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segunda-feira, 17 de julho de 2017

AS AMANTES DE GETÚLIO

Um sujeito prepotente, egoísta, que nutria um grande apreço por si próprio e, ao mesmo tempo, um desprezo total por outras pessoas – inclusive amigos. A frieza que pontuou a trajetória do ex-presidente Getúlio Vargas (1882–1954) foi quebrada por uma única pessoa, teoricamente bem mais inofensiva do que a imprensa livre ou qualquer outro adversário que cruzou o seu caminho. Aimeé Lopes, uma paranaense elegante e culta, que viajava com frequência para a Europa e dominava seis idiomas, entrou na vida de Vargas em 17 de abril de 1937. O presidente – que completara bodas de prata ao lado de dona Darcy, casada com ele desde os 15 anos – não resistiu ao charme de Aimeé, esposa de seu amigo e oficial de gabinete Luiz Simões Lopes, que mais adiante viria a presidir a Fundação Getúlio Vargas por quase cinco décadas. Naquela data, o homem mais poderoso do País escreveria em seu diário a primeira de cerca de 20 citações que fez à amante: “Ocorrência sentimental de transbordante alegria”. Mais: dizia-se “um homem no declínio da vida… banhado por um raio de sol”. No livro “Os Tempos de Getúlio Vargas” (Topbooks), o escritor soteropolitano José Carlos Mello não só crava o romance que corria a boca pequena como deixa claro que Aimeé feriu o coração de Vargas. “Aimeé não o amou. Na sua juventude tinha fascínio por ser amante da autoridade máxima do País”, diz o autor, 69 anos, que há 20 pesquisa a vida do gaúcho de São Borja. “Ela não queria se casar, ter filhos, pretendia uma vida livre não compatível com a sociedade da época.” Mello se debruçou por três anos sobre as 1.257 páginas do diário do “pai dos pobres” com o intuito de apresentar uma história mais verdadeira do que ficcional sobre Vargas.
O trunfo de seu livro, não menos caudaloso (600 páginas), é detalhar a faceta menos discutida do estadista, especialmente a sua vida íntima e o seu leque de amantes. Mulherengo, o todo-poderoso líder gaúcho contava com os préstimos do amigo Iedo Fiúza, que foi prefeito de Petrópolis, para dar as suas escapadas. “Fiúza sabia onde estavam os melhores endereços para trazer calma ao presidente, conhecia as mais discretas garçonnières da cidade”, escreve o autor. E não foram poucos os episódios de infidelidade. Os “amores mercenários”, como Vargas se referia às amantes, provocavam ciúme em sua esposa. As saídas dele com Fiúza aconteciam à noite ou mesmo no meio da tarde. O pretexto mais frequente: inspeção a obras rodoviárias. “Não imagino a esposa do presidente indo além de um chilique com o marido. Ele a mandaria de volta a São Borja, se ela passasse dos limites”, diz Mello sobre Darcy, que assistiu ao casamento definhar e se resumir a partidas de dominó e pingue-pongue.
Nos três últimos anos de vida, Vargas remediava o marasmo de seu matrimônio falido nos braços da atriz Virgínia Lane ou, nas palavras dele, “a vedete do Brasil”, cujas pernas eram uma mania nacional. “Ela não foi além de uma companhia para o político, que beirava os 70 anos naquela época”, diz Mello. Os encontros do casal aconteciam no apartamento de Virgínia, em Copacabana.
O presidente entrava de carro pela garagem e o condutor, um tenente, o aguardava. Para a atriz, que irá completar 92 anos este mês, Vargas foi um grande amor que a estimulou a estudar direito. Na avaliação de Mello, contudo, Aimeé, que morreu aos 104 anos, em 2006, merece o título de grande paixão do presidente. Juntos, os dois cavalgavam e caçavam em bosques. Trocavam olhares provocativos em eventos. O romance atravessou os anos 1937 e 1938 e terminou por iniciativa da paranaense, que optou por se divorciar do marido e abandonar o amante. Não era uma mulher de vínculos.
Sem a “bem-amada”, como Vargas se referia a ela, até mesmo os amores mercenários deixaram de encantá-lo. Assim Vargas registrou para a posteridade a importância de Aimeé: “Vou a uma visita galante. Saio um tanto decepcionado. Não tem o encanto das anteriores. Foi-se o meu amor, e nada se lhe pode aproximar.” Seu coração parara de bater muito antes que ele atirasse contra o próprio peito e colocasse fim à vida em 1954.
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