.

.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

DIÁLOGO INCONCLUSIVO

Da Folha de S.Paulo

Em conversa gravada, o presidente Michel Temer (PMDB) afirmou ao empresário Joesley Batista, ao ouvir as iniciativas que o dono do grupo JBS vinha tomando com relação ao ex-deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ): "Tem que manter isso, viu?". O trecho do diálogo não é conclusivo sobre a realização de pagamentos ao ex-deputado para comprar seu silêncio.

A conversa contém trechos inaudíveis. Após a fala de Temer, Batista afirma: "Todo mês", o que indica, segundo o empresário afirmou em seu acordo de delação premiada fechada com a PGR (Procuradoria Geral da República), acertos em dinheiro.

Não houve divulgação de transcrição oficial do diálogo liberado pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Novos trechos ainda podem vir a público.
Cunha, que está preso em Curitiba (PR), tem indicado nos bastidores a ideia de fazer um acordo de delação com a Lava Jato.

O sigilo judicial sobre a gravação, que integra o acordo de delação premiada homologada com o empresário do grupo JBS, foi levantado nesta quinta-feira (18) por ordem do ministro relator dos casos da Operação Lava Jato no STF, Edson Fachin.

Minutos antes, o ministro havia autorizado a entrega de uma cópia da gravação à área jurídica do Palácio do Planalto.

A gravação tem ao todo 38min57s. O trecho em que Batista trata com Temer sobre o seu relacionamento com Eduardo Cunha, que está preso por ordem do juiz federal Sergio Moro, dura cerca de três minutos.

Batista afirma que fez "o máximo" e "zerou tudo", referindo-se a "pendências" que tinha com Eduardo Cunha. O ex-deputado teria "cobrado" algo que não fica claro na conversa. Batista contou ao presidente que tinha um contato em comum tanto com Cunha quanto com seu aliado, o corretor de valores Lúcio Bolonha Funaro: tratava-se do ex-ministro da Secretaria de Governo Geddel Vieira Lima.

Contudo, Batista disse que perdeu contato com Geddel depois do escândalo que levou à queda de ministro no final do ano passado. Geddel passou a ser "investigado", segundo Batista, e por isso ele evitava entrar em contato com ele.
Temer concordou com o empresário, falou em "cuidado", em um cenário "complicado" e ponderou que poderia aparentar uma "obstrução à Justiça", conduta considerada crime pelo Código Penal.

Na sequência da conversa, Batista resume o quadro: "O que que eu mais ou menos dei conta de fazer até agora. Eu tô de bem com o Eduardo, ok?".
Nesse momento, Temer concorda: "Tem que manter isso, viu?". Batista complementa: "Todo mês".

A partir daí, a conversa muda de foco, Batista passa a falar sobre a situação dos processos a que responde em Brasília.

Em outra gravação, Batista afirma ao deputado federal Rodrigo Loures (PMDB-PR) a sua versão sobre o que teria dito a Michel Temer. "Eu disse pra Michel, desde quando Eduardo foi preso e ele [Funaro] quem está segurando as pontas sou eu". Loures concordou: "Cuidando deles lá".

Para o deputado, essa ajuda "estabilizou" Cunha.

"Agora, o que eu comentei com Michel que o problema é o seguinte, ô, Rodrigo, a gente tem que pensar que essa situação não dá para ficar o resto da vida. Um mês vai, dois meses, três meses, seis meses, mas vai chegando uma hora que você vai indo, você vai indo..."

Veja a transcrição do diálogo:

BATISTA Queria primeiro dizer: estamos juntos aí. O que o senhor precisar de mim, me fala... Queria te ouvir um pouco, presidente. Como tá essa situação toda com o Eduardo [Cunha], não sei o quê, Lava Jato...

TEMER O Eduardo resolveu me fustigar. Você viu que...

BATISTA Não sei, como que tá essa situação?

TEMER Eu não tenho nada a ver com a defesa. O Moro indeferiu 21 perguntas dele que não têm nada a ver com a defesa dele. Eu não fiz nada [inaudível]

BATISTA: Queria falar assim: dentro do possível, eu fiz o máximo que deu ali, zerei tudo, o que tinha de alguma pendência daqui pra ali zerou, tal. Ele [Cunha] foi firme em cima, ele já tava lá, veio, cobrou... Pronto, eu acelerei o passo e tirei da frente. O outro menino, o companheiro dele que tá aqui, né... O Geddel sempre tava...

TEMER: [inaudível]

BATISTA: Esse... Geddel que andava sempre ali. Mas Geddel também, com esse negócio eu perdi o contato. Ele virou investigado, agora eu não posso encontrar ele...

TEMER: É, vai com cuidado. [inaudível] Obstrução de Justiça [inaudível]

BATISTA: O negócio dos vazamentos, o telefone lá do Eduardo com o Geddel, volta e meia citava alguma coisa meio tangenciando a nós, a não sei o quê. Eu tô lá me defendendo. O que que eu mais ou menos dei conta de fazer até agora: eu tô de bem com o Eduardo, ok

TEMER: Tem que manter isso, viu? [inaudível]

BATISTA: Todo mês...

TEMER: [inaudível]

BATISTA: Também. Eu tô segurando as pontas, tô indo. Meus processos, eu tô meio enrolado aqui, né [Brasília]. No processo [inaudível]

BATISTA: Isso, é, investigado. Não tenho ainda a denúncia. Aqui eu dei conta, de um lado, do juiz, dar uma segurada, do outro lado, do juiz substituto, que é um cara que fica.... [inaudível]

TEMER: Tá segurando os dois...

BATISTA: Tô segurando os dois. Consegui um procurador dentro da força tarefa, que tá, também tá me dando informação. E lá que eu tô para dar conta de trocar o procurador que tá atrás de mim. Se eu der conta, tem o lado bom e o lado ruim. O lado bom é que dá uma esfriada até o outro chegar e tal. O lado ruim é que se vem um cara com raiva ou com não sei o quê...

BATISTA: O que tá me ajudando tá bom, beleza. Agora, o principal... O que tá me investigando. Eu consegui colar um [procurador] no grupo. Agora eu tô tentando trocar

TEMER: O que tá... [inaudível]

BATISTA: Isso! Tamo nessa aí. Então tá meio assim, ele saiu de férias, até essa semana eu fiquei preocupado porque até saiu um burburinho de que iam trocar ele, não sei o quê, fico com medo. Eu tô só contando essa história para dizer que estou me defendendo aí, to me segurando. Os dois lá estão mantendo, tudo bem.
Bookmark and Share

Nenhum comentário:

Postar um comentário