Da Veja
Com o desenrolar da campanha, o prefeito de Fortaleza (CE),
Roberto Cláudio (PDT), mostra-se um espécime político perfeitamente adaptado às
novas regras para doações eleitorais impostas pela Justiça Eleitoral. Além da
generosidade das pessoas físicas de empresários cearenses, Cláudio conta em sua
campanha com a colaboração financeira daqueles que ocupam gabinetes e
repartições da prefeitura. Uma comissão provisória do Diretório Municipal do
PDT, presidido pelo prefeito, recebeu 770.000 reais em doações de 453 pessoas
físicas e remeteu o dinheiro à campanha de Cláudio em meados agosto. Deste
montante, 78.000 reais vieram de 53 servidores municipais, 44 dos quais
ocupantes de cargos em comissão, ou seja, mantêm o emprego público graças às
bênçãos do prefeito e sua equipe e, portanto, têm tanto interesse quanto
Roberto Cláudio em sua reeleição.
Embora a resolução 23.432 do Tribunal Superior Eleitoral
(TSE), baixada em 2014, proíba que partidos e suas fundações recebam doações de
autoridades públicas “que exerçam cargos de chefia ou direção na administração
pública direta ou indireta”, aparecem como “doadores originários” dos recursos
intermediados pelo partido a Roberto Cláudio quatro secretários municipais,
três secretários executivos, o procurador-geral do município e 31 diretores,
cargo comissionado em que há três níveis. Um superintendente e três assessores
especiais também doaram, além de nove servidores concursados. Todas as doações
foram feitas em valores redondos, variando entre 1.000 reais e 5.000 reais.
A doação mais generosa saiu do bolso de Samuel Antonio Silva
Dias, secretário municipal de Infraestrutura, que ajudou com 5.000 reais. Júlio
Ramon Soares Oliveira, secretário de Governo da gestão de Roberto Cláudio, vem
a seguir, com 3.000 reais doados. Os outros secretários que aparecem como
“doadores originários” são Ricardo Pereira Sales, da regional do Centro, com
2.000 reais, e Águeda Muniz, secretária de Urbanismo e Meio Ambiente, com 1.000
reais.
O procurador-geral de Fortaleza, José Leite Jucá Filho, cujo
cargo tem status de secretário, doou 1.000 reais. A também procuradora Valéria
Moraes Lopes e Silva colaborou com a mesma quantia.
Dos nomeados para os cargos de Direção de Nível Superior
(DNS) e Direção de Assessoramento Superior (DAS), 13 servidores de nível um
doaram 18.000 reais no total, 13 de nível dois colaboraram com 16.000 reais e
cinco de nível três doaram 7.000 reais.
Um degrau abaixo na hierarquia municipal, três secretários
executivos também tiveram dinheiro repassado pelo PDT da capital cearense ao
prefeito. Laudélio Antonio de Oliveira Bastos, número dois da Secretaria
Municipal de Governo, doou 2.000 reais. Mário Fracalossi Júnior, secretário
executivo do Instituto de Planejamento de Fortaleza, e Eveline Maria Cordeiro
Brandão, secretária executiva de Urbanismo e Meio Ambiente, doaram cada um
1.000 reais.
Entre os assessores especiais, David Gabriel Ferreira
Duarte, que bate ponto no gabinete do prefeito, e Sarah Feitosa Cavalcante, da
Secretaria de Governo, doaram, cada um, 2.000 reais ao partido, depois
despejados no caixa de Roberto Cláudio. João José Vasco Peixoto Furtado,
assessor especial da Fundação de Ciência, Tecnologia e Inovação de Fortaleza,
colaborou com 1.000 reais, mesmo numerário investido pelo superintendente do
Instituto de Planejamento, Eudoro Walter de Santana.
Mais abaixo na cadeia hierárquica da administração municipal
de Fortaleza, nove “doadores originários” do dinheiro repassado pelo PDT ao
prefeito ocupam cargos para os quais é necessário passar em concurso: um
engenheiro civil, um engenheiro eletricista, dois médicos, três pedagogos, um
professor pedagogo e uma assistente social. Após o intermédio do PDT, eles
deixaram 15.000 reais no caixa da campanha.
A reportagem de VEJA procurou Roberto Cláudio. Sua
assessoria de imprensa respondeu que os 770.000 reais remetidos pela Comissão
Provisória do PDT municipal a sua campanha, na qual os servidores municipais
são discriminados pelo TSE como “doadores originários”, vieram de um jantar
promovido pelo partido para levantar fundos.
Para o TSE, no entanto, “é vedado aos partidos políticos e
às suas fundações receber, direta ou indiretamente, sob qualquer forma ou
pretexto, doação, contribuição ou auxílio pecuniário ou estimável em dinheiro,
inclusive por meio de publicidade de qualquer espécie, procedente de”, entre
outros, as chamadas autoridades públicas.
Roberto Cláudio amealhou até agora 3.852.500 reais em
doações de campanha e ainda não declarou despesas à Justiça Eleitoral.

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