No último fim de semana, quatro pessoas foram detidas ao
pichar em diferentes regiões da cidade –uma delas rabiscava o prédio da
prefeitura, no centro. Doria chegou a anunciar que 28 haviam sido presos, mas
sua assessoria disse que o número anunciado foi um "equívoco".
Em resposta à proposta do prefeito de transformar pichadores
em grafiteiros –ele quer criar um "grafitódromo" na cidade inspirado
em um bairro de Miami–, um pichador escreveu "Doria, pixo é arte" em
um prédio próximo ao terminal Bandeira (centro), que fica no caminho do tucano
para a prefeitura.
Na zona leste, o grafiteiro Todyone, 33, pintou um Doria
vestido de gari, varrendo a pichação para debaixo do tapete e dizendo:
"Isso não é arte! Romero Britto é 'top'!".
No largo da Batata (zona oeste), o canteiro ganhou os dizeres:
"Não dê vexame, São Paulo não é Miami". Seu autor, o ativista e
grafiteiro Mundano, 30, diz que "uma cidade linda não é uma cidade
cinza". "Sou contra uma cidade monocromática, calada."
Esses grafiteiros e pichadores são movidos pela ilegalidade
e pelo desafio –a pichação pode ser enquadrada como dano ao patrimônio ou crime
ambiental, infrações leves, não punidas com prisão.
Numa quinta à noite, reunidos em uma via no centro de São
Paulo, pichadores mostravam uns para os outros os escritos que pretendiam fazer
e comentavam as últimas declarações do prefeito. "O Doria falar essas
coisas só alimenta mais nossa vontade de subir nas paredes", dizia um.
"Se legalizar, deixa de ser grafite", afirmou outro.
Autor da pichação no terminal Bandeira, um rapaz de 33 anos
da "família" Telas diz que aquilo "não foi para atacar".
"Queria expor para ele que por mais que seja vista como poluição visual
aqui, lá fora a pichação é vista como arte", diz, admitindo que não
gostaria de ter a casa pichada, "mas teria que aceitar".
Para pintar a parede do prédio, pendurou-se no alto do
edifício com uma corda, técnica que aprendeu com a identidade que assume de dia
–ele é pintor predial.
Em uma carta a Doria, outro integrante do grupo que
participou da ação diz que a pichação "carrega o grito de cidadãos que não
têm garantido seu espaço e seus direitos, que não provoca, mas denuncia a
degradação da cidade". "O senhor declara o combate à 'pixação' por
ser uma agressão à cidade, mas não pensa em garantir uma cidade menos agressora
a seus moradores?", questiona.
Para Júlio Nicolau, da Trevo, empresa que mantém um
estacionamento no edifício, a pichação do grupo é "descabível" e
deverá ser apagada.
'GRAFITÓDROMO'
Na 23 de Maio, onde a gestão Fernando Haddad (PT) inaugurou
murais em todo o corredor, Doria diz que manterá oito trechos grafitados
–"os demais já estão envelhecidos ou foram mutilados por pichadores",
disse. Alguns grafiteiros defendem apagar periodicamente esses murais para dar
espaço à renovação.
O "grafitódromo" que a cidade deve ganhar terá
café, loja e um espaço de convivência para oficinas, segundo o secretário de
Cultura, André Sturm. Ele diz estudar locais na Mooca (zona leste) e na Sé.
"Será um local para aprender técnicas, de referência."
A ideia é inspirada em Wynwood, em Miami, distrito onde
galerias se estabeleceram após uma onda de gentrificação. Para Rui Amaral, 56,
um dos curadores dos painéis da 23 de maio, porém, São Paulo já tem espaços
assim, livres e nascidos de forma orgânica. "Começamos a grafitar a Vila
Madalena no anos 1980."

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