5, havíamos escolhido o
Congresso que iria cassá-la.
Toda a cadeia de fatos que desembocou no impeachment
decorre, em essência, dessas duas escolhas. Em seu primeiro governo, Dilma
implantara um programa – chamado por ela de Nova Matriz Econômica – que levou o
país à pior recessão de sua história. Os efeitos dessa recessão apareceram, com
toda a força, em seu segundo mandato, e atingiram principalmente a população
mais pobre, na forma de inflação e desemprego. Por causa disso – e também do
envolvimento dos partidos de sua coligação em escândalos de corrupção – Dilma
perdeu sua popularidade. Sem o apoio das ruas e tendo de enfrentar a crise que
ela própria criara, Dilma precisava da ajuda do Congresso que havia sido eleito
junto com ela. Não conseguiu. Para resumir uma ópera de vários atos, faltou
humildade de um lado e boa vontade do outro.
O Brasil que o presidente Michel Temer governará por dois
anos e quatro meses herda dois traumas. O da recessão, criado pelo governo
Dilma. E o do impeachment, a solução encontrada pelo Congresso para resolver a
crise econômica e de governabilidade (o futuro dirá se foi a melhor solução, a
pior solução ou a solução possível). As acusações de que Dilma cometera crimes
contra a Lei de Responsabilidade Fiscal forneceram a base jurídica de um
processo que, por definição, é também político.
O novo governo enfrentará vários desafios difíceis. Terá de
recompor a base aliada, fraturada no impeachment. Precisará recompor a economia
e implantar uma cultura de responsabilidade fiscal. Por último, e talvez mais
importante, terá de retomar o debate público – a essência da democracia – num
país radicalizado. A agenda emergencial de Temer não traz, num primeiro
momento, nada muito diferente das soluções consensuais que foram tentadas, ou
aplicadas, em governos anteriores – inclusive do PT.
Impeachments são sempre traumáticos . Achar que o que
aconteceu no Brasil se deve a uma gangue de marcianos que aterrissou de disco
voador – o “perigo vermelho”, diriam os radicais de um lado, ou os tais
“golpistas”, diriam os radicais de outro – é, no entanto, um equívoco com
laivos paternalistas. Numa democracia, devemos assumir a responsabilidade por
nossas escolhas. Nunca é demais repetir: escolhemos Dilma e escolhemos o
Congresso que a cassou. Há quem ache que fizemos a coisa certa. Há quem se
arrependa de ter escolhido esta presidente, ou este Congresso, ou ambos.
Podemos errar em nossas escolhas – este é o drama das eleições. Podemos
corrigir no pleito seguinte – esta é a beleza da democracia. O governo que
agora assume terá um desafio difícil pela frente. Os que perderam seus
empregos, seus planos de saúde e suas esperanças na crise – e os brasileiros
que são solidários a eles – torcerão para que Michel Temer tenha algum sucesso
em sua empreitada.
Que tudo isso tenha sido um aprendizado – e que em 2018,
mais que nunca, encaremos nossas escolhas eleitorais com a seriedade que elas merecem.

Nenhum comentário:
Postar um comentário