Miguel Esteves Cardoso, Observatório da Imprensa
Era um revolucionário burguês. Os burgueses criticaram-no
por ser revolucionário e os revolucionários criticaram-no por ser burguês. Era
por isso que ele é tão refrescantemente moderno: ainda não nos aproximamos do
que ele queria para nós.
Mário Soares não levou nada com ele. Deixou tudo conosco. É
essa a maior generosidade que uma pessoa pode ter: querer tudo para os outros e
dedicar a vida a lutar por isso — e por nós.
Mário Soares não se importava que não gostassem dele. Ia em
frente, achassem o que achassem. É essa a coragem maravilhosa que deixou:
serviu de exemplo da liberdade mais importante de todas, que é a liberdade de
sermos como somos e acreditarmos no que acreditamos.
Mário Soares foi um rebelde e um inconveniente. Era um
grande erro tratá-lo com condescendência ou passar-lhe a mão pela cabeça. Ele
reagia com arrogância não só à arrogância como aos excessos de humildade. Não
era nenhum santo, graças a Deus. E nunca nos deixava esquecer isso. No final de
cada batalha — a grande maioria das quais perdeu descaradamennte — Mário Soares
parava para dar lugar aos vencedores, saudando-os de igual para igual, como se
também tivessem perdido.
Mário Soares era uma pessoa profundamente civilizada e
humana. Revia-se nas fraquezas que todos herdamos mas poucos reconhecem. Era
mimado mas recusava-se a mimar. Respeitava os outros não porque os outros
tinham alguma coisa de especial — mas porque não tinham. Eram seres humanos,
cidadãos, compatriotas. E isso chega. Isso deveria sempre chegar se todos nós
tivéssemos a ideia generosa de democracia que Mário Soares tinha, pôs em
prática e deixou para que nos habituássemos a ela e fôssemos, por nossa vez,
libertados por ela.
Mário Soares deixou a pessoa dele nas gerações de camaradas
e opositores que ele direta ou indiretamente inspirou. Podemos não reconhecer
essa dívida — tanto faz. A liberdade de cada um de nós não cai nem cresce por
causa do mal ou do bem que pensamos dela. É essa a única liberdade valiosa: a
que não depende da nossa aceitação; a que é independente da nossa vontade de
exercê-la ou reprimi-la.
Um republicano socialista
Pode-se falar mal de Mário Soares, o mal que se quiser. Não
há nada que ele não tivesse ouvido em vida — e verdadeiramente tolerado, não
com sobranceira indiferença, mas com o respeito democrático que vem dar ao
mesmo. Encolher os ombros faz parte da liberdade. Foi Mário Soares que nos
ensinou isso, tanto quando ergueu o punho como quando encolheu os ombros.
Mário Soares era o político que era uma pessoa. Recusou-se
sempre a ser um salvador ou uma figura acima da multidão. Ele era o político
que era de um partido — o Partido Socialista — e com muita honra. Ele era um
laico convicto, capaz de dar tudo pela liberdade religiosa de todos aqueles que
têm religiões diferentes da grande maioria. Ele era um republicano honrado que
sabia falar com monárquicos, que os monárquicos respeitavam por ter sempre
consciência de que tudo depende sempre do que sente cada um de nós e que as
nossas crenças, nunca sólidas ou imutáveis, são tão nossas como a nossa
humanidade.
É essa semelhança no que nos distingue que nos dá razão para
acreditar na humanidade e em ideais tão antigos e modernos como a liberdade, a
fraternidade, a justiça e o progresso econômico, social e político.
Mário Soares era um revolucionário burguês. Os burgueses
criticaram-no por ser revolucionário e os revolucionários criticaram-no por ser
burguês. Era por isso que ele é tão refrescantemente moderno: ainda não nos
aproximamos do que ele queria para nós.
Ele deu-nos o desconto, compreendeu a nossa volubilidade e a
nossa desconfiança. Compreendeu a nossa tendência ora messiânica, ora
depressiva. Nunca se iludiu acerca de nós. Aceitou-nos como nós somos,
recusando sempre os papéis providenciais que alguns de nós gostaríamos de
impor-lhe, de pai ou de profeta.
Mário Soares foi sempre intransigentemente humano. Ou seja:
transigiu em tudo. Negociou, esperou para ver, mudou de opinião. Foi um
político inteligentíssimo que nunca teve paciência para se armar em superior.
Sempre soubemos quem ele era e ao que vinha. Paradoxalmente, acabou por se
prejudicar mais do que estava disposto a fazer. Foi pena não ter estado mais
tempo no poder. Mas o preço disso — fingir ser quem não era, achar-se melhor do
que nós — era caro de mais para ele. E ele fez bem em não pagá-lo, por muito
jeito que tivesse dado a Portugal.
No dia em que morreu Mário Soares saúdo a liberdade que nos
deixou, que está conosco agora, ao ponto de eu poder escrever estas linhas sem
sentir o mais pequeno constrangimento ou ter de ceder a mais sensata obrigação.
Ele quis — deu a vida política por isso — que falássemos à
vontade e que fôssemos tratados como cidadãos, com respeito pelas nossas
opiniões e a força do Estado atrás do nosso direito de exprimi-las e lutar por
elas.
Ganhávamos muito em aprender com ele — não tanto o que ele
nos disse e ensinou, mas a maneira livre e vaidosa, civilizada, egoísta e
profundamente humana como ele viveu.
Perdemos uma grande pessoa. Mas aquilo que nos deixou — que
só temos de não desperdiçar — é muitíssimo maior. E essa é a grandeza que Mário
Soares teve: deixar-nos tudo. Nunca mais haverá um Mário Soares. Mas nunca
ninguém nos deixou uma grandeza maior.
Miguel Esteves Cardoso é um jornalista e escritor português.

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