Fora definitivamente da Presidência da República, Dilma
Rousseff é uma cidadã como qualquer outra cidadã do País – um pouco menos,
talvez, já que contra ela pesam suspeitas de crimes enquanto a esmagadora
maioria das brasileiras é respeitadora das leis. Sem as prerrogativas do cargo,
Dilma é hoje uma mulher comum. Normal, então, que ela já tenha arregaçado as
magas e posto mãos à obra: muita coisa para empacotar, malas a afivelar, é
nessa hora que se vê quanta bugiganga se guarda – anotações tolas, santinhos de
campanha, roupas que ficaram largas ou apertadas, retratos antigos dos tempos
utópicos de Wanda. Organizar bagagens, enfim, é afazer cansativo e melancólico,
sobretudo quando nos expulsam de algum lugar sob a suspeição de atos ilícitos e
criminosos. Dilma sai de Brasília, Dilma volta a Porto Alegre. Trocar uma
cidade pela outra não significa, no entanto, que as suas dores de cabeça
ficarão no passado. Os problemas viajam com ela, entre eles as questões da Lava
Jato – sobretudo agora que uma outra frente de investigação acaba de ser aberta
por improbidade administrativa, conforme ISTOÉ apurou com exclusividade.
Dilma despede-se no domingo 4 da aeronave da FAB que tanto a
transportou e, daqui para frente, terá de arcar com o custo das passagens.
Nessa super crise, isso é ruim para o bolso, e ela por enquanto não gastará no
exterior: assumirá no Brasil a articulação de movimentos sociais, mantendo uma
equipe em Brasília e outra na capital gaúcha — o Instituto Cidadania ficará sob
a sua gestão e se valerá em São Paulo da estrutura do Instituto Lula. Dilma
viajará , isso sim, para prestar muitos esclarecimentos à PF e à Justiça, uma
vez que o Ministério Público Federal do DF decidiu incluí-la em um inquérito
civil sobre o caso das pedaladas fiscais. Após o impeachment, a Procuradoria
decidiu analisar a sua responsabilidade específica em relação ao ano de 2014:
os investigadores querem saber se as manobras fiscais foram feitas para maquiar
contas com o objetivo de ganhar a eleição.
CURITIBA COMO DESTINO
Além das pedaladas, Dilma ainda tem de enfrentar a Lava
Jato. Ela já é investigada em um inquérito no STF sob a suspeita de tentar
obstruir a operação por meio da nomeação de Marcelo Navarro ao cargo de
ministro do STJ, segundo a delação do ex-senador Delcídio do Amaral, revelada
por ISTOÉ. Delcídio assegura que Navarro foi nomeado com uma lição de casa a
fazer, que era a de libertar empreiteiros presos pela corrupção na Petrobras (o
então presidente do STJ Francisco Falcão e o ex- ministro da Justiça José
Eduardo Cardozo teriam participado dessa articulação). Esse inquérito contra
Dilma deverá ser mantido no Supremo, mesmo com o impeachment, porque Falcão e
Navarro possuem foro privilegiado. Mais: um dos pedidos do procurador-geral da
República, Rodrigo Janot, é a tomada de depoimento da ex-presidente, o que
significa ela viajar a Brasília que outrora lhe deu poder e desmando. Outras
delações em negociação podem implicar-lhe ainda mais, só que esses casos
provavelmente ficarão nas mãos do juiz Sérgio Moro. E lá vai Dilma comprar
passagem aérea para Curitiba.
O ex-marqueteiro petista João Santana e sua mulher, Mônica
Moura, já disseram a Moro que dívidas da campanha de Dilma em 2010 foram pagas
por meio de caixa dois pelo empresário Zwi Skornicki, lobista com atuação na
Petrobras – Santana recebeu em uma das contas secretas na Suíça o total de US$
4,5 milhões. Além disso, os investigadores de Curitiba vão poder analisar as
citações a Dilma nas delações premiadas que foram arquivadas por Janot, sob o
argumento de que a presidente não podia ser investigada por atos estranhos ao
mandato. O foco principal é a aquisição, pela Petrobras, da refinaria de
Pasadena, que deu um prejuízo de US$ 792 milhões à estatal. Dilma era
presidente do conselho de administração da empresa e aprovou a transação, em
2005. A refinaria rendeu muito: não produtos mas propinas a políticos e
funcionários da estatal.

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