A memória mais antiga que tenho de Winston Churchill talvez
seja a de quase todo mundo: a do senhor corpulento, charuto na boca, gravata
borboleta, dedos em riste a celebrar o V da vitória. Seu vestuário era uma
expressão daquilo que ele era, não um adorno dispensável ou o fruto de uma
vaidade tola. A gravata borboleta e o charuto eram a sua marca distintiva,
complementos de sua personalidade que não podem ser reduzidos a meros
acessórios.
Seu traje exprimia “até certo ponto sua personalidade
moral”, como observou Plinio Corrêa de Oliveira em relação a todos os que sabem
que, porque o homem não é apenas matéria, o vestuário deveria “também prestar
serviço ao espírito”. Como escrevi aqui tempos atrás, não é de hoje que se
perdeu a compreensão de que as vestes transmitem dignidade, grandeza, valores,
seriedade. A roupa que vestimos mostra o respeito que temos por nós mesmos e
pelos outros – dado que é um símbolo de certas virtudes materializado na maneira
como nos apresentamos em privado e publicamente.
Uma sociedade civilizada é desenvolvida e se mantém pelo
estímulo e exercício de um sentido de dever e de educação que estabelecem uma
conversação com as vozes greco-romanas e judaico-cristãs do passado. Conjuntamente,
assentam-se no reconhecimento de uma hierarquia objetiva de valores, de
comportamentos e, por que não dizer, do vestuário. É outro ensinamento que
trago comigo desde que me foi transmitido pelo professor português João Carlos
Espada, outro gentil-homem que usa a gravata borboleta (bow tie, em inglês,
como ele costuma dizer) e sabe o valor dos símbolos materializados naquilo que
o indivíduo veste.
Pensei em Churchill porque estarei daqui a dois dias no Rio
de Janeiro, junto com o amigo Alexandre Borges, também colunista deste jornal,
para uma conversa a seguir à pré-estreia do filme O Destino de uma Nação, que
narra a atuação de Churchill como primeiro-ministro inglês numa fase da Segunda
Guerra. Mais ainda: pensei em Churchill, em João Carlos Espada e no valor do
vestuário ao lembrar algumas poucas reações descompensadas diante de uma
entrevista que concedi na semana passada. Os ricochetes verbais eram contra
algo cujo conteúdo uns poucos ignoravam, posto que, leitores de manchetes, não
leram e não gostaram do que eu teria dito na entrevista, mas que não disse. Com
base na mais plena ignorância, pretenderam levantar dois pontos que lhes
pareciam essenciais, absolutos, definitivos, fatais: leio livros e uso gravata
borboleta.
Em meu desfavor constava o fato de que, sim, eu sou leitor e
uso gravata borboleta – a rigor, chama-se gravata de laço; borboleta é um de
seus modelos.
Mas o que tais “acusações” significavam exatamente? Ao
acusarem-me de ser leitor de livros, o que a legião de meia-dúzia parecia
querer dizer era que a minha opinião de nada valia porque, ao não engrossar o
coro dos radicais otimistas acerca da vitória maciça da direita política nas
eleições de 2018, eu, porque intelectual, não entendia o povão, esta abstração.
Essa gente é como o general do livro Triste Fim de Policarpo
Quaresma, de Lima Barreto, que, ao referir-se ao protagonista, emitiu essa
declaração de princípios: “Aquele Quaresma podia estar bem, mas foi meter-se
com livros… É isto! Eu, há bem quarenta anos que não pego em livro…”.
Para os que me atacaram, e cujo perfil esbocei no artigo “Os
jacobinos da nova direita”, havia algo a mais do que o pecado de ser eu um
leitor. A prova cabal da minha ignorância acerca da realidade brasileira – de
que essa legião de meia-dúzia pretende, assim como a esquerda, ser arauto e
porta-voz – era, vejam que coisa, o meu vestuário, a minha gravata.
Essa curiosa revolta contra a gravata borboleta, cuja origem
desconheço, é por mim conhecida desde que comecei a vesti-la em 2009 por
influência de Churchill e do professor Espada, dois conservadores. Talvez a
peça represente, na cabeça de alguns, um elitismo intolerável; de acordo com
essa visão, seria uma maneira de quem usa a gravata de laço de exibir-se como
superior a tudo e a todos.
Não lhes passa pela cabeça que uma gravata de laço seja uma
mera gravata de laço usada por quem gosta de gravata de laço. Para essa turba,
a gravata de laço representa um símbolo inaceitável de soberba e de elitismo,
logo ela, uma peça do vestuário que era de uso comum no Brasil até, pelo menos,
a década de 1950 por homens de realidades sociais e econômicas muito distintas.
No livro Ação Humana, o economista Ludwig von Mises definiu
como polilogismo a afirmação do marxismo segundo a qual “a forma de pensar de
uma pessoa é determinada pela classe a que pertence”. Numa versão bastante
singular, os que fazem gracejos ou que me atacam por eu usar gravata de laço
assim o fazem segundo uma, por analogia, concepção estética do polilogismo. A
minha forma de pensar, portanto, seria determinada pela classe a que eu
supostamente pertenço: a dos leitores que usam gravata de laço. “Aquele
Garschagen podia estar bem, mas foi meter-se com livros e gravata borboleta…”
Longe de mim querer pôr fim à burrice de quem quer que seja,
mas alguns que estão nessa de “sou de direita” enveredaram não só por um
anti-intelectualismo estúpido e estéril, mas por uma reação um tanto esquisita
contra (não riam) vestuário, gravatas, charutos, cachimbos e que tais. Sem ter
muito o que pensar, pois que a iliteracia é tão grave quanto a burrice, viraram
fiscais dos objetos alheios. No Brasil de hoje, Winston Churchill seria
insultado por essa gente, ridicularizado como alguém que lê e que usa
“gravatinha”.
Mas por que dar importância a um grupo pequeno e irrelevante,
embora barulhento? Porque barulhento, poderá passar a impressão de que é maior
e mais relevante. E aprofundar o equívoco já existente contra o pensamento
conservador. Denunciar a natureza daquilo que ruminam e dos atos que os
desqualificam é uma das maneiras de dissociá-los do conservadorismo e evitar
que com eles sejamos vinculados.
A mim só resta continuar cuidando do que realmente importa:
colaborar para desenvolver o pensamento conservador e para melhorar o país –
continuando, claro, lendo livros e usando gravata borboleta.

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