Helena Chagas, Os Divergentes
Em tese, a JBS e outras ex-campeãs nacionais estão para o
BNDES da mesma maneira que a Odebrecht e outras empreiteiras estão para a
Petrobras. Assim como a Operação Bullish, deflagrada para apurar
irregularidades em operações do banco de fomento que teriam beneficiado a
empresa, tem potencial para se espraiar e se tornar uma nova Lava Jato.
É o que dizem dez entre dez observadores da cena
político-policial, que estavam prevendo isso há tempos, só esperando o momento
em que o BNDES iria entrar na roda, com todos os ingredientes explosivos da
corrupção e os estragos possíveis e imagináveis.
Só que não. Os primeiros passos da investigação, o
comportamento de investigadores e investigados, e o próprio ambiente que vai se
criando no país desaconselham previsões de que a história vai se repetir.
Tudo indica que o BNDES não será a Petrobras amanhã, e que a
distância que separa as duas empresas nesse caso será bem maior do que os
poucos metros que se percorrem na Avenida Chile, no Centro do Rio, para ir de
uma a outra.
Advogados que acompanham a Lava Jato apontam diferenças
entre o tratamento dado pela força tarefa de Curitiba aos acusados do Petrolão
e a condução do juiz federal Ricardo Leite, de Brasília, na Bullish.
Leite, por exemplo, autorizou a operação da PF mas negou o
pedido de prisão dos sócios do grupo J&F, Joesley e Wesley Batista. Também não
mandou prender ex-dirigentes do Banco, que irão prestar depoimento e
dificilmente sairão presos dele.
Os dois irmãos, aliás, teriam começado a articular a delação
premiada de um deles antes da própria Bullish, no rastro de outras denúncias
que os fizeram sentir que seriam a bola da vez.
De modo geral, está havendo menos pirotecnia e mais
sobriedade no comando da investigação que tem como alvo o BNDES. Não se pode
dizer que isso seja sinal de que as denúncias e suspeitas de irregularidades
que pesam sobre o banco de fomento não tenham nem o grau, nem as cifras, nem a
gravidade dos desvios encontrados na Petrobras. Isso, só as investigações podem
dizer.
Também não parece ser só uma questão de estilo.
O que talvez tenha mudado, mesmo, é a percepção da sociedade
em relação a investigações de grandes escândalos, transmitidas em tempo real,
chocando o país e o levando à saturação por meses e até anos a fio.
O distinto público parece estar cansado, e a polarização
política que acompanha a Lava Jato e seus exageros começa a arranhar a imagem
até de investigadores. Ainda é certo que todo juiz brasileiro sonha em ter seu
dia de Sérgio Moro, mas não necessariamente os confrontos nos quais o juiz de
Curitiba está hoje envolvido.
A Polícia Federal e o Ministério Público também saíram
machucados de seus embates.
Ao mesmo tempo, em meio à crise recessiva que teima em não
ir embora, estaria começando a haver mais cuidado com efeitos colaterais, como
o desmantelamento e a perda de valor e de empregos das empresas investigadas.
A Lava Jato varreu a Petrobras como um tsunami e afetou
profundamente o mercado de óleo e gás e de construção do país.
As empreiteiras acusadas estão fazendo seus acordos de
leniência para, acima de tudo, sobreviver - e quem chegar atrasada pode nem
conseguir. Será parecido o destino do BNDES, da JBS e de outras que certamente
vão entrar no olho do furacão?
A sociedade está cansada, os investigadores e
julgadores perderam a aura da
intocabilidade depois de seguidos exageros e a própria mídia anda mais
cautelosa.
A Bullish não está ocupando nem 10% do espaço da Lava Jato.
A operação da semana que prendeu fiscais do Ministério da Agricultura que
receberam propina para afrouxar a fiscalização de frigoríficos no Tocantins,
por sua vez, teve divulgação, cobertura e repercussão infinitamente menores do
que a antecessora Carne Fraca - aquela que quase acabou com a exportação de
carne brasileira.
Vivendo e aprendendo. Ainda é cedo para se saber se
será assimilada, mas a lição, neste
caso, é de que deve haver um jeito de investigar, punir e combater duramente a
corrupção sem explodir o quarteirão e matar todo mundo.
Artigo publicado no Blog do Noblat
Artigo publicado no Blog do Noblat

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